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Full text of "Dicionário Biográfico De Músicos Portugueses José Mazza"

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JOSE MAZZA 

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dicionArio biografico 
de mosicos portugueses 

COM PREFACIO E NOTAS DO 

P. E JOS£ AUGUSTO ALEGRIA 




EXTRA IDO DA RE VI ST A *OCIDENTE> — i 



Dicionario Biografico 
de Musicos Portugueses 




"A 



Composto e impresso na Tipografia 
da Editorial Impfrio, Lda. — Lisboa 



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JOSE MAZZA 

* 

icionArio biografico 

DE MtiSICOS PORTUGUESES 

COM PREFACIO E NOTAS DO 
P. E JOSfi AUGUSTO ALEGR1A 





EXTRAIDO DA RKViSTA * O C I D E N T E » - / 9 4 4 ! ' <> 4 S 



DICIONARIO biogrAfico 

DE MUSICOS PORTUGUESES 




xiste na SEcgAo de manuscritos da Biblioteca Publica de Evora um 

C X IV 

codice assinalado com a cota d, que o terceiro volume do 



1-26 

catalogo respectivo, de Cunha Rivara e Teles de Matos, na pagma 482, 
raenciona como Diccionario biograpkico de Musicos Portugueses e notieia 
das suas composicoes por Jose Mazza. 

Encadernado em papelao e regularmente conservado, mede 25 cen- 
timetros de comprido por 18,6 de largo. 

No verso da capa leem-se estes tres nomes soltos: Diogo Dias Vi- 
lhena — Gonsalo Martins e Izidoro Alvares, que diz ter sido natural do 
Porto, o que manda confirmar a fl. a 36 do Diccionario. 

Contem o codice em questao noventa e sete folhas (numeradas ori- 
ginariamente de forma alternada de um a quarenta e oito) e mais vmte 
e uraa em branco, marcadas posteriormente (a lapis) com as letras a a. v. 
Fazendo parte do manuscrito, andam soltas oito pegas de que vou dar 
conta pormenorizada. . 

A primeira da notieia de Joao Jose Baldi «natural de Lisboa foi 
seminarista no Real Seminario da Patriarchal nove annos onde aprendeo 
musica com Antonio Leal Moreira Mestre do dito seminario depois foi 
para Mestre da Capella da Cidade da Guarda onde esteve 5 annos e pre- 
sentemente se acha Mestre da Capella da Cidade de Faro o seu forte he' 
compor e toda a qualidade de Musica.* 

E Eleuterio Leal Francho? ^natural de Peniche foi seminarista no 
Seminario ja dito aonde aprendeu musica com seu tio Antonio Leal Mo- 
reira nao me lembra os annos que la esteve agora he substituto do mesmo 
Seminario tambem o seu forte he compor e toda a qualidade de musica.* 

As restantes tres paginas da peca numero 1 estao em branco. 

A segunda contem os seguintes apontamentos : — «Rouseau no seu 
Difionario de Muzica f. as 305 diz q' a Muzica he arte de combinar os sons 
de maneira q' sejao agradaveis ao ouvido, e q' esta arte he huma scienTia 
m. tn profunda se quizermos indagar os prinfipios das suas combinafoens 
e as razoens dos prazeres q' ela nos cauza, e o mesmo M. de Felice na 
sua EnTiclopedia tomo 29 f." 723». 

«Rou|e na praxe do ofifio Devino torn. 3 fl." 427 diz q' o Himno 
das vesperas de S. Joao Batista fora composto por hum relegiozo do Monte 
Casino, xamado Paulo Deacono com tal arte q' nele se exprimem as 7 notas 
do Canto Gregoriano, ut re mi fa sol la a saber nestas palavras ut reso- 
nare, mira famuli, solve, labis, sancte este Paulo Deacono foi do secolo 
nono era natural de Aguilea.» 

As paginas segunda e quarta estao em branco e na terceira traz 
a seguinte nota: — «Cristovao Soares de Figueiroa na sua erudita obra 
de todas as sciencias e artes esta obra he parte traduzida do Toscano de 
Tomas Garzoni, e parte composta pelo dito Cristovaos; e lan^ado a mar- 
gem : «Nada serve esta bem feito sem falta alguma*. 



6 DICIONAEIO BIOGRAFICO DE M&SICOS PORTUGUESES 



Da mesma peca extraio a seguinte missiva do poeta Luis Correia 
de Franc,a e Amaral para Jose Mazza. 

Snr. Jos£ Mazza 

«Amigo e Snr. do C. respondendo a sua carta do prezente correo, 
em primeiro lugar desde ja lhe bejo as maons (sic) pela remessa que nao 
pode deixar de ser grandioza, depois de me assegurar em huraa carta que 
talvez terei ainda mais do que poderia esperar. 

Em segundo, pelo que respeita a Academia, (borrao ilegivel) que o 
titulo que tinha, era Academia das Humanidades de Lisboa. 

Em terceiro, quanto a carta p. 1 o Vicente, digo-lhe que fica entre- 
gue com a sua recomendacao respective a brevidade da resposta: e ulti- 
mam." pelo que toca a Letra da Conceieao, cujo principio me remete, 
sinto nao me caber no tempo a sua concluzao, a qual ira p. 1 o correo se- 
guinte, e creio que chegara ainda a horas de servir: nao quero molestar 
mais a V. M." e m. tD menos falando ida minha infelicidade que cada vez 
mais cresce ; continuo sim, esperando pela sua grandioza remessa, p." po- 
der aparecer diante daquellas pessoas a q. m ate agora me tenho andado 
escondendo ; entre tanto espero me continue os seus honrozos preceitos p.' 
fiel e gostosame. le os executar, como 

seu mais obed. e e obrigd. servo 

Luis Correia de Fran$a e Amaral 

Lx." 18 de Novembro de 1794*. 

A pega n.° 3 da^nos noticia de musicos da Baia. Sao eles — «o P. e M.' 
Fr. Mathias Religiozo Carmelita, Compozitor, e Mestre da Muzica, e fas 
horganos, e otimo em tocar, com voz de tenor. 

Jose de Santa Maria Compozitor, Poeta de versos portuguezes, Mes- 
tre em toudos (sic) os instrumentos, e admiravel na vos, pois en toudas 
as vozes admira. E toudas as modas e compozicoens, todas manao delle 
em q' mais admira he q' com a viola e com a sua vos atrahe a toudos con- 
forme as suas paixoens, aos tristes os fere acompanhando a sua tristeza, 
aos alegres os poem em mais alegria. Com tanta graca e lindeza que a 
mesma viola repete os versos q' os .tinha recitado com a voz. 

Antonio Mathias profecor e compositor, otimo na voz de contralto. 

P. c Mestre Jose Costinha compozitor e mestre e cantor em tenor. 

Na Vila de Santo Amaro reconcavo da Bahia o P. e M. e Jose Fran- 
cisco compozitor, e cantor em contralto, Profe§or de Gramatica, poeta de 
versos latinos e Portugueses.* 

E continua no verso desta primeira pagina da peca n.° 3 — «Jose 
Manoel Profecor, e Compozitor.* 

«Na Cid.' de Sergippe de Elrei Jose da Cruz Profecor, e Compozitor 
e canta contralto. 

«Na Cid. c de Sergippe de Elrei Jose da Cruz Profecor, e Compozitor 
Compozitor da Muzica Letrado de banca. 

«Na villa de Sao Fran." o Rev. P. E M." Fr. Luis de Jesus horga- 
nista compozitor e otimo no contralto Religioso de S. to An.'°.» 

Na pega n.° U escreveu Jose Mazza os varios apontamentos que 
seguem fielmente transcritos: «Monsieur Desprez de Boissi na sua obra 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 7 



intitulada Cartas sobre os Espetaculos, no tomo 1, f. as 587 diz q' no vo- 
lume do anno de 1702 ipaginas 16 Monsieur Geoffroi afirma q' o mal da 
tarantula se cura com o som dos instrumentos 

«da Historia da Academia das Sciencias de Paris o abade de Fon- 
tenai Conta em af. a da Ebdomada das provinsias de 10 de Julho de 1776 
o seguinte cazo, a Princeza de Bellemonti Pignatelli de Napoles, protec- 
tora de todos os homens sabios, axava-se doente, e sercada de Medicos, 
veio vizitala nese mesmo tempo o famoso cavalheiro Raaff q' era Muzico 
apenas este entrou lhe pedio a Princeza q' lhe quize (sic) eantar uma das 
arias q' tinha em sima do seu cravo q' estava fexado, Caio por sorte uma 
do Compozitor Hasse, xamado por sobrenome o sasonio no tempo q' durou 
a aria dezapareseo a fev. q' a devorava sesando inteiram. le toda a facul- 
dade 'MedLca se admirou de tao semelhante mudansa e asentou q' nao podia 
aver remedio mais pronto p." a molestia da Marqueza q a repetisao do 
mesmo canto — veja-se S. u Agostinho, Conf. L. 10 Cap. 33 vejase o m.° 
S. t0 no L. 6 da Muzica.» 

«0 Abade du Bos diz q' A Muzica (Aqui entra o Profeta Amos) da 
Igreja nao deve procurar tantas imita foens, e tantos brincos e tumultos 
de paixoens qual deve procurar a Muzica dos Teatros, mas sim boas armo- 
nias, gravidade, Magestade, e a devofao p. a o Lugar p. a onde he feita, e 
enfim q' nao fafa lembrar nada do Teatro.» 

E continua na outra pagina o seguinte : 

<Jose Zarlino nas suas instituisoens armonicas p. 8 1.* Cap. 27 f. 1 30 
diz q' a Muzica refebe da Arimetica os numeros, e da Geometria as quanti- 
dades mensuraveis, isto he os Corpos sonoros o q' he ferto pois a Muzica 
enferra em Si Linhas, numeros, e mais Coizas q' refebe destas duas scien- 
cias por ifo m. l " s e graves autores xamarao a Muzica seienfia subalterna.> 

sVejase tambem a resp. tu das exfeleneias da Muzica Angelo Maria 
Bandini nos seus Comentarios da vida e escritos do famozo Joao Batista 
Doni q' foi Cardeal do Sacro Colegio.» 

Desgarrada do resto e na mesma pagina esta cita^ao : 

«S'° Agustinho Epistola 28.> 

A pagina seguinte esta em branco e na quarta, ainda da peca que 
tern o n.° 4, le-se mais o que segue: 

«Difionario de Rouseau f. 1 * 305 A Muzica fafe uma seienfia m. t0 
profunda q. 10 mais entrarmos a indagar os prinfipios das suas combina- 
foens, e os motivos dos prazeres q' nos causa.» 

«0 Real Profeta diz q' nos Louvamos a Deos em os seus s. to " q. ia 
em os Divinos Lovores uzamos do canto q' elles compuzerao, e nos apro- 
veitamos da Muzica q' escreverao p." o Servifo de Deos.» 

A meio da pagina: — Genesis cap. 4 e continua: 

«A 11 de Novembro no Breviario Romano na reza de S. Martinho 
Bispo, Consta da 6 Lifao do seu ofifio q' fora refebido o dito S. t0 no ceo 
pelos coros dos Anjos com Canticos de Muzica e Louvores e no fim da 
7." Lifao se le o seguinte 6 ibemaventurado Varao a cuja entrada no ceo 
cantou o numero dos S. tos e exultou o coro dos anjos ao exerfito de todas 
as Virtudes Celestiaes Concorreu tocando o qual prodigio foi ouvido por 
m.' 01 sendo o primeiro que o ouvio S. Severino Bispo de Colonia.* 

«Chassaneu de Glorie Mundi p. te undefima (remedios da Muzica) 
fl."* 398 diz q' Xenocrates curava os Linfaticos com as armonias do orgao 
e q' os Pitagoricos nao so curavao com a Muzica as perturba foens dos am- 
nios mas tambem as molestias do corpo infinitas autorid. i,s antigas seme- 
lhantes a estas podia eu sitar se o meu empenho fosse falar som,' e a este 



8 DICIONARTO BIOGRAFICO DE MCS1C0S PORTUGUESES 



resp. to mas sempre apontarei algumas de autores niodernos p. a q' os cri- 
ticos se duvidarem das auturidades antiguas pojao ver as modernas.* 

E e tudo quanto contem a quarta peca. 

A primeira pagina da seguinte abre com esta noticia : 

«Franc.° Guerreiro seculo de 150 natural da Cidade de Beja na 
provinfia Transtagana foi disfipulo de seu Irmao Pedro Guerreiro este 
na Idade de 18 anos era ja tao consumado na arte da Muzica foi eleito 
Mestre da Capela da Se de Jaen, e depois foi Mestre da Catedral de Ma- 
laga levando a primazia a m. [<,s opozitores. Pedro Fernandes q' tambem 
julgamos ser natural de Beja foi M. s da Catedral de Sevilha as suas obras 
em Muzica forao emprefas em Veneza em 1588. Franc." Sanches.» 

E continua: 

«Joao Melgaz Ferro (Dr.) Irmao do felebre Diogo Dias Melgaz.* 
Na mesma pagina, em posigao diferente, motivada por segunda 
dobra que a folha sofreu, Ie-se que «0 Papa Vitaliano viveo no 7 secolo 
seis centos cincoenta e sinco foi o q' ordenou o canto eclezias-tico com as 
conjonansias do orgao, vejase Burio no seu Livrinho intitulado breve no- 
ticia dos Romanos Pontififes,* e que «o Papa S. Leao Segundo m. to sabio 
nas letras gregas e latinas e na Muzica reduzio a mais perfeita armonia 
os sagrados Inos e os Salmos viveo no 7 seculo i&to he 683 vejafe o mesmo 
Burio f. as sento e seis.» 

Ao fundo, so isto: 

«S. Atanasio he do seculo 4 e S. Agostinho do 5 e S. Ambrozio 
he do 5. 

E acabou aqui a primeira pagina da peca que tem o numero 5. 

As restantes tres paginas conteem a continuagao dum assunto co- 
megado a tratar na peca seguinte, que da pelo n." 6. 

Ao cimo, estas palavras que servem de legenda: 

«Nemo, quin bene sciat, bene respondit* e logo abaixo: scSendo 
perguntado por q' rezao, a Muzica causava tantos efeytos nos enfermos, 
q' com ella exprimentavao alivio, ja nas suas dores, ja nas suas tristezas, 
manias e diferentes phenomenos q' padeciao os invenenados ou mordidos 
d'animaes venenosos: Como sao os q' exprimentao os estragos e resulta 
(sic) da mordedura da Tarantula: he necessario prenotar o seg.".» 

Segue um longo arrazoado sobre o assunto que fica apontado, em 
boa letra, mas completamente diferente dos dois tipos que formam o «Di- 
cionarios e as pegas que estou descrevendo. 

Na peca que o bibliotecario chamou n.° 7, por conveniencia de arru- 
macao e ordem, e que consta dum farrapo de papel foi langada esta 
noticia : 

«M. el de Moraes Poderozo na. aI da Cid. e de Miranda escreveo hum 
compendio muzico ou arte abreviada em q' se contem as regras mais ne- 
cessarias da cantoria Acompanhamento e contraponto. Impreso no Porto 
na officina de An. t0 Alves Rib. ro Guimaraens Anno de 1769. » 

Finalmente surge-nos a ultima pec_a, ou seja a n." 8, encimada com 
estes dizeres em letra muito legivel — Lembransa dos do Rio de Janr." — 
E seguem nomes: «Padre Jose Mauricio, pardo, f." de Anna M. a o Pai se 
nao sabe, natural da mesma Cid.* bautizado na Freguezia da Candelaria. 
— Salvador Jose com ocupacao da mesma Arte, pardo, f.° de Quiteria, e 
de Joao Bautista, bautizado na Freguezia de S. Jose natural da mesma 
Cid. e — Frei Jeronimo, Carmelita, f. D de Joaquim Pedro e de Antonia M." 
do Sacram. 10 . — Florentino, cazado, vive da sua arte, pardo, nao conhece 
seus pais. — Francisco de Paula, clerigo, com occupacao do Siminario de 



D1CIONARIO BIOGRAFICO DE MtlSWOS PORTUGUESES 9 



S. Joaq.™ f.° de Felipe Gonz, e de Thereza de Jesus, natural da ilha de 
S. ta Catherina. — Fr. Pedro, organista do Convento de S.'° An. t0 f.° de 
M." do Nascim. 10 e do Capp. am Pedro Ferr." bautizado na Freguezia da Can- 
delaria. — Joaq." 1 Lopes, clerigo, mestre da Capela da Cathedral, f.° de 
Joao Pedro, nao conheeo a Mai.» 

* 

Abrindo o codice e percorrendo-o pagina por pagina nao encontra- 
mos em parte alguma a menor imdicacao de que seja Jose Mazza o seu 
autor. Acresee, para formular uma duvida, o facto de se notarem duas 
letras na feitura das natas biograficas, o que tudo junto da azo a que a 
primeira vista se ponha de remissa a afirmagao dos autores do Catalogo 
dos manuscritos existentes na Biblioteca Publica de Evora. 

iOnde iria Cunha Rivara ou Teles de Matos fuiidar-se para atribuir 
a Jose Mazza a paternidade do dito? ;Seria questao de tradigao oral? 

Partindo idesta duvida que se me deparou, lancei-me curiosamente a 
toda a papelada que constitui o espolio espiritual de Mazza com vontade 
de tranqiiilizar de vez e encontrar a razao do caso. 

Passadas umas horas de intensa volupia de busca, caem-me debaixo 
dos olhos umas palavras ou antes uma so palavra — meo, que me lancetou 
o tumor da duvida e me fez concordar com o que na pagina 482 do ter- 
ceiro volume do Catalogo de manuscritos da Biblioteca Publica Eborense 
se afirma. 

Num discurso, palestra literaria ou coisa que lhe valha, no qual 
Jose Mazza se propunha falar — «Dos animals gostando de musica* e que 
fui encontrar a solucao do problema que parecia insoluvel. Dou a palavra 
a Jose Mazza: 

«Na villa de Palmella no convento dos Freyres havia hu ehamado 
Henrique Carllos Correia, q foi mestre da Capella de q faco mensao no 
meo Dicionario dos Compozitores da musica; este hia m." s vezes p. a a 
serca tocar Violla, p. B se devertir, e os Passaros se lhe vinhao por emsima 
dos hombros, e das maos, e bra?o da Violla o q me foi certifficado por 
Freyres de probid. e , q m. as vezes foram testemunhas oculares deste facto.* 

sublinhado e meu, a afirmagao e de Jose Mazza, o resto e curioso 
e mais curiosas ainda as liberdades da ortografia que de certo fizeram 
pestanejar o leitor desprevenido. 

Nao havia duvida ; o autor do Codice era realmente Jose Mazza. Os 
bibliotecarios eborenses, Cunha Rivara e Teles de Matos, tinham razao 
quando escreviam aquilo que escreveram. 

Quanto as duas letras que aparecem no codice e que, como e obvio, 
intrigam qualquer, tambem as procurei expliear e suponho que o conse- 
gui. Foi confrontando tudo o que o Autor escreveu em diversas epocas da 
vida, que eu verifiquei as letras do codice. 

O Dicionario de Mazza foi feito com vagar e em duas epocas da 
vida; assim se explicam as notas complementares a muitas biografias onde 
ja tem outra caligrafia menos firme e os espacos em branco que deixava 
ficar, para ir completando aos poucos. 

Nao so porem, o tempo, mas tambem outras causas influiram em 
Jose Mazza, para ser na verdade como foi, muito inconstante na letra que 
empregava. E se nao visse eu a assinatura do proprio em tantos documen- 
tos, nao creria com certeza na mao unica a trabalhar. Ora a escrita e leve, 



10 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



elegante, bem langada, ora e earregada, menos artistica, ainda que sempre 
legivel. 

Em geral, a das cartas, a do Dicionario, a da traducao do poema 
de Yriarte e a dos versos, pertencem ao primeiro tipo; os apontamentos, 
correcgoes, aditamentos e coisas que lhes valham, ao segundo. 

Donde se pode talvez concluir que a letra de Jose de Mazza depen- 
dia na sua perfeicao ou imperfeicao da pessoa ou fim a que se destinava 
ou da pressa ou vagar com que escrevia. 

★ 

iQuem era, porem, Jose Mazza? 

Era italiano ou descendente de italianos. 
E e quanto se pode dizer da sua origem. 

Teria vindo naturalmente para Portugal, assim como outros mui- 
:tos musicos italianos contratados por D. Joao V. Ou teria ca nascido de 
pai italiano. 

Consta do Catalogo dos manuscritos organizado na Biblioteca Pu- 
blica de Evora pelos bibliofilos Cunha Eivara e Teles de Matos, no segundo 
volume, que Jose Mazza foi «alumno da Academia dos conformes Lisbo- 
nenses, e de outras academias, musico instrumentista da Camara de Sua 
Magestade e professor de italiano do Collegio do Ex.™ Eispo de Beja.» 

Ele proprio se apelida «Musico instrumentista da Camara de Sua 
Magestade. » 

Escreveu versos e miisica tambem. Pubiicou umas coisas e outras 
ficaram ineditas. 

Jose Mazza conheceu na corte Frei Manuel do Cenaeulo Vilas Boas 
que, em 1770, foi eleito Bispo de Beja e, em 1802, Arcebispo de Evora, 
aos setenta e oito anos. e a roda desta grande figura de sabio e de pre- 
lado que se desenrola o cenario mais ou menos variado da vida de Jose 
Mazza. 

Cenaeulo tinha poderosa infiuencia nas esferas governamentais e 
e sabida a amizade que o ligava ao Marques de Pombal que, para lhe dar 
prova provada de quanto o considerava, o fez eleger Bispo e restaurador 
da Diocese de Beja, permanecendo no entanto durante sete anos na capi- 
tal do Reino ainda. 

Talvez por via desta infiuencia de Frei Manuel do Cenaeulo na 
Corte portuguesa, aquele rabequista da camara real se lhe rojasse aos pes 
para assim com tao poderoso protector, mais eficazmente poder veneer 
na vida. 

O certo e que, morto D. Jose, arredado de Lisboa o Marques, D, Frei 
Manuel fez as malas e pos-se a caminho de Beja para tomar contacto com 
as ovelhas que havtam sido confiadas a sua direccao espiritual havia ja 
sete anos. 

Jose Mazza ficou em Lisboa e parece que com incumbencia de trans- 
mitir epistolarmente ao Bispo de Beja as noticias politicas que corressem 
na corte de D. Maria I. Fosse ou nao de caso pensado, o certo e que al- 
gumas cartas teem referencias direetas a casos da vida da Corte. 

Mais tarde, o Bispo de Beja eriou uma aula de italiano anexa ao 
seu colegio, aula que confiou a competencia de Jose Mazza. 

Tenho para mim que esta escola de italiano foi mais para eoaitentar 
e dar serventia ao professor, que nao cessava de se lastimar de ter que 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



11 



estar longe do seu benfeitor, que propriamente por entusiasmo linguistico 
da parte fosse de quern fosse. 

Sao numerosos os versos em todas as formas e com os mais varia- 
dos metros, a maioria em portugues, em que Jose Mazza cantou a sua 
admiragao quasi idolatrica pelo Eispo de Beja. 

Dezassete composigoes em verso e seis cartas sao o que resta do 
que Jose Mazza escreveu com vista a D. Frei Manue! do Cenaculo. Tudo em 
portugues, com excepcao de duas composieoes poeticas e de uma carta, 
escritas em italiano. 

As cartas sao datadas, uma de 1772, duas de 1780 e tres de 1781. 

As expressoes adulatorias e exageradas com que sempre se refere 
ao protector dao uma ideia pouco abonatoria de integridade de caracter. 
Beja, por possuir tal Bispo, tornara-se para Jose Mazza a «Lusa Atenas*, 
o grande refugio da inteligencia portuguesa, e lastimava-se em todos os 
tons menores por estar tao longe de tal luzeiro. 

Jose .Mazza deu-se ao trabalho de traduzir do espanhol o celebre 
poema a que ja me referi atras, de D. Tomaz Yriarte intitulado «La Mu- 
sica» e, como nao podia deixar ide ser, dedieou o seu esforco de tradutor 
ao Bispo de Beja. 

£ste trabalho tambem existe inedito na Biblioteca Publica de !Evora. 

No manuscrito do poeraa de D. Tomaz Yriarte foi lancada a lapis 
uma nota dizendo que Jose Mazza faleceu em Faro em 1798 ou 1799. 

O Dicionario de Inocencio (Tomo XIII, pag. 142), talvez fundado 
nisto optou pela primeira data, mas Ernesto Vieira viu no livro de entra- 
das da Irmandade de Santa Cecilia o seguinte certificado: «morreu em 
14 de Dezembro de 1797,» 

* 

Ernesto Vieira examinou o codice em questao e disse tratar-se de 
uma «serie informe de simples apontamentos sem interesse algum...» 

Bastava, a meu ver, que Jose Mazza dissesse uma so coisa nova 
para que a sua obra tivesse utilidade pratica. Mas nao diz so uma, diz 
varias. 

Como amostra apresentarei duas s&mente: 

Toda a gente que em algum tempo se tern referido ao compositor 
Alexandre Delgado Janeiro, o tern apelidado de Mestre da Capela de Vila 
Vi^osa, (cf. m-Historia, 1." vol., pag. 399 a 404 e Ernesto Vieira no seu 
Diciovi&rio, 2." vol., pag. 447). Sampaio Ribeiro concluiu duma das cartas 
escritas por Janeiro e publicadas ha anos na Revista Historia (vid. cit. 
acima) que este autor teria sido tudo menos Mestre de Capela em Vila 
Vicpsa e que se Ihe antolhava que teria sido, pelas suas palavras, Mestre 
de Miisiea no Colegio dos Reis. 

Ora Jose Mazza vem confirmar esta hipotese, e converte-a em reali- 
dade, dizendo que Alexandre Delgado Janeiro foi Reitor do Seminario de 
Vila Vicosa. 

Nas poucas palavras que Vieira escreveu sobre Joao Rodrigues Es- 
teves e que veem na pagina 397 do seu Dicionario biografico, nao ha uma 
unica referencia a terra onde estudou, nem sequer da a entender que es- 
tudou no estranjeiro ; neste como noutros pontes e duma imprecisao fla- 
grante. Pois Jose Mazza diz-nos que Joao Rodrigues Esteves foi mandado 
pelo Senhor D. Joao V estudar a Roma. 

Por composites da autoria de Joao Rodrigues Esteves, existentes 



12 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



na Se de Lisboa e datadas da Cidade Eterna, inferiu Mario de Sampaio 
Ribeiro que aquele autor estivera em Roma, o que agora se comprova com 
a confirmacao que do facto nos da o Iiistrumentista da Capela Eeal, Jose 
Mazza. <Cf. pag. 25 e seg. da /// Achega para a Historia da Musica em 
Portugal) . 

Estes dois exemplos servem para demonstrar que o presente tra- 
balho que ora se publica trara. a todos os que se mteressam por estes es- 
tudos alguns dados que ajudarao a fazer a Historia da Musica em Portugal. 

Resolvi conservar a ortografia empregada pelo autor do codice. 
Construcao de frase, acentuacao, terminologia e tudo tal qual Jose Mazza 
escreveu. 

Visto andarem dispersas noticias varias sobre compositores Portu- 
gueses, dispersao essa que dificulta a consulta, procurarei em resumidas 
notas completar o que esta, servindo-me de tudo o que eonheco publicado 
depois de Ernesto Vieira. 

Muitas nao saberei completa-las e outras, e possivel que nao sejam 
bem apresentadas, mas vontade de acertar e desejo de ser util, sobejam-me. 

Dicionario Biogrdfico dos Musicos Portugueses, da autoria de 
Ernesto Vieira, bem como Os Musicos Portugueses, de Joaquim de Vas- 
eoncelos, sao hoje obras de dificil aquisicao e de laboriosa consulta. Por 
nas maos dos interessados um livro em que se compendie em poucas pala- 
vras a actualizacao dos dados biograficos de cada compositor ou musico 
portugu§s citado por Jose Mazza, pareceu-me ser de grande utilidade. Ha 
documentos, datas fresquinhas, notas pessoais que teem sido publicadas 
em revistas, jornais e mesmo livros de pequena tiragem e que teem por 
isso mesmo raio de accao muito restrito. 

Importa reiinir o que interessa e foi isso mesmo que tive em vista. 
Ja sei de antemao que nao farei obra perfeita, mas ja me darei por bem 
pago de algumas horas tiradas a outros quefazeres, se alguem, escanda- 
lizado com a modestia que apresento, se resolver a lancar-se na tarefa da 
tal obra perfeita. 

j Que a pobreza dos meus recursos possa servir para despertar 
alguin real valor escondido! 

Antes de por ponto final neste preambulo, nao quero deixar de de- 
clarar que os cumplices neste delito de arran-car o «Diccionario» de Jose 
Mazza ao seu sepuleral silencio, foram dois grandes Mestres que respeito 
e admiro — Mario de Sampaio Ribeiro e Manuel Joaquim. 

fiste sugeriu-me a ideia da publicacao; aquele tornou^a realidade. 
Para eles pois o muito obrigado dos estudiosos que conseguirem encontrar 
no Dicionario de Jose Mazza ou nas notas ao mesmo, alguma novidade de 
intere*sse. 



Padre Jose Augusto Alegria 



Afonso Vaz da Costa, floreceo no seculo de 500 recebeu em Roma 
os maiores aplausos, foi rogado / fazendo-lhe avultados ,partidos / para 
Mestre da cappela de algumas catedraes, sendo provido na de Badajos, 
e depois em Avila, aonde falesseu no principio do seculo de 600 as suas 
obras muzicas principalmente as sagradas, mandou buscar a Hespanha 
o sirinissimo senhor Rey D. Joao 4." e as mandou por na sua Biblioteca 
Real de Muzica. 

Agostinho de Castro D. F. natural de Lx. a nasceo em 16 de Oufcu- 
bro de 1537. forao seus Pais D. Fernando de Castro Governador da 
Caza do Civel de Lx.% e D. Maria de Ayala filha do Conde de Monsanto, 
de Religioso Erimita de S. ts Agustinho, passou a ser Arcebispo de Braga, 
foi muito perito na Arte da Muzica, compos hum livro de Missas, e outras 
obras excelentes, falesseo em 1609 quando contava 72 annos de idade, e 
21 de Arcebispo, sagrou a sua Cathedral em 28 de Julho de 1592 e es- 
creveo muitas obras scientificas como fazem mengao Fr. Bernardo de 
Brito, Mon. Lusit. Part. 2. Liv. 5 Cap. 7. D. Mauro Castel. Ferrer. Hist, 
de S. Tiago Liv. 1.° cap. 16 (')• 

Agostinho da Cruz D. natural de Braga, Conigo regular da Con- 
gregagao de S. Cruz de Coimbra, cujo habito recebeo em Lx." no real 
Convento de S. Vicente de Fora a 12 de Setembro de 1609, foi piritissimo 
na Muzica, e rnsigne tangedor de rabeca e orgao, foi Mestre de Coro no 
Convento de S. Vicente, entre as muitas obras que compos, as que meres- 
serao maiores estimacoes aos Professores, forao as seguintes. Prado Mu- 
sical para orgao, foi esta obra dedicada ao senhor Rey D. Joao 4.° Duas 
artes, huma de canto chao por estilo inovo, outra de orgao com figuras 
muito curiosas, compostas no anno 1632 offerecidas ao mesmo sfir. Com- 
pos mais hum Livro intitulado Lira de Arco, ou arte de tanger rabeca 
oferessido a D. Joao Mascarenhas conde de S. Cruz. 

Agostinho do Sacramento Fr. religioso de S. Paulo primeiro Ere- 
mita ('). 

Agostinho Velozo Fr, natural de Lx. a filho de Antonio Rodngues 
Freire e de Izabel de Barros, recebeo o abito de Ermita de S. Agostinho, 
no Convento da sua Patria a 14 de Fevereiro de 1681 foi destrissimo Or- 
ganista e compozitor, e tambem foi excelente na Predica, falesseu no 
convento de Torres Vedras em 1696 ( 3 ). 

Ayres Antonio da Silva natural da Cidade de Lx. a Cavalleiro Prof- 
fesso na Ordem de Christo, filho de D. Manoel Pereira Ooutlnho, e de 
D. Tereza da Silvia e Tavora, tocava perfeitamente os instrumentos de 
rabeca, rabecao de 4, de 7 cordas e viola;, estudou filosofia na Congre- 
gacao do Oratorio de S. Filipe Neri, defendeu conclusoes pubhcas com 
universal aplauzo, recebeo em Coimbra o grao de Mestre em Artes, foi 
examinador de Baxareis, alem de escrever nas sciencias compoz em Mu- 
zica Missas, Salmos, Ladamhas, e hum Te Deum com diversos instrumen- 
tos que se cantou em Lx. a na Igreja de S. Roque com a assistencia daa 
Pessoas Reays, faleceo no seculo de 700 (*) . 



DlCIONARIO BI6GRAFIC0 DE MtiSlCOS PORTUGUESES 



Alberto Jos6 Gomes ( a ). 
Alberto da Silva Burgos (*). 
Aleixo Botelho ('). 

Alexandre de Aguiar natural da cidade do Porto, floresseo no se- 
culo de 500 foi Muzico do cardeal D. Henrique, e de Filipe 2.° era cha- 
mado .por Antenomazia o orfeu, compos entre outras obras as Lamenta- 
coes de Jeremias muito proprias a Letra, falesseu em 1605 ( 8 ). 

Alexandre Delgado Reitor do Seminario de Vila Vicosa ( B ). 

Alvo.ro cujo apelido se ignora assim como se saibe ter sido Licen- 
siado, e floreser no tempo do Senhor Rey D. Afonso 5 como diz a Bi- 
bhoteca Luzitana no tomo 4 folhas 10 fioresseu no seculo de 400 compos 
o officio e a solfa para se cantar em accao de gracas -da tomada de Ar- 
zila, e Tangere em 1471 cujas pracas no referido anno tomou o mensio- 
nado Monarca ( 10 ). 

Andre da Costa Fr. Relflgioso Trino, natural de Lx." filho de Fe- 
lipe da Cruz e Caterina Correia recebeu o abito no convento patrio a 3 
de Agosto de 1650 igualmente insigne em compor que em tocar arpa, foi 
da cappella dos Serenissimos Monarcas D. Afonso 6.° e D. Pedro 2.° 
compos Missas de varios coros Confi/tebor a 12 vozes Laudade pueri a 4 
Completas a 8 vozes, e outras mais obras, falesseo em 1685 ("). 

Andre de Escobar Muzico famoso de Se de Evora, e depois de 
Coimbra, para onde o chamou o Bispo D. Manoel de Menezes alem de 
varias obras que compos escreveu preceitos para varios instrumentos, os 
quaes tocava com muita destreza e huma Arte para tanger o instrumen- 
to de Charamelinha ( 12 ). 

Andre Luis Lobo natural da Ci-dade de Evora, (e cantor da Se da 
mesma cidade) ( 13 )- 

Antdo de S. ta Elias Fr. Religioso Carmelitano natural da Cidade 
de L,x.* fi-lho de Francisco de Souza, e .Maria Cardoza, foi Mestre na Cap- 
ped do seb Convento da mesma cidade muito perito no Contraponto, e 
nao menos no instrumento de Arpa cujo tocou por muitos annos na ca- 
thedral de Lx." compos hum Te Deum a 4 coros com diversos instrumen- 
tos, compos mais responsorios, .Missas, SaLmos, Hinos, Vilancios a 4 a 8 
e 2 coros com instrumentos, falesseu em 1748. 

Antonio de Almeida natural da cidade do Porto, Mestre de Mu- 
zica na Cathedral da sua Patria, nao foi menos excelente na Poetica, 
compos em huma e outra Arte, imprimisse deste autor huma obra Poetica 
em Castelhano intitulada La humana Qarca abrazada eJ gran Martir S. 
Laurencio. Coimbra por Thome -Carvalho Impressor da Universidade em 
1656 U ("). 

Antonio Alves do habito de S. Pedro Pernambucano nao so he 
douto na Compuzicao da Muzica, mas tambem em Filosofia, e Theolo- 
gia (» 5 ). 

Antonio Bazilio que foi da familia do Excelentissimo Duque de 
Lafoens compos excelentemente os Villencicos, e nos Tonos Era im des 
bancavel falesseo no principio do secolo de 700 ( ia ) . 

Antonio de Belem Fr. natoral da Cidade de Evora Monge de S. 
Jeronimo no Convento do Espinheiro, onde foi Prior e depois Vigario: 
Foi Mestre da Cappela de Belem Compos salmos aj,5eS coros, Missas 
a U, 6 e 8 vozes, Miserere a 3 coros e hum livro de responsorios para to- 
das as festas da primeira classe, foi hum dos mais celebres compuzitores 
de Muzica do seu tempo falesseu ( 17 ). 



DICIONARIO B10GRAFIC0 DE MCSICOS PORTUGUESES 



15 



/ A- Antonio Carreira insigme professor de Muzica, e ■Mestre da real 
Cappela dos Serenissimos Monarcas D. Sebastiao, e D. D. Henrique, com- 
pos varias obras, como escreve Pedro Thalezio na sua Arte de Canto 
Chao caip.° 36 fl. 163 (ou 63; difwilmente se percebe e nao e fdcil verifi- 
ear). Compos duas Lamemtacoes da semana santa, e varios Motetos a 6 
vozes faleceo em 1599 ( 1S ). 

Antonio Carreira sobrinho do precedente, foi Mestre da Cathedral 
de Compoatela, as suas obras exeatiao na Biblioteca do Serenissimo Se- 
nhor D. Joao 4.° 

Antonio Claudio ("). 

Antonio Cordeiro Presbitero subxantre da Cathedral de Coimbra, 
tao douto_ em Muzica, e no Canto Eclesiastico que immendou a Arte de 
Canto chao composta par Joao Martins, imprimiosse esta obra em Coim- 
bro por Nicolao Carvalho em o anno de 1612. 

Antonio Correia da Costa natoral de Vila Vicoza, foi igualmente 
doctissimo em 'Muzica, que Geometria, Mathematica e Pouzia, ansioso de 
fazer maiores estudos .passou a Italia e Flandres donde voltou em o anno 
de 1617 para Vila Vicosa, dele faz mencao Francisco Moraes Sardinha no 
Parnas. de Vila Vicoza Livr. 2 cap. 59 e no Liv. 3. 

Antonio Diogo Presbitero secular natural da Cidade de Evora. 
Eeneficiado em Sintra do Patriarcado de Lx. a alem de ser bom organista 
compos diversas obras em Muzica. 

Antonio Femandes Presbitero natoral da Vila de Sousel da Pro- 
vincia de Alentejo foi Mestre da Igreja de S. Catherrna do Monte Sinae 
em Lx. a foi ornado de Louvaveis costumes doctissimo da sciencia pratica 
e especulativa da Muzica em a qual compos a arte de Muzica de Canto 
de orgao, e de Canto Chao. Compos mais a explicacao dos segredos da Mu- 
zica : compos mais Theorica do Manicordio : mais outra Arte de Muzica 
de Canto de orgao e hum mapa oniversal de qualquer couza, assim na- 
toral como accidental, que se contem na arte da Muzica com os seus ge- 
iaeros e demonstrates Mathematicas. A sua Arte de Muzica de Canto de 
Orgao e Canto Chao e porpessoes d_a Muzica dividida armomcalmente se 
impremiu em Lx. a no anno de 162o. Deste Au'tor faz mencao D. Fran- 
cisco Manoel na Carta dos AA. Portugueses escrita a Monel Themudo 
da Fonseca que he a 1 da quarta Centuria das suas cartas, e Joao Soa- 
res de Brito in Theatr. Luzit. Lit. A. n 76 no oficina de Pedro Crasbeek 
1625 ( !0 ). 

Antonio de Figueiredo Ramos natural de Lx. B Miizico Instrumen- 
tiata que foi da Camara real hera muito sabio en Contraponto, e dele 
escreveo hum livro que estava para imprimir compos Salmos, Ladainha 
a 4 vozes, Sonatas a varios instruments, Arias e outras mais obras, 
falesseo no presente secolo 

Antonio de Freitas da Silva Muzico instrumentista da Camara de 
Sua Magestade, e 'Compozitor das Reaes Dan^as das suas operas Com- 
pos sonatas com varios instrumentos, salmos e huma Missa a 4 vozes 
Credo, e mais obras faleseu no presente secolo. 

Antonio de Jesus Fr. natoral -de Lx. a Religioso Trino, Compozitor 
dos mais excelentes, e pela sua profunda sciencia foi elevado a Lente 
desta Arte na Universidade de Coimbra em 27 de Novembro de 1636 
mereceo grandes estimacoes do Sirinissimo Senhor Rey D. Joao 4, entre 
muitas obras que escreveo tiverao mais merecimento as seguintes. Missa 
a 10 vozes, outra a 12 vozes, Dixit Dominus a 12: morreu em Coimbra 
em 1682. 



1« DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



Antonio Jose Felis Professo na ordem de Christo. 
Antonio Leal ("). 

Antonio Lopes Cabral Presbitero natural de Lx. a nasceo no anno 
de 1634, aprendeo nao so as letras humanas, mas a Arte de Muzica, fol 
cappelao e cantor das Magestades de D. Afonso 6." e de D. Pedro 2.° 
Logrou grandes aplausos no Ministerio do Pulpito, foi Academico dos 
singulares de Lx. a compos varias obras em Muzica, e imprimio hum livro 
de Sermoes — Intitulado Pancarpia florida, e tinha pronto outro para 
dar a emprecao Morreo a 26 de Dezembro de 1698 com 64 annos de ida- 
de; tambem imprimio a Vida de S. Joao Bauptista e de S. u Maria Ma- 
dalena traduzidas do Italiano, dele fala o P.* Antonio dos REys no En- 
thuziams Poet. n. 170 foi Freire da Ordem Militar de Christo sendo Ee- 
neficiado das Igrejas de S. ta Maria dos Olivaes, da Vila de Tomar, e 
S. u Maria do Castelo de Ponte de Lima (- s ). 

Antonio da Madre de Deos Fr. filho de Gregorio Catalao, e Joana 
Cardoza natoral de Lx. a Religioso Carmelita da Antiga observancia, fa- 
moso Compozitor, exercitou o lugar de Vigario do Coro em Lx." faleceo 
em 1690 aprendeo Muzica com os dois selebres Professores desta Arte 
Duarte Lobo e Fr. Manuel Cardozo Religioso Carmelitano, compos Psal- 
mos, e Motetos, e Responsorios, os officios de Defuntos, e dois Mizere- 
res a 3 coros (")■ 

Antonio Manoel LeiU Pacheco Malheiro ( 25 ). 

Antonio Marques Fagote natoral de Tancos, Mestre da Cappela 
de El Rey D. Joao o 4 no instrumento do sen apalido foi insigne compos 
regras para ele alem de mais obras em Muzica ( !6 ). 

Antonio Marques Lesbio natoral de Lx. a Academico dos Singu- 
lares de Lx. a na qual Academia foi Mestre explicando os emblemas de 
Alciato, nos Certames Literarios que teve com os sens socios quaze sem- 
pre o primeiro premio no anno de 1698 foi eleito Mestre da Cappela 
Real — Na Arte da Muzica compondo fez os mais raros progressos era 
chamado por Antenomazia, o Mestre da mais rara Armonia. Nao consta 
que nas suas obras se encomtrasem as ideias ou immitacoes. era muitas 
vezes chamado pela Rainha D. Catherina Ingleza para desfrutar a sua 
erudita conversacao. Foi insigne em varios instrumentos teve grande Li- 
cao da Sagrada Escritura, e dos PP. da Igreja Latina, e Grega, e dos 
Oradores Methiologicos mais insignes, tanto Latinos, quanta Italianos, 
e Espanhoes, tendo chegado a idade de 70 annos. em 21 de Novembro 
de 1709 Vespora de S. la de Cezilia estando para concluir a composicao 
do_ Gloria Patri da Magnifica a 8 vozes para se cantar na Cappela Real 
foi acometido da Morte, e pedindo a extrema un^ao por se ter confes- 
sado e comungado de manha faleseo. foi muito estimado das Magestades 
de El-Rey D. Pedro 2." D. Maria Sofia Izabel Neoburg. Deste faz men- 
cao o P." Antonio dos Reys in Enthusiasm. Poet. n. 142. 

Antonio Milheiro natoral da Cidade de Eraga Mestre da Cathedral 
de Coimbra, e depois de Lx. a aonde veio a ser conigo de 4. a Prebenda, 
escreveo varias obras em Muzica, e alguraas se empremirao em Coiirnbra 
por Nicolao de Carvalho no anno de 1618 ( 2! ) . 

Antonio Nunes Colares ( Ia ). 

Antonio de Oliveira Presbitero na,toral de Lx. a Professor insigne 
de Muzica, foi Mestre do Coro da Real Parroquia de S. Juliao da sua 
Patria, passou a Roma aonde teve muitos aplausos por varias obras que 
compos em Muzica faleseo em Roma. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE M&SICOS PORTUGUESES It 



Antonio da Penitencia F. natoral de Lx. a Religioso da 3." ordem 
de S. Franeisco nasceo em o anno de 1605 foi insigne na Arte da Muzka 
em que compos diversas obras, nao sumenos Cantor, exercitou o lugar 
de Vigario do Coro no Convento de Arrayolos Arcebispado de Evora fa- 
lesseo em 1648 com quarenta e tres annos de idade ( 2S ). 

Antonio Preira Mestre de Muzica pratica, e especulativa, compos 
muitas obras com bastante novidade e nao menos sciencia, sendo estas 
a 4, e 8 vozes, e Magnif ica a 8 vozes. 

Antonio Preira .natoral da Vila de Macao comarca de Tomar do 
Eispado da Guarda, Padre de S. Filipe Neri cuja roupeta recebeo em 
Lx. a a 24 de Setembro de .1744 filho de Antonio Preira, e Maria de Fi- 
gueiredo, hoje esta secularizado e he secartario de linguas, e deputado 
da Real Meza Sencoria ( 3 °). 

Antonio de Pina teve igual talento para a Muzica que para a Poe- 
zia: em airtbas escreveo Vilancicos dois volumes em 8. 

Antonio Pinkeiro natoral de Montemor-o-Novo Mestre da Cappela 
Ducal de Vila Vicosa e depois da Se de Evora, deixou escrito hum groco 
volume da Magnif ica a 8 vozes morreo em Evora no anno de 1677 ( 31 ). 

Antonio de Pinho natoral de Abrantes Bispado da Guarda cantor 
da Se de Evora, excelente compozitor de Muzica, em que publicou exce- 
lentes obras, tambem se distinguiu m. t0 na Poetica em que compos hum 
poema intitulado Vida, e Martirio do Infante, e Santo D. Fernando filho 
de EIRey D. Joao o primeiro 

Antonio da Purificacao F. Religioso Carmelitano natoral de Evora 
Cidade da Provincia Transtagana exercitou por muitos annos em Lx." 
no seu convento o exercicio de organista em que foi muito perito, tam- 
bem compos algumas obras em Muzica faleseo no Alemtejo na cidade 
de Beja no presente secolo ( 33 ). 

Antonio da Ressurreigao Fr. natoral de Lx. a Religioso da 3. a ordem 
da Penitencia nasceo em 1621 foi muitos annos Vigario do Coro e Mes- 
tre da Capela do Convento de Lx. a ; e depois foi eleito Ministro do Con- 
vento da Vila de Viana era o Alentejo, Difenidor de Provincia, faleseo 
no Convento de Santarem a 17 de Janeiro de 1686 com 65 annos de ida- 
de; compos diversas Micas, e outras obras de Muzica. 

Antonio Ribeiro Presbitero, hum dos milhores acompanhantes de 
Violonxelo do seu tempo, entre as suas Composkoes as de maior nome 
sao as Licoes de defuntos a 8 vozes faleseo no seculo de 700. 

Antonio Rodrigwes Villalva natoral de Villalva territorio da Vila 
de Fronteiro. Provincia de Alentejo; excelente no canto, e optimo^ Com- 
pozitor, foi Mestre da Cappela do Hospital Real de Lx." tendo sido ja 
da Se de Evora, compos salmos, Missas, e Inos, e huma especial Missa 
a 8 vozes ( 31 ). 

Antonio Rodrigues Vilalva natural da Vila de seu apelido do Bis- 
pado de Beja, destrissimo no Canto, e optimo Compozitor: compos varias 
obras em Muzica, e huma Arte de canto chao onde tambem da regras 
para o contraoomto ( 34 ). 

Antonio do Rozario F. Mange de S. Jeronimo nasceo em Lx." teve 
igual talento para a Muzica que para a Predica, entre muitas obras que 
compos, tiverao mais estimacao os motetos da Quaresma, e semana santa 
a 4 a 8 e a 12 vozes tarnbem forao excelentes as suas Lamentacoes fale- 
seo no secolo de 700 ( 35 >. 

Antonio do Rozario Fr. Religioso Xabregano compos varias obras. 
entre das huma Missa Instrumental ( 3S ). 



II DtClONARTO BI0GBAF1C0 DE M0S1C0S PORTUGUESES 

Antonio do Sacramento Fr. na'toral de Lx. a Religioso Trino Varao 
doctissimo em mais sciencias, foi definidor Vizitador de Provincia, e 
pregador geral Mestre de cerimonias, e sancristao Mor dele existem al- 
gumas obras de Muzica manuscritas, falesseo em 1740. 

Antonio de S. Jeronimo Justiniano nasceu em Lx. a a 4 de Outu- 
bro de 1675 foi seu Pay Antonio Gonsalves, e sua May Magdalena Es- 
teves da Silva, recebeo o Canonico abito da Congrega^ao do Evangelista 
em S. Bento de Xabregas, onde exercitou por seis anos o lugar de .Mes- 
tre de Cappela, depois passou ao Colegio de Evora aonde estudou as 
Sciencias Escolasticas foi Sacristao Mor e Vice-Eeitor, nao foi menos 
docto na Muzica que na Poezia, em ambas as artes imprimio, sahindo 
da sua Congregacao foi Capelao do Loreto de Lx." faleseo no seculo 
de 700. 

Antonio Serenissimo Infante de Portugal fes a solfa de alguns 
versos do Stabat Mater cuja solfa exestia na Patriarcal de Lx* faleseo 
no seculo de 700 ( 33 ). 

Antonio Segre Fr. natoral de Lx." filho de Pedro Francisco, e 
Luisa Segre Religioso Carmelitano da Antiga observancia, com justa ra- 
zao ocupou o Iogar de Mestre da Cappela do Convento de sua Patria, 
onde foi Sub Prior, reformou e acrescentou o Processionario de que 
uzao os Religiosos e Religiosas da Provincia do Carmo de Portugal, es- 
creveo varias obras em Muzica, faleseo em 1658 dele faz mensao Fr. Ma- 
noel de Sa nas suas memorias Historicas dos Escritores Portugueses da 
Ordem do Carmo, cap. 12 n 71 e 72. 

Antonio da Silva ( 37 ). 

Antonio da Silva Alcantra, Presbatero Douto em muitas facul- 
dades, e na Muzica estupendo, soube contraponto sem ter Mestre, e com- 
pos excelentemente como sertificao as suas obras, foi Mestre da Cappela 
da Se de Olinda em Pernambuco, veio a Lx.* aprender a tocar rabecao 
piqueno com o Padre Frei Francisco Religioso Carmelitano Calc,ado, re- 
tirouce do Mestrado para .porto Calvo, onde vive exercendo muitas vir- 
tudes. 

Antonio Sobrinho natural de Vila Vicosa ( 3S ). 

Antonio Teixeira Presbitero natural de Lx. s filho de Manoel Tei- 
xeira e Vicencia da Silva Mestre do Seminario real de Muzica, exce- 
lente Conipozitor, e Organista da Patriarcal, onde foi cappelao Cantor, 
era examinador do Canto chao do Patriarcado, Compos hum Te Deum 
a 5 coros com todo o genero de instrumentos, compos outro a nove vozes, 
sete operas, salmos, Mizereres, Lamentagoes, e outraa mais, faleseo no 
seculo de 700 ( sa ). 

Antonio da Veiga natoral de Vila Vicosa Cavaleiro da Ordem Mi- 
litar de Malta secretario do Gram Mestre, foi insigne em todas as Artes 
Liberals, excedendo na Muzica em que compos diversas obras, foi tan- 
gedor de quaze todo o genero de instrumentos faleseo no seculo de 600 
dele faz men?ao Francisco Moraes sardinha no Parnaso de Vila Vicosa 
Liv. 2 cap. 59. 

Antonio Vieira Fr, natural de Lx. a filho de Gas,par Vieira, e Ma- 
ria de Oliveira, Religioso Trino foi excelente Professor de Muzica, exer- 
citou por muitos annos, nesta Corte o lugar de Vigario no seu Convento, 
deixou compostas diversas obras de orgao, Missas, Salmos e Inos a 8 vo- 
zes faleseo em 1707. 



ZHCtOtfARiO BiOGRAFiCO DE MCSICOS PORTUGUESES i$ 



Antonio Vieira natural de Vila Vicosa, famoso eompozitor, foi 
Mestre da Cappela da Igreja do Loureto, e da Misericordia de Lx. s e 
depois passou a exercer o mesmo ministerio na Vila do Crato, compos 
varias obras, sendo a de maior nome Missa a 10 vozes, Mizerere a 8, 
Dixit Dominus a 8 com instrumentos. Beatus vir a 12, e hum moteto de 
Def untos : Domine quando veneris. 

Atanazio natural da Vida de Setubal (*°). 

Bazilio D., e no seculo Baltazar de Faria Severim. V. e Bar- 
bosa ("). 

Bento Nunes Mestre de Muzica na Cathedral de Evora, foi hum 
dos mais excelentes compozitores do seu tempo, as suas obras mais es- 
peciaes sao Parce Domine; moteto para Quaresma a 7 vozes: Heu mihi 
Domine, Responsorio de defuntos a 6 vozes: Hi sunt qui cum mulieri- 
bus; moteto dos Santos Inoeentes a 8 vozes: ad te suspiramus; moteto 
a Nossa Senhora (* 2 ). 

Bernardino de Jesus ou de Sena Fr. nasceo em Lx. a em 1599 fa- 
moso Contrapontista, exercitou o lugar de Vigario do Coro no Convento 
de N. Senhora de Jesus de Lx.% e o de Ministro no Convento de S. Fran- 
cisco de Vianna, e tambem o de Definidor, compos diversas obras em 
Muzica, foi muito estimado de El-Rey D. Joao o 4.°'faIeseo no Convento 
da sua Patria em 1669. 

Bernardo Jose da Silva, natural da Cidade de Elvas, e organista 
na Se da dita Cidade compos Responsorios da Conceicao, e outras 
obras (* s ). 

Bernardo F. Religiose de S. Paulo primeiro Eremita. 
r Braz de Lima (") . 

Braz Luiz ( 4S ). -'S/i 
Braz Soares (**). 

Caetano Jose de Mattos, natural de Lx. a Muzico que foi da Igreja 
Patriarcal de Lx. a , compos algumas obras a 4 com instrumentos, e sem 
eles, faleseo no seculo de 700. 

Caetano de Melo natural da Cidade da Bahia Compos diversas 
obras a 4, e mais vozes, Compos huma Arte de Canto de Orgao em 
Dialogo, e hum tratado dos tons, cujas obras existem na Bahia, e Per- 
nambuco. 

Camilo ("). 

Carlos de Jesus Maria D. nasceo em Lx. a filho de Manoel Alveres 
da Silva, e Maria Correia de Oliveira; foi Conigo Regrante da Refor- 
mada Congregacao de Santa Cruz de Coimbra, exerceo o officio de can- 
tor mor na real Mosteiro de Santa Cruz, e no de S. Vicente de Fora, e 
nele faleseo a 11 de Agosto de 1747 Compos algumas obras em Muzica, 
e huma Arte de Cantochao que se imprimio em Coimbra por Antonio 
Simoes Ferreira 1741. foi 'publicada com o nome de Luis da Maya Croe- 
cer, anagrama puro do seu Nome. 

Claudio Antonio de Almeida. ( ,s ). 

Cosme Bayena Ferreira natural de Evora Cidade, hum dos famo- 
sos Professores de Muzica de seu tempo, foi Mestre da Cappela da Se 
de Coimbra, e Prior de S. Joao de Almedina da mesma Cidade, compos 
diversas obras em Muzica a 4 e a 8 vozes. 

Cosme Delgado natural da Vila do Cartaxo, Baxarel na Cathedral 
de Evora Cidade, onde foi Mestre da Cappela, hum dos mais celebres 
Cantores de Estante, entre outras Compozicoes a 4 a 8 e a 12 compos 



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DIClOtiARtO BIOGHAfIOO DE MtiSICOS PORTUGUESES 



hum Manual de iMusica devedido em 3 ipartes como afirma o Licenciado 
Francisco Galvao Maldcnado (d margem estd, com outra letra e outra 
tinta: de Mendanka) nas memorias que ajumtava para a biblioteca Por- 
tuguesa^ 9 ). 

Crispim de Andrade natural de Lx. a Gapelao da Capela real, e 
depois subxantre .da Cathedral de Lx. : ' 'Com'pos bastantes obras em mu- 
zica, e ipublicou a dbra segunnte officio particular em louvor do Princepe 
dos Anjos o Glorioso Arcanjo S. Miguel, Lx." por Filipe de Sousa Vi- 
lela anno de 1701. 

Cristovao da Fonseca; Padre da Companhia de Jesus natoral de 
Evora Cidade, filho de Joao Duarte, e Luisa da Fonseca; no Pulpito foi 
ouvido com aplauso, e na Conversacao com divertimento ; porem nunca 
degenerando em pueril, .praticou com suma profundidade a sciencia de 
Contraiponto, entre muitas obi'as, compos hum Te Deurn, com varios ge- 
neros de instrumentos; o qual se cantou com a sistencia dos Princepis, 
e Corte na 'Casa professa de S. Roque em Lx. ! ', ele mesmo foi governar 
batendo o compaco, faleseo a 17 de Mayo de 1728. quando conitava 46 
annos de idade; jaz sepultado no Colegio do PP. Jesuitas da vila de 
Santarem. 

Cristovao Luis Gil, naseu em Lx. a he trombeta Mor de Sua Mag. 1 "' 
tern composto algumas obras em Muzica ( 50 ). 

Damaso Papa Santo Nasceo em a Vila de Guimaraes entre Douro, 
e Minho, subio a Cadeira de S. Pedro no anno de 366 foi sagrado em 
Domingo 1.° de Outulbro em a Basilica de Lucina, que depois se chamou 
de S. Lourenco, compos algumas obras de Muzica. 

Damido de Govs natural da Vila de Alenquer filho de Rui Dias 
de Goes, e de Isabel Limi, nasceo em 1501 floresceo no seculo de 500 foi 
camareiro, e guarda roupa de El Rey D. .Manoel, de quern ao depois es- 
creveo a Cronica. EI Rey D. Joao o S. n o nomeou .por seu Menistro para 
tratar de algumas negotiates em varios Reinos Estrangeiros: igual- 
mente que nas varias sciencias, a Muzica em que era mui perito, nao so 
no Canto, mas no instrumental, e composicao, lhe adquirirao a familia- 
ridade de maiores Princepis: foi casado com Joanna de Hargen, filha de 
Andre de Hargen do Oonsalho do Emparador Carlos 5." descendente dos 
Condes de Aremberg, Heme e Monfort. muitas das suas obras se can- 
tavao nos Templos, que foi so para onde quiz compor, comhecendo, que 
a Muzica so deve servir para Louvar a Deus, nao foi menos insigne na 
Poezia, por isso 'lhe fez em seu louvor o seguinte epigrama o sabio Re- 
sende. 

Eligite utro suavis horum te nomine dici. 
an Phebi, an orphei duteis utrisque modis aut / si non 
spemiis genus / a quo Musica primum. 

Invenita est nobis sis Damiane Jubal ( 01 ). 
Dami&o de S.' a Quiteria F. Religioso da 3. a ordein da Peniten- 
cia ("). 

David Francisco Xavier, homem branco natural de Boavista don- 
de foi Mestre da .Cappela, escreveo varias obras em Muzica. 

Diogo Dias natural de Vila do 'Crato, teve tao grande perpensao 
para a Arte da Muzica, e fez nela tais progressos, que chegou a ser Mes- 
tre da Capella em a Matiriz da sua Patria, onde compos varias obras 

Diogo Dias Melgas natural da Vila da Cuba da Provincia transta- 
gana do Bispado de Beja, filho de Afonso Lourenco Melgas e Maria Ferra, 
em idade bem juvenil mereceo em Evora cidade os honrosoa Cargos de 



DICIONARIO BIOGRAFTCO DE MtjSIOOS PORTUGUESES 



21 



Mestre da Claustra, Reitor do Seminario, e Mestre da Cappela: foi admi- 
racao dos mais doctos Proffessores da Devina Arte Armonica da Mu- 
zica: faleseo de 60 annos na dita cidade em 1700: entre muitas obras 
que compos a dois coros nao tern menos estima^ao no seu tanto o Celebre 
moteto a 4 vozes Rex tremendae Magestatis: esta sepultado no Alpendre 
do Convento de N. Senhora dos Remedios dos Carmelitas descal^os, com 
o seguinte Epitafio: 

Flebili occubuit, qui scivit in orbe Magister 
Caelestem Musam communicare viris. 
At si f unerea itadem jacet obrutus urna ; 
Non fama in tumulo contumalata jacet. 
Aeternis vivet Melgas .post fimera lustris 
Donee eruno homines sydera donee erunt 

Diogo Dias de Vilhena Celebre contrapontista, entre outras obras 
que compos, tern huma Arte de Canto chao para principiantes onde pro- 
metia outra de contraponto. 

Diogo de S. Jose Fr. natural da Cidade de Braganca filho de An- 
tonio Sobrinho, e de Cicilia de Morilas foi igualmente sabio na Muzica, 
Pintura, Pouzia, que na Istoria, e iinguas Estrangeiras, alcansou em 
Roma / aonde o conduziu o Cardeal D. Rodrigo de Castro Arcebispo de 
Sevilha / rendosos beneficios que renunciou em seu Irmao Francisco So- 
brinho, que depois foi Bispo de Valhadolid, veio acabar nos Carmelitas 
descalcos onde foi claro exemplar de santas virtudes, as suas composi- 
tes Muzicas se achavao na Biblioteca de El Rey D. Joao o 4.° a qual se 
queimou pelo incendio que se seguiu ao Terramoto d« 55 E tambem se 
achavao em Espanha, faleseo em 1(323. 

Diogo Velho Presbitero natural da Vila de Souzel da Provincia 
Transtagana filho de Lopo Dias, e Catherina Rodrigues, foi cappelao do 
Serenissimo Cardeal Infante D. Henrique, e depois Conigo da Cathedral 
de Evora, faleseo em 1565 as suas obras Muzicas se eonservavao no Car- 
torio do cabido de Evora Cidade ( S5 ). 

Dionisio dos Anjos Fr. natural de Lx.* Monge de S. Jeronimo, foi 
insigne na Arte de Contraiponto, e nao menos desitro tangedor de viola, 
Arpa, compos responsorios para todas as festas da primeira classe, Sal- 
mos de Vesporas e Magnificas, e outras obras mais, as quais se eonser- 
vavao no Convento de Belem, faleseo em 1709 ( !a ). 

Domingos da Conceigdo Fr. nasceo em Lx. a no anno de 1686 foi 
muito sciente na faculdade de Muzica, e outras sciencias deixou bastante 
Muzica que compos, foi Vigario no Convento de S. Francisco de Alenquer, 
faleceo em 1647 ( 5I ). 

Domingos Gomes de Couto natural de Lx. a Mestre da Cappela da 
Se de Elvas, fez lamentacoes, ditos, de Christo, motetes Misereres, e 
muitas mais obras ( S8 ). 

Domingos Nunes Pereira Presbitero natoral de Lx." filho de Diogo 
Ribeiro e Brizeda da Costa, foi Mestre da Misericordia, e depois exerceo 
o mesmo Magi&berio 'na Cathedral da mesma Cidade, compos responsorios 
da Semana Santa, de defuntos, Laudate Pueri Dominum <tudo a 8 vozes, 
faleseo em 1729 jaz sepultado na cappela mor da Irmida de S. Pedro da 
Freguesia de S. Thiago de Camarate. 

Domingos do Rozario Fr. Religioso franciseano ( is ). 

Domingos da Trindade Fr. Religioso de S. Paulo iprimeiro Ere- 
mita (•">). 

Duarte hobo natural de Lx." foi Mestre do Hospital real da mes- 



22 



DICIONARIO BIOGRAFKO DE M6SIO0S PORTUGUESES 



ma Cidade; exerceo o raesmo ministerio na Cathedral da mesma Cidade 
pelo expaco de 45 annos, onde foi Conigo de 4." Prebenda, e reitor do 
Seminario Archiepiscopal I). Francisco Manoel na Carta dos A. A. Por- 
tugueses escrita ao Doutor Manoel da Fonseca Themudo lhe faz grandes 
Louvores, e o mesmo Ihe da Manoel de Faria e Sousa na Fuente de Aga- 
nipe, parte 2 Poem. 10 Estane. 72 e 73. Morreu contando 103 anos de 
idade ( 31 )- 

Estanisldo Barges Coelho ( G2 ). 

Estevao Botelho Fr. natural de Evora Cidade Provincia Transta- 
gana, filho de Domingos Botelho de Villama, e Maria Botelho de Aragao, 
Religioso Eremita de S. Agostinho, foi Prior do Convento de Arronxes, e 
de Louie, foi muito sabio na Arte da Muzica, em que compos varias obras, 
tambem escreveo 5 tomos de folio e dois de Quarto de Sermoes, fJoreseo 
no seculo de 600. 

Estevao de Brito insigne Professor de Muzica assim Theorica como 
Pratica, foi Mestre e Beneficiado em a Cathedral de Badajoz, exerceo o 
mesmo Ministerio na Cathedral de Malaga alcansando pelas suas obras 
grande aplauzo em toda a Espanha, compos motetos a 4, 5 e 6 vozes, a 
eratre outras obras hum Tratado de Muzica, foi Discipulo do famoso 
Felipe de Magalhaes ( a3 ). 

Estevao de Christo Fr. natural da Vila de Torres nove Eeligioso 
da ordem de Christo no Convento de Thomar, foi tao famoso no Contra- 
ponto, que foi chamado a Madrid pelo Cappelao D. Jorge de Almeida, 
para compor a Muzica da Semana Santa, o que fez com tanta satisfacao 
daquele Prelado, e mais pessoas inteligentes que o persuadirao a que a 
impremisse, compos outraa mais obras, Morreu em 1609. No Convento 
de N. Senhora da Luz, huma legoa lon&e de Lx. a ( G1 ). 

Estevao Lopes Morago, grande Professor de Muzica, Mestre da 
Cathedral de Vizeu, as suas obras dao a conhecer a profundidade da sua 
sciencia ( a5 ). 

Estevao, Presbitero secular, e Beneficiado em a Se da Cidade de 
Elvas donde he natoral, fez um Te Deum instrumental ( 6G ). 

Estevao Ribeiro Frances natural de Lx.°, tinha exercicio na Cap- 
pela Real, compos varias obras em Muzica, faleseo no principio do seculo 
de 700 

Euzebio Antonio da Silva Ferreira Mestre da Cappela da Se de 

Leiria. 

Euzebio de Mattos Fr. nasceo na Cidade da Baya Capital da Ame- 
rica no anno de 1629, floreseo no secolo de 600 da Companhia passou 
para os Carmelitas, foi Compozitor famoso de Muzica e era tao sabio nas 
mais artes, e sciencias, que dele dizia o grande Vieira, que Deos se em- 
pinhava a faze-lo em tudo grande Compos varias obras em Muzica, fa- 
leseo no Convento Patrio no anno de 1629 (sic) com 63 annos de idade 
33 de Jesuita, e 15 de Carmelita ; dele faz meneao Fr. Manoel de Sa Mem. 
Hist, das Escrit. Portuig. do Carm. Cap. 24 pag. 140. 

Filipe da Conceicdo Fr. natural de Lx. a professor em Casitela na 
Ordem de N. Senhora das Merces, foi igualmente engenhoso para a pre- 
dica, que para a Solfa, em que compos diversas obras dignas de suma Es- 
timagao ( as ). 

Filipe da Cruz natural de Lx. 1 e Freire de S. Thiago em Palmela: 
o insigne Pedro Talezio o sita como Autor do Canto Ecleziastico, depois 
de ser Mestre de Muzica em a Caza da Mizericordia de Lx. a passou a 
Madrid aonde foi Cappelao da Cappela real no .tempo de Felipe 4.° acla- 



DICIONARJO BIOGRAFTCO DE M&SIOOS PORTVGUESES 



23 



mandose depois o serenissimo D. Joao 4." o chamou .para Mestre da sua 
real Cappela, compoz Missas a 10 vozes, moteto de Defutos dimite me a 
12 vozes, e mais outras obras excelentes. 

Felipe da Madre de Deos Fr. natural de Lx. a recebeo o habito na 
^ sagrada, e militar ordem de N. Senhora das Merces em Castela, depois 
voltando para Lx. a no Reinado do Senhor D. Afonso 6.° o nomeou Mestre 
de Muziea do seu Gabinete, nao so teve sciencia profunda, porem grands 
novidade nas ideias, de algumas das suas composicoes faz mencao D. Fran- 
cisco Manoel nas suas obras metricas Avena de Tersicore. 
f Felipe de Magalhaes nasceo no lugar de Azeitao do Patriarcado 

de Lx." foi Mestre da Caza da Mizericordia de Lx." e depois o foi da 
ft real Cappela. grand-e Pedro Talezio o intitula insigne. Comooz Missas 
a 4, a 5 e 6 vozes, e muitas obras mais, como consta da Biblioteca Lu- 
sitana; des>e autor se imnrimio a seguinte obra, Cantico Beaitissimae 
Virginis. Ulyssipone a-pud Laurentium Crasbec. anno de 1636 fol. 
grande f 83 ). 

Felis chamado ipor alcunha o Catoto, compos algumas obras regu- 
lares chegadas ao estillo moderno. Sabendosse que este Autor he Portu- 
gues ignorase donde he natural 'porem n'ulga-se ser Brasileiro. - 

Felis Jose da Costa, filho de Joao da Costa de Brito, e Catherinaj U*>(. 
Luiza Freire de Andrade, nasceo em Lx." no anno de 1701 foi Juiz de \f~*&? 
Fora de Algoso, estudou quaze todas as sciencias, e belas Artes, e no anno " " 

de 1727 formousse em jurisprudencia Civil: compos obras em Pouzia. e 
em Proza, ta-nto Latinas, quanto Portuguezas, e de solfa a intitulada: 
Muzica revelada do Contra^ionto e composicao que comoreende varias So- 
natas de cr^vo. rabeca; viola, e varios minuetes, e cantatas. 

Felisio Antonio da Cunha, Musico Instrumentista da Camara Real. 

Fernando de Almeida Fr. natural de Lx. a Professou no real Con- 
vento de Thomar da Ordem de Christo, pelas suas virtudes ehegou a ser 
Vizitador da Ordem, entre muitas obras que compos teve grande esti- 
ma^ao huma Missa a 3 coros floreseo no seculo de 600 faleseo no Con- 
vento de Thomar no anno de 1660 o Senhor D. Joao 5° mandou copiar 
a Mizica de Semana Santa deste Autor para se cantar na sua cappela 
real ( ,0 ). 

Fernando Luis Pink, nasceu em Lx." ( 71 ). 
Francisco de S. Anna Fr. Monge de S. Jeronimo ( TS ). 
Francisco Antonio de Almeida, organista da Patriarcal, e famoso 
compositor ("). 

Francisco Bauptista Fr. natural da Vila de Canrpo Maior Pro- 
vincia do Alentejo Eremita de S. Agostinho, foi Mestre no seu Convento 
de Cordova, compos diversas obras de Muzica em que mostrou a profun- 
didade da sua sciencia. 

Francisco Barca natural de Evora Cidade de Evora Freire da 
Melitar Ordem de Santiago no real Convento de Palmela, foi insigne Pro- 
fessor de Muzica sendo Mestre da Cappela do seu Convento, e depois do 
Hospital real de Todos os Santos desta Corte, compos diversas obras, flo- 
reseo no seculo de 600. 

Francisco de Carvalho Fr. filho de Antonio Antunes, e Antonia 
de Carvalho, natural do conselho de Lanhoso destante duas leguas para 
o norte da Cidade de Braga, Provincia de Entre-Douro e Mmho, pro- 
fesso o instituto de Eremita de S. Agostinho no Convento desta Corte a 
17 de Abril de 1658, on.de por muitos annos dictou as principaes materiaa 
da theologia Escolastica, foi muito sciente na Muzica em que compos 



DICIONARIO BIOGRAFfCO DE MCSIOOS PORTUGUESES 



varias obras, morreo em Lx." no Convento da Graca onde se conservavao 
£uas obras no anno 1703. 
% Francisco D. Castelhano de Apelido iporem Portugues de Nacao 

1 Conego regrante de S. Agostinho, e Mestre da Cappela no real Convento 
da Santa Cruz de Coimbra, alem de mais obras, compos as lamentacoes 
e bradados das Paixoes que por ordem de EIRei Felipe 2.° forao pedidas 
pelo Cappelao Mor D. Jorge de Athaide para se cantarem no Escurial no 
anno de 1590 ("). 

Franco Correia de Araujo Presbitero insigne Proffessor de Mu- 
zica, e nao menos grande tangedor de Orgao. exercitou este Ministerio 
na Igreja Colegiada de S. Salvador da Cid de Sevilha, aonde foi reitor 
da Irmand." dos sacerdotes, compos huma obra intitulada faculd.* orga- 
nica, cuja imprimio no anno de 1626 em Alcala por Ant. Arnao, e nela pro- 
metia dois Livros hum de casos Moraes da Muzica, e outro de Versos. 
Nicolao Ant.° na sua Biblioteca Hispanica faz mencao dele Append, tom. 2 
pag. 322 C). 

Franco Cordjo Prebitero Freire de Aviz Prior em a V." de Es- 
tremos Provincia Transtagana. 

Franc.™ da Costa natural da Vila de Tancos do Patriarcado de 
Lx." Freire da Ordem Melitar de Christo, e Beneficiado na real Igreja 
de N. Senhora da Conceicao de Lx. a foi muito perito na Ante da Muzica, 
faleseo no anno de 1667 jaz sepultado na Igreja onde era Beneficiado, 
deixou cotnposto dois volumes de Muzica. 

Francisco da Costa e 'Silva, nasceo em Lx." foi hum dos maiores 
Proffessores de Muzica do seu tempo, exerceo o -lugar de Mestre na Ca- 
thedral da sua Patria, e nela obteve hum canonicato de 4." Prevenda, fa- 
leseo em 1727 compos Missas a 4 vozes com intrument.° B , responsorios de 
officio de Defuntos a 8 vozes, com todo o genero de ins.trum. tos que com- 
pos para as exequias que a Nacao Francesa dedicou em a Cappela real 
de S. Luis desta Corte a memoria do seu invensivel Monarca Luis o grande. 

Francisco Garcia famoso Proffesor de Muzica iguahnente pratica, 
que esneculativa, compos bast-antes Missas por diversos tons, das obras e 
do A. faz mencao Joao Franco Barreto Bib. Portug. M. S. as suas obras 
9 se imprimirao em Lx." por Pedro Crasbek no anno de 1609. 

Franc. "o Guerreiro natural da Cid. e de Beja provincia Transtaga- 
na, este autor foi do secnlo de 500 compos diversas obras em Muzica ( ,6 ). 

Francisco Ipnacio Solano (")■ 

Francisco de S. Jeronemo filho de Pascoal da Silva Garcia, e de 
Maria Rodrigues da Silva, nasceo em Evora Cida.de em 1692 recebeo o 
habito de S. Jeronimo no Convento do Espinheiro no anno 1715 e reno- 
vou a Profficao no real Mosteiro de Belem em o anno de 1728, foi Mestre 
da Cappela deste real Mosteiro, compos muitas obras excelentes, e entre 
estas os responsorios das Matinas de S. Jeronimo a 4 coros com todo o 
genero de instrumentos, Missa de 8 vozes obrigadas, e outras obras maes. 

. Francisco Jose Coutinho D. natural de Lx. a fez accoes dignas de 

, seu Ilustre Nascimento no choque chamado de Monsanto foi tao insigne 

\j na Arte da Cavalaria, como em a Muzica, tocava perfeitamente os instru- 
mentos de Cravo, e de viola faleceo em 1724 jaz sepultado no Convento 
dos Carmelitas Descalcos de Paris onde se tinha hido curar de huma gra- 
ve molestia, das muitas excelentes obras de Muzica que deixou compostas 
(tern maior imerecimento hum Te Deum a 8 coros que compos para se can- 
tar no anno de 1722, e huma Missa a 4 coros com clarins, e rabecas inti- 
tulada Selela (sic) Aretina ( TS ). 



DIC10NARI0 BIOGRAFICO DE MCSIOOS PORTUGUESES 



25 



Francisco Jn. Mendes { ,B ). 

Francisco de S. Joao Nepumuseno F. Religiose Frainciscano ( so ). 

Francisco Leal Fr. Carmelitano, f oi Mestre da Cappela 'no.seu Con- 
vento em Lx. a , compos muitas obras de Muzica, tocou muito bem Arpa, 
■teve muitos Desciplos de Contraponto, faleseo em Lx. a no seculo de 700. 

Francisco Lopes D°' primeiro organista da Se de Evora Cidade, 
e natural da inesma Cidade ( 81 )- 

Francisco Lids Presbiitero natural de Lx. a de vida exemplar, e de 
profunda sciencia >na Arte da Muzica assim pratica quanto expeculativa 
foi Mestre na Cathedral de Lx. a sua Patria onde morreo em 1693 e jaz 
sepultado na antiga Parroquia de N. Senhora dos Martires: deixou mui- 
tas obras entre elas as mais estimadas forao texto da Paixao de Domingo 
de Ramos, e de sesta feira maior a 4 vozes, salmos, e vilancicos a diver- 
sas vozes ( aa ). 

Francisco Manoel Mariz ( 83 ). 

Francisco Manoel Padre ( B3 ). 

Francisco Martins Presbitero natural de Evora Cidade filho de 
Manoel Martins e de Angela Freire, foi Mestre da Cathedral de Elvas, 
compos Micas a 4 vozes as paixoes dos 4 Evangelistas a 4 vozes, respon- 
sorios das Matinas de 5. a e 6. a e sabado da Semana Santa a 8 vozes ( ai ). 

Francisco Martins Presbitero secular Mestre da Capela de Elvas 
fez .textos a 4 vozes, e os diitos de Christo da Paixao da 3. a e 4." feira 

Francisco Mendes Gouveia, Vide, Caminha ( 9C ). 

Francisco Nunes Piteira Mestre da Cappela da Se da Guarda na- 
tural da vila de Olivenca, fez humas Lic.6es de Defuntos, e varios motetos 
de Quaresma. 

Francisco da Purificacao Fr. Religiozo Paulista, Mestre da Cappela 
da Se de Elvas natural de Campo Maior fez du-as Missas de Cappela, e 
hum Te Deum com instrumentos ( 8! )- 

Francisco da Rocha Fr. natural de Lx. a da Ordem Trinitaria, huma 
das maiores abelidades do seu tempo na tenra idade de 11 annos -compos 
huma Missa a 7 vozes, faleseo em 1720. Deixou eseritas pela sua propria 
mao as suas obras que sao infinitas em dois volumosos Livros, os quais 
diz a Biblioteca Luzitana paravao em poder do Padre Joao da Silva de 
Moraes Mestre que foi da Bazilica de Santa Maria ( ss ). 

Fran.™ Sanxes, q por huma obra de Muzica q vimos dele .iulgamos 
ser da Cid. e .de Beja provincia Transtagana, ignoramos o seculo em que 
viveo, mas suoomos ser antigo ( B9 ). 

Francisco de Santo Agostinho Fr. ( fl0 ). 

Francisco de S. Thiaao natural .de Lx. a passou a Castela aonde re- 
oebeo o abito de Carmelita Calcado, foi hum dos mais celebres Profesores 
de Muzica do ssu temno tanto pratica, quanto especulativa, razao por- 
que chegou a ser Mestre nas Cathedraes de Placencia, e Sevilha. se- 
nhor EIRey D. Joao 4.° quiz honralo pondo-lhe o seu retrato na sua Bi- 
blioteca de Muzica: Compos Salmos a 4 a 8 e a 12, e huma Salve Regina, 
e outras mais composicoes faleseo em 1646 ( B1 ). 

Francisco de Valhadolid natural da Cidade do Funxal Capital da 
Ilha da Madeira, foi Mestre de Muzica do Seminario Archiepiscopal de 
Lx.\ e ultimamente na Parroquia! dos Santos Martyris Verissimo, Ma- 
ximo e Julia. Compos Missas a 6 vozes, a 8, a 14, e a 16 e hum Livro de 
preceitos de Muzica assim pratica, que especulativa, cuja publicac,ao em- 
baracou a sua morte que foi em 1700 ("-). 

Francisco Xavier Batista, Organista da Se de Lx." ( B3 ). 



26 DICIONAEIO BIOGRAFICO DE M&SIOOS PORTUGUESES 



Francisco Xavier Froes natural de Evora Cidade ( B1 ). 

Francisco Xavier Cantor da Se" da Cidade de Evora, natural da 
mesma Cidade, compos dois Responsorios da Conceicao ( ,J5 ). 

Gabriel da Annunciacdo Fr. filho de Andre Francisco de Aguiar, 
e Izabel de Carvalho, nasceo na Vila de Ovar da Comarca da Feira em 
o Bispado do Porrto, pela sciencia que tinha na Muzica, e noutras mais 
sciencias que estodou no Convento de Leiria, chegou a ocupar Lugares 
Onorificos, foi Vigario do Coro de S. Francisco de Coimbra, do Porto, e 
ulitimaniente de Lx. a onde tinha recebido o abito, compos alem de muitas 
obras em Muzica, huma Arte de Cantochao rezumida para uzo dos Reli- 
giosos observantes da Provincia de Portugal, a qual sahio impressa no 
anno de 1735. 

Gil Mestre natural da Vila de Abrantes do Bispado da Cidade da 
Guarda, Escudeiro de EIRey D. Joao o 3.", e cantor da sua Cappela real, 
deste Author se conservavao na Livraria do Ex. ra ° Duque de Lafoens al- 
gumas obras em Muzica (**). 

Gil Fr. natural de Lx. a foi vigario do Coro da 3. a ordem da Peni- 
tencia, deoois passou para a Provincia da observancia de Portugal onde 
tambem foi Vigario, e Mestre do Coro, exercendo o mesmo ministerio em 
Catalunha, compos Salmos, e completas a 6 vozes motetos a 4 e 8 Missas 
en diversos tons, faleseo no Convento de S. Francisco da Guarda em 1640. 

Gabriel de Jesus Fr. natural da Cidade de Leiria Monge Cister- 
siense, foi destrissimo tangedor de Orgao, e Ama, e nao menos insigne 
em Contraponto, entre as suas obras. tern maior extimacao quinze mo- 
tetos que compos para a Via Sacra. Proffessou no real Convento de AI- 
cobaea no anno de 1676. 

Gosvar da Cruz D. Conigo Reeular de S. Agostinho, insitme Pro- 
fesor de Muzica, e Mestre em o real Convento de S.' a Cruz de Coimbra, 
compos huma Arte de Cantochao, e omtra de Canto de oreao ( fl7 )- 
A '■ Gaspar dos Revs celebre Profesor de Muzica, foi Mestre em a Par- 
"iroquial Igreja de S. Juliao de Lx.% e detwis em a Cathedral de Braga, 
comnos salmos, motetos, e vilancicos a diversas vozes. faleseo na cidade 
de Braga ( ss ). 

Gonsalo Auqier Romero natural de Lx. a filho de Pedi-o Aueier Ro- 
mero, muzico Instrument sta da Cannara de S. Magestade Fedelissima, e 
hum dos seus milho'-es Profesores de Rabeca, entre muitas obrps oue com- 
■dos. comiHis duas Missas a 4 vozes com inatromentos, huma Ladainha e 
hum Tantum Ergo tudo a 4 vozes com instrumentos. 

Gonnalo Martins f flB ). 

Gonsalo Mendes Saldanha natural de Lx. a Irmao do insigne Poeta 
Latino Antonio Mendes, foi estimado por todos os Proffesores desta 
suave Arte, tanto pela nuvidade das ideias, ouanto pela ipostura das vozes 
com que regulava as suas obras era indesbancavel nos Mizereres, com- 
pos Salmos. Lamentacoes, Vilancicos, e outras obras mais a 6 e 8 vozes; 
das suas obras se achava hum Tomo de folio na Bibliotheca do Cardeal 
Sousa, que hoje he do Ex. mo Duque de Lafoens. Este famoso autor era 
medico. 

Gonsalo Xavier de Alcaseva ( 1M ). 

Goriao de Mafra. Canelao da Real Ca,T>ela de N. S™ da Aiuda. 
/~ Heliodoro de Paiva D. natural de Lx." Coneeo Regranlte de S. ta 

Cruz de Coimbra, colaco de EIRey D. Joao 5." este selebre autor foi filho 
de Bartolomeu de Paiva guarda roupa do mensionado Monarca, foi in- 
signe Compositor de Muzica, tocava orgao, rabeca, e Arpa, era igual- 



DICIONAMO BIOGRAFICO DE M&SIQOS PORTUGUESES 27 



anente douotissimo nas Linguas, grega, Hebraica, e Latina. foi o maior 
Filozofo, Theologo, e Escriturario do seu .tempo, regeitou diversos Bis- 
pados, f&Teceo em 1552. Compos hum Lexico Grego, e Hebraico de folio 
impreso em Coimbra no anno de 1532 cuja obra ofreseo ao Senhor Key 
D. Joao 3.", Compos Missas, Magnificas, e motetos com varias vozes, deste 
Autor faz mengao D. Nkoi. de Maria Chron. dos Coneg. regrantes Liv. 
1 cap. 12 n. 9. 

Henrique Carlos Correct Fr. natural de Lx." filho de Felix Thomas 
Correa, e Marianna de Briito e Oliveira, recebeo o abito militar de S. Thia- 
go em o real Convento de Palmela onde exercitou o magisiterio de Mestre 
de Muzica, por serem muitas as suas obras se podem ver na Biblioteca 
Luzitana, contavao os seus companheiros Freires que a uLtima obra que 
compos foi Sltara mea conversa est in lutum, e que apenas a acabou fa- 
leseo. Ex. mo Bispo de Coimbra o chamou para Mestre da sua Cathedral, 
cujo Magisterio exercitou enquanto nao foi exercer o mesmo no real Con- 
vento de Paknela, faleseo no seculo de 700 i 1 "'). 

Henrique de Faria natural de Lx. a insigne Profesor de Muzica, foi 
Mestre em as Parroquias de S.' 1 Justa, e N. Senhora dos .Martires de Lx. 1 
havendo exercitado o mesmo Ministerio em a Igreja Matris da Vila do 
Craito, compos diversas obras em Muzica, morreo na sua patria. 

Henrique Jose Calado natural de Lx. a insigne tocador de viola, 
Compos algumas tocatas de viola, e m.' Minuete p. 3 o mesmo Instru- 
mento, faleseu no seculo de 700. 

Henrique da S.* Esteves Negrdo filho de Pedro da S. a de Organista 
do Loureto .passou a ser organista da Se de Lx. a itucava grandes dificul- 
dades, soube Contrapo'nto com muita profundidade, era bem digno de 
ocupar huma cadeira desta faculdade, compos salmos, responsorios, Mis- 
sas, Ladainhas, e muitas tucatas de Cravo, deixou grandes Desci polos, era 
consultado pelos organeiros para lhes dar a milhor norma de fazerem 
orgaos, e cravos, faleseo no presente seculo ( I0S ). 

Jacinto Fr. religiose de S. Paulo primeiro Eremita ( 10J ). 

Jeronimo Francisco Lima 0°*). 

Jeronimo da Madre de Z). B Fr. Religioso de S. Paulo primeiro Ere- 
mita, foi excelente lorganista, compos muitas obras em Muzica, faleseo 
no secolo de 700. 

Jeronimo Pinto, Doutor ( ,os ). 

Jeronimo de Sousa Pereira Presbitero do Abito de S. Pedro, o ho- 
mem Pardo, foi Mestre da Capella de S. Pedro Gonsalves no Recife de 
Pernambuco, dutou muitos Descipolos bons em Contraponto .tanto em 
Pernambuco, como em seus seburdios, escreveo varias obras em Muzica. 

Ignacio por Aleunha o bandurra por tocar este instrumento gran- 
demente, natural da Cidade da Bahia compunha so modas a Duo, e mais 
vozes, porem eram en graced issimas (" G ). 

Ignasio Antonio Celestino Mestre da Se da Cidade de Evora, com- 
pos algumas obras em Muzica, faleseo no seculo de 700. 

Ignasio de Loiola, natural da Cidade de Evora. 

Ignacio Noia Presbitero do habito de S. Pedro 'natural do Cabo 
homem douto em Filosofia Theologia, e outras admiraveis faculdades sen- 
do tao bem imuito douto em Muzica, foi Mestre da Cappela em S. Anto- 
aiio do Recife em Pranambuco, dele existem algumas obras em Muzica, 
tocou muito bem Arpa, e Viola, e fez descretamente bem os versos La- 
tinos e Portugueses. 

Ignacio Terra Presbitero do Abito de S. Pedro homem Pardo to- 



28 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSIOOS PORTUGUESES 



cava muito bem Arpa, e compunha nao menos bem a sua Muzica dizem 
os seus nacionaes que tivera prodigiosa morte por que estando com a sua 
Arpa em Igaracu onde se achava para fazer a Muzica dos Santos Cosme 
e Damiao emprovizadamente largou o Instrument, e disse que morria, 
acodirao os amigos a saber que molesitia o oprimia, nenhuma irespondeo 
ele, porem morro, para o que mandem me dar a Uncao por ter dito nesse 
dia Missa, e como sertificasse com tantas veras o dito, derao ordem ao 
que ele pedia, e acabando de uugirsse espirou. foi Mestre da Capella da 
Se de Olinda donde paresse que era natural; fazia descretamente os ver- 
sos Espanhois e Portugueses. 

Inocencio de Sousa Mialha Mestre na Real Cappela de Vila Vico- 
sa, Presbitero secular compos quaze todo o salterio de David, e muitas 
Muzicas de quaresma ("")• 

Joao Alvares Frovo natural de Lx. a subrinho de Gaspar Alvares 
Lousada, foi Cappelao de EIRey D. Joao 4", e Biblioiecario da famosa 
Eiblioteea da Muzica do mesmo Senhor 35 annos, foi Mestre da Cappela 
da Cathedral da sua Patria, onde em remuneracao do seu merecimento 
obteve hum canonkato que quarta prebenda, entre muitas obras que com- 
pos em Muzica nao tern menos merecimento a que imprimio intitulada 
= Defesa do Diatheserao, e louvores do numero quartenario = Faleseo 
em 1682, contando 74 annos: Jaz na Cathedral de Lisboa dele fala Souza 
Hist. Geneal. da Caz. Real Pontug. Tom. 7 Liv. 7 pag. 241 ( 1UK ). 

Joao de Abreu, natural da Vila de Tomar Compos algumas obras 
em Muzica, faleseo no seculo de 700. 

Joao Antonio Prins natural de Lx. 1 

Joao Alexandrino Fr. Religioso de S. Francisco de Paula, e orga- 
nista no seu Convento em Lx. a onde he natural. 

Joao Boniba Fr. Religioso da 3. a Ordem de S. Francisco. 

Joao Cordeiro da. Silva natural da Cidade de Elvas ( 10G ). 

Joao de Christo Fr. natural de Lx. a Monge de S. Bernardo, foi in- 
signe tangedor de orgao, e dos selebres Profesores de Muzica do seu tem- 
po, entre mais obras que escreveo, compos as Calendas do Natal, e de S. 
Bernardo, e os textos das Paixoes a 4 que se cantavao em a Semana 
Santa, faleseo no Convemto de Alcobaca no anno de 1654. 

Jose de S. Cristovao, F. Agostinho descalso, natural de Evora 
Cidade. 

Joao Crizostomo da Cruz natural de Vila franca de Xira do Pa- 
triarcado de Lx. a filho de Manoel Francisco da Cruz, e Maria da Con- 
ceicjio, Presbitero escreveo huma Arte de Muzica intitulada: Methodo 
breve e claro em que sem preluxidade, e confuzao se exprimem os nesse- 
carios principios para a inteligencia da Arte de Muzica, sahio imprec.a no 
anno de 1743 ordenosse de Presbitero no anno de 1731. 

Joao Dias natural da Villa de Cea da Provincia da Beira Bispado 
da Guarda, foi subxantre da Cathedral de Coimbra, e muito perito na 
faculdade da Muzica em que compos algumas obras, e principalmente em 
Cantoxao, como deixou manifesto na obra seguinte que Louva muito Pe- 
dro Talesio: Enchiridium Missarum solemnium et votivarum cum ves- 
peris, et Completis tc-tius anni nee non officio Defunctorum, et alius justa 
morem S. R. E. et reformaitionem Missalis ac Breviari ex Decreto Con- 
silii Tridentini sub mudulamine Cantus et elegantibus notis utilizer, et 
Laudabiliter in utilita.tem publicam Colectum. Conimbricae apud Anto- 
nium Maris. Univ. Typ. 1580. 4. 

Joao de Escobar, insigne Proffessor de Muzica, entre mais obras 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MGS1C0S PORTUGUESES 



que compos fora muito estimados os seus unotetos a 4. Tambem foi exce- 
lente Poeta Comko, forao im.pressos os seus motetos em Lx." no anno de 
1620 imprimiosse huma obra intitulada, Auto do Fidalgo de FJorencia 
que offereseo este Alitor a EIRey D. Sebastiao. 

_ Joao Frz. Fermoso natural de Lx." viveo no secuio de 500 foi muito 
sciente na Muzica, era Cappelao de EIRey D. Joao o 3° .por ordem deste 
senhor compos o Passionario da Semana Santa para ouzo da sua Real 
Cappela, cuja obra se imprimio em Lx. a na Offecina de Luis Alvares no 
anno de 1543. folio, ' 

Jodo Fogassa Fr. natural de Lx.» filho de Francisco Fogassa e de 
Luiza da Silva Rehgiozo da Serra de Ossa, rtitiha de EIRey D. Joao o 4 
huma Tenca de 48000 reis cada anno, foi definidor e Reitor em dois Con- 
ventos escozousse de muitas Prelazias, por ser excelente em debuxar com 
pena, escreveo tres hvros para o Coro da Serra de Ossa, onde foi Mestre 
da 'Cappela, compos Licoes, e Missas a 8, e 12 vozes faleseo em Lx. a a 2 de 
Ag.'° de 1658 com 69 annos de idade. 

Jodo Gomes natural da Vila de Veiros em a Provincia Transtagana 
foi Thesoureiro mor da Cappela Ducal de Villa Vicosa, e muito sciente 
na Arte de Muzica em que compos algumas obras faleseo em Vila Vicosa 
no anno de 1653. 

Jodo Joaquim Estrela F. Religioso Franciscano natural da CidadS 
de Evora. 

Joao Glz. natural da Cidade de Elvas na Provincia do Alentejo foi 
Muzico em a Cathedral de Sevilha, grande pratico, e nao menos especula- 
tivo, compos bastanfces obras em Muzica. 

Joao Miz. Presbitero de exemplar .procedimento, foi muito perito 
na Arte do Cantochao de que teve escola piiblica, compos huma Arte in- 
titulada Arte de Cantochao, posta, e reduzida em a sua inteira profei?ao 
segundo a .pratiea delle muito nessecaria rpara todo o sacerdote, e pessoa3 
que andem saber cantar; cuja Arte foi impressa em Coimbra por Manoel 
de Araujo no anno de 1603 okavo, imprimiosse segunda vez por Nicolao 
Carvalho impressor de Universidade no anno de 1612. Compos algumas 
obras em Muzica. 

Jodo da Matta Fr. natural de Lx." religioso da 3." ordem da Peni- 
tencia filho de Joao Machado, e Maria Ferreira, estudou as sciencias se- 
veras, e Filosofia no Convento de Vianna, defendeo conclusoes publicas 
de Theologia em o Colegio de Coimbra faleseo em 1738 entre as Compo- 
zigoes de Muzica que deixou merecerao maior estimatjao varios motetos a 
4 vozes, e huma Missa a diversas vozes 

Joao Melgds Ferro Doutor, natural da Vila de Cuba provincia 
Iranstagana, Irmao de Diogo Dias Melgas de q. m ja fizemos mensao 
compos varias obras em Muzica, este autor existio ou no fim do secolo 
de 600 ou no principio de 700 ("'). 

_ Joao Mendes Monteiro natural da Cidade de Evora foi hum doa 
mats celebres Muzicos da Cappela real de Madrid, era muito especulatlvo 
compos diversos Motetos a 4 ea 5 vozes (" 2 ). 

Jodo da Nativids Fr. natural da Vila de Torres Vedras do Pa- 
triarcado de Lx." religioso Trinitario em a mesma cidade, foi Ministro 
Convento de Lagos, e Alvito, na Arte da Muzica compos divereas obnur 
iguaLmeiite gratas ao ouvido que conformes aos preceitos, nao teve me- 
nor ta lento para o Pulpito, faleseo em 1709 tinha pronto para a impres- 
sao 3 tomos de sermoes, dos quaes se .publicou so hum que he o eeguinte 
oracao funebre e Panegirica nas honras que a Serenissima Senhora D Ma- 



SO DICtONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 

ria Sofia Izabel Rainha de Portugal se selebrarao ma Igreja Matriz da 
Cidade ide Lagos, Lx. a ipor Felipe de Sousa Vilela 1700 4. 

Jodo Nunes Freire q. julgamos ser natural da Cidade do Porto, 
onde ensinou gramatica Latina. 

Jodo Pedro, chamado por antenomazia o Gago, que julgamos ser 
natural da Provineia Transtagana, compos diversas obras em Muzica, a 
com especialidade escreveo Arias graciosas ( m ). 

Joao Pedro Thomas, Muzico Instrumentisita da Camara Real ( 1M ). 

Jodo o U." Serenissimo EiRey de Portugal naseeo em Vila Vicosa 
no anno de 1604 foi f.° do Serenissimo Duque D. Theodosio 2 do nome, 
e 7 Duque de Braganea e de D. Anna de Velasco filha de D. Joao Fnz. de 
Velasco Condestavel de Castela 6 Duque de Frias, foi na Muzica Cienti- 
fico, communicou excelentes compozi^oes em nome suposto, porem por 
superiores logo erao conhecidas. Ajumtou a mais copiosa, e rara Livraria 
de Muzica itanito impressa, quanto manuscrita, que ate ao presente se vio. 
todos os dias depois de jantar se intertinha huma hora no recreio de .tao 
divina Arte. Consta por tradicao certa, que hum grande Fidalgo do seu 
tempo, vendo que ele estimava hum Proffessor sumiamente sabio em Mu- 
zica, lhe dicera V. a Magestade estima este sugeito como se fosse idas prin- 
cipals pessoas da Corte, ao que rindosse lhe respondeu = olhai titulos e 
grandezas posso eu fazer .todas as horas, porem homens de merecimeiiito, 
e rairos so Deos os faz — Similhante eazo sueedeo em Franca, e Parma. 
Fez imprimir huma obra intitulada ~ Defenssa da Muzica moderns con- 
tra a errada openiao do Bispo Cirilo Franco, cuja obra se imprimio em 
Lx. a no anno de 1649 cuja obra ofresseo a seu Mestre Joao Lourenco Ra- 
bello 

Joao Pexina, natural de Lx. a organista da real cappela de N. Se- 
nhora da Ajuda, compos varios salmos a 3, e 4 vozes {' 1R ). 

Jodo Pinheiro Fr. natural da Villa de Thomar Religioso da Ordem 
de 'Christo em o real Convento da rniesma Villa, compos diversos Livros 
que se conservao no dito Mosteiro, compos a Antefona Ave Regina Ce- 
Jorum a 3 coros e outras obras mais ("')■ 

Jodo Pinheiro de Miranda, Quartanario na Se 'de Lx. a compos va- 
rias obras em Muzica com muito aserto. 

Jodo da Purificagdo matural de Lx. a Conigo secular da Congrega- 
c.ao do Evangelista, e M. e da Cappela em o Convento de S. l ° Eloy de Lx.» 
foi insigne na Arte da Muzica, compos diversas obras as quaes se con- 
servao nas Bibliotecas dos Comvantos da sua Congrega^ao, faleseo em 
1651 ("•). 

Jodo Rodrigues Fr. cujo institute que proffessou se ignora: existio 
no Seculo de 500, Escreveo algumas obras em Muzica, e huma Arte de 
Camtochao que se imprimio em 1560 

Jodo Rodrigues Esteves foi mandado pelo senhor EiRey D. Joao 5." 
estudar a Roma, foi mestre do real Seminario da Muzica de Lx. fl alem 
de varias que compos forao 2 Te Deus para se cantarem nas reaes pre- 
sences, em dia de S. Silvestre sendo hum dos ditos Te Deus a quatro 
Coros, faleseo mo seculo de 700 ( ,21) ). 

Jodo de Seixas da Fonseca natural da Cidade de S. Sebastiao Capital 
do Rio de Janeiro, filho de Francisco de Seixas da Fonseca, e de Maria 
da Rosa Fiussa, recebeo o Monastic© de S. Bento na cidade da Bahia, 
passando a Roma recebeo grandes estima?6es do Papa Clemente 13, e o 
creou Bispo de Areopoli em 1713. Compos diversas obras em Muzka. 

Jodo de S.'* Maria D. natural da Villa de Terena Provineia Trans- 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 31 



tagana conigo regramte de S.'° Agositinho, foi 40 annos Mestre da Oappela 
do real Convento de S. Vicente de fora, faleseo com manifestos signaes 
de predestLnado em o Convento de S. Salvador de Grijo no anno de 1654 
Compos 3 livros de Contraponto, os quaes ofereseo ao Senhor El-Rey 
D. Joao 4." ( 121 ). 

Jodo da S.* Moraes sacerdote in menoribus masceo em Lx. a foi Mes- 
tre da S." Caza da Misericordia, e depois exereeo o mesmo minisiterio 
na Cathedral da mesma Cidade: as suas compozicoes sao infmitas, de 
todas ellas faz mengao a Eibiioteca Luzitana, entre as ditas achao-sse 
4 Mizereres a 3 coros, foi filho de Antonio da S. a Moraes, e Domingas 
Rodrigues, faleseo no seculo de 700 ( ) . 

Jodo da S. A Presbitero natural de Campo maior Cappelao em V. Vi- 
oosa fez uma celebre obra intitulada Batalha naval, e campal em Muzica. 

Jodo Soares Rebelo, ou Jodo Lorenzo Rebelo nasceo em a Villa de 
Oaminha Provincia de Entre Douro, e Minho no anno de 1824 quando 
contava 15 annos de idade foi ademitido ao servisso da Serenissima Casa 
de Braganca, foi comendador da ordem de Christo, dizia delle o serenis- 
simo El Rey D. Joao o 4.° que .tendo noticia dos talentos de tantos e tao 
grandes Proffessores de Muzica, nao tinha acliado outro q'igualasse ao 
de Rebello, meresseo que o dito Senhor lhe dedicasse a obra intitulada 
Defenca da Muzica Moderna, contra a errada openiao do Bispo Cirilo 
Franco. A maior parte das suas obras dedicou ao obsequio dos Templos, 
Bendo o Theatro dos principaes a Cappela real onde era Mestre, seu ir- 
mao Marcos Soares Pereira; mereseo ser Mestre do Serenissimo Duque 
de Braganca depois 4.° Rey de Portugal que lembrandosse do seu en- 
sino, lhe deo o foro de Fidalgo da sua Caza, por Alvara. de 1646, e as 
oomendas de S. Barbolomeu do Rabal, e de S. Maria de Moncao, donata- 
rio das Jugadas de Penalva, e colheitas de Gulfar. Cazou -no anno de 1652 
com D. Maria de Maeedo, filha de Domingos Riz de Macedo Dezembar- 
gador da Casa da Suplicacao, e Provedor das Lezirias de Santarem, deste 
Autor fazem mencao D. Francisco Manoel chamando Ihe nas suas obras 
metricas avena de Tersicore, torn. 15 o insigne Mestre reai Joao Soares 
de Brito, Theafcr. Luzit, Liter. L. m. 46 in arte Muzica peretissimus, 
D. Antonio Caetano de Souza Hist. Gen. da Casa real Portug. Tom. 7 
pag. 241 este celebrado Autor foi filho de Joao Soares Pereira, e de Do- 
mingas Lourenco Rebello ('"). Jodo de Sousa 0"). 

Joao de Sousa de Carvalho ( 12S ). 

Jodo Vaz Barradas muito pdo, e Morato nasceo em a Cidade de 
Porto Alegre em a Provincia Transtagana, depois de ser Mestre do coro 
da Parroquia de S. Nicolao, servio o mesmo cargo ma Bazilica de S. la Ma- 
ria desta Corte, escreveo diversas obras, entre as quaes farei mencao 
das seguintes. Preceitos Eclesiasticos do Canto firme para beneficio, e 
uzo comum dos coros. Item: Plores Muzicaes colhidas no Jardim da mi- 
Ihor Licao de Varios A.A. Arte pratica de Canto de Orgao. Indice de 
Cantoria para primcipiantes com hum breve rezumo das regras mais prin- 
cipaes do Canto chao, e regimen do Coro, e uzo Romano para os Subxan- 
tres, e Organistas. quern quizer ver as mais obras que compos veja a Bi- 
blioteca Luzitana morreo no seculo de 700 foi filho de Manoel Barradas 
Soria, e Isabel Lopes. 

Jodo Vitoriano Jacomo Feliz natural de Lx. a Organista da Se da 
mesma Cidade. 

Joaquim Cardote, organista da Real Capela de N. S. a da Ajuda 
compos varias obras em Muzica ( 1JS ), 



92 DICIONARIO BIOGRAFJCO DE MCSICOS PORTUGUESES 



Joaquim Moreira natural de Lx.' Organista da real Cappela da 
Bemposta, compos varias obras em Muzica, faleseo no seculo de 700. 

Joaquim Pecorario cantor da real Capela de N. S.» da Ajuda 
naseo em Lx.* ( m ). 

Joaquim do Valle Mexelin foi mandado pello Snr. Rey D. Joao 5." 
a estudar Muzica a Roma, foi muzico da real Cappela de Lx.* compos 
varias obras em Muzica faleseo no seculo de 700 ('-*). 

Jose Agostinho de Mesquita natural de Lx." escelente orga- 
nista compos Missas, Salmos, Responsorios, Serenatas, e muitas tocadas 
de Cravo. 

Jose de Almeida, clarim q foi de sua Mgg. Je compos algumas obras 
em Muzica, faleseo no seculo de 700. 

Jose Alvares Mosca organista da Patriarcal de Lx." escreveo va- 
rias obras em Muzica ('"■). 

Jose Antonio Carlos de Seixas natural da Cidade de Coimbra filho 
de Francisco Vaz, e de Marcelina Nunes, cavalleiro professo da Ordem 
de Cliristo, contador do Mestrado da Ordem Militar de S. Tiago, athe 
ao presents nao teve Portugal outro organista tao famoso, quis o Sere- 
nissimo Senhor Infante D. Antonio que o grande Escarlate, pois se acha- 
va em Lx. a no mesmo tempo ihe desse alguma Li^ao regulandosse por 
aquela idea errada de que os Portugueses por mais que fat;ao nunca che- 
gao a fazer o que fazem oa Estrangeiros, e o mandou ao ditto; este ape- 
nas o vio por as maos no Cravo cunhecendo o Gigante pelo dedo Ihe disse = 
Vossa merce he que me pode dar Li$5es, e encontrandosse com aquele 
Senhor Ihe disse — V> Alteza mandome examinar, pois saiba que aquele 
sugeito he dos maiores Proffessores que eu tenho ouvido. Foi ademitido 
para organista da Patriarcal contando 16 anos falesseo em 1742 jaz se- 
pultado no Carneiro da Irmandade do Santissimo da Bazilica de S.' a Ma- 
ria, as suas composicoes quaze se nao podem reduzir a numero, e suposto 
que a Biblioteca Luzitana diga que compos 700 tocatas de Cravo, compos 
mais de mil, nao falando naquelas que nao escreveo, compos Missas, a 4 
e a 8 vozes, e hum Te Deum a 4 coros, e infinitas composicoes em Mu- 
zica, foi Alferez, e Capitao do Mestre em a Companhia do Ex."" 3 Visconde 
de Barbassena em 1733 hum mes depois da sua morte Ihe fez a comuni- 
dade da Graca solenes exequias no seu Convento a que asestio grande 
parte da nobreza da Corte. 

Jose Antonio dos Reis Presbitero natural da Cidade de Evora foi 
Mestre da Cappela do Eminentissimo Cardeal Patriarca em S.'° Antonio 
do Tojal, e depois exerceo o menisterio de Mestre da Cappela, e reitor 
do Seminario da Se de Evora sendo ultimamente Beneficiado da mesma 
Se, compos em Muzica Missas, Salmos, Responsorios, Mizereris, e otras 
obras mais. 

Jose Claudio de Almeida natural de Lx. a filho de Claudio Antonio 
de Almeida 

Jose Gomes Pe. 

Jose Joaquim dos Santos. 

Jose Joaquim Paxdo, nasceo em Lx. a 

Jose do Loreto F. Religioso Franciscano. 

Jose Luiz. 

Jose Maurisio Mestre da Capela da Se de Coimbra, natural desta 

Cidade 

Jose Priano Organista da Se de Lx. a tambem tocava Saiterio. 
compos varias obras em Muzica, faleseo no seculo de 700. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 33 



Jose Rabicas Fr. 
Jose Riz Vilela. 

Jose da SUva Reys natural de Lx." sacerdote in menoribus foi 
hum dos bons violoncelos do seu tempo, compos em Muziea, Salmos, Res- 
ponsorios, Arias, e outras obras mais, faleseo no seculo de 700. 

Joliao Rosado Tavares Mestre da Cappela de Evora. 

Izidoro Alvares natural da Cidade do Porto ( 132 ). 

Leocadio ('"). 

Luiz de Pina e Mendonga Cavalleiro Proffesso na ordem de Chris- 
to f.° de Pedro de Pina Ozorio, e de Luiza Ozorio da Fonseca senhores 
de Caza de Remela ; na&eeo na Cidade da Guarda solar da sua nobre f a- 
milia, foi alumno da Suciedade Pveal de Londres, faleseo na sua quinta 
chamada de Pambo junto da Cidade da Guarda jaz sepultado na Cappela 
de N. Senhora da Conceicao que edificou junto a sua mesma Quinta; en- 
tre muitas obras que escreveo de varias faculdades, compos na da Muzica 
o seguinte: opusculos pertencentes a Thioria, e pratica da Muzica C 34 ). 

Luciano Xavier dos Santtos natural de Lx." organista da real Cap- 
pela dos Passos da Bemposta ('")■ 

Luis Alvares Pinto natural de Pranambuco homem pardo, exce- 
lente Poeta Portuguez e Latino, m.*° inteligente na Lingua Francesa, e 
Italiana; acompanhava muito bem rabecao, viola, rabeca .veio a Lx." 
aprender contraponto com o selebre Henrique da Silva, tem composto 
infinitas obras com muito aserto princLpalmt.* Ecleziasticas ; compos ulti- 
mate humas exequias a morte do Senhor Rey D. Jose o I a quatro coros, 
e ainda em composicoes profanas tem escrito com muito aserto. 

Luiz Bernardes advogado da Caza da Suplicagao em Lx." foi grande 
theorico compos varias obras em Muzica. 

Luiz de Christo Fr. Religioso Carmelitano Calcado natural de Lx." 
filho de Thomas Dias, e de Sebastiana Gomes, foi m." perito na Arte 
da Muzica, e destrissimo em Tanger orgao, cujo exercicio teve por m. t0 " 
annos na Cathedral da sua Patria; compos entre muitas obras a 4 vozes 
as Paixoes dos 4 Evangelistas faleseo a 7 de Setembro de 1693. 

Luis das Xagas Fr. Religioso da 3. 4 Ordem da Penitencia, na- 
tural de Vila Nova de Portimao em o Reino do Algarve, e depois de aer 
muitos annos Vigario do Coro, e M. e dos Novicos em Lx." foi eleito Mc- 
nistro do Convento de S. Franc.co junto da Cidade de Silvis em o Reyno 
do Algarve, faleseo em o Convento de Lx. 8 a 22 de Dezb. ro de 1640 compos 
muitas obras de Muzica, igualm." suaves q. scientificas. 

Luiz Jose natural da V." de Borba Cappelao da real Cappela de 
Vila Vicosa fez entre outras obras hum Te Deum com instruments. 

Luiz de S.to Antonio Craveiro Fr. Religioso da 3." Ordem da Pe- 
nitencia, natural de Lx." foi excelente organista, compos varias obras 
em Muzica, faleseo no seculo de 700. 

Luiz de S. Caetano Fr. filho de Manoel Martins de Freitas nasceo 
em Felgueiras na Comarca de Guimaraes, profesou o Insitituto Sarafico 
na Provincia de Portugal no Convento de S. Francisco de Guimaraes, 
depois de estudar as sciencias escolasticas, e tea- paitente de Pregador 
exercitar o oficio de Vigario do Coro do Convento de Lx." compos a Mu- 
zica de huma obra intitulada Coroa Sarafica desida de pura, e fragantes 
flores, cuja se imprimio em Lx." na Officina Joaquiniana da Muzica em 
o anno de 1744. 4. 

Luis da Maya Croecer asistio na Freguesia de S. Joao do real 
Convento da S." Cruz de Coimbra, alem de mais obras escreveo huma 



U DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



Arte d« Cantoxao, cuja se imprimio em Coimbra na Officina de Antonio 
Simoes Ferreira no anno de 1741. 4 — ( 13fl ). 

Manoel da Aprezentacao F. Religioso da terseira ordem Francis- 
cana natural de Evora cidade. 

M. el da Asunsao, natural de Lx. 1 Muzico q. foi da Patriarcal. 

Manoel Cardoso Fr. Carmelitano Calgado natural da Vila de Fron- 
teira Provincia Transtagana, filho de Francisco Vaz, e Izabel Cardoza, 
rarissimo Organisba e Contrapontista do seu .tempo, tanto em Portugal, 
quanto em Castela; cujos Monarcas Filipe 2.°, e D. Joao o 4.° estimarao 
sumamente, este Senhor o hia vizitar muitas vezes a sua cela, e quando 
mandou ornar a sua Eiblioteca Muzical com o retrato dos Proffessores 
mais insignes, quis que fosse o primeiro o seu entre as suas composicoes 
que forao muitas; he muito celebre a Missa que por mandado de EIRey 
Filipe 2.° emgenhosamente compos sobre as palavras: Philipus Quartus. 
Levou a Corte de Madrid hum livro de Missus que itinha composto, e 
ofereeido a Magest. E de Filipe o 4.°, de cujo Senhor recebeo hum duna- 
tivo, e lhe ordenou que fizesse o compasso na Cappela real aos seus can- 
tores; deste Autor fazem mencao Nicol Ant." Bib. Hisp. Tom. 1 pag. 236 
col. 2 Manoel Rodrigues Coelho no Prolog, das Flor. da Muzica. Carvalho 
Corog. Portug. Tom. 3. Livr. 2. Trat. 8 cap. 47 Pag. 627. Joao Soares de 
Brito Theatr. Lusit. Litter. Lit. E. n. 26, morreo repentindo o hinno 
Te Deum Laudamus em 1650. 

Manoel Cardoso natural de Lx. a Cappelao da Cappela real de El 
Rey D. Joao o 3.° foi Thezoureiro mor da .Catedral de Leiria, compos 
entre diversas obras a seguinte = Passionarium juxta Capelae Regiae 
Lusitanae Consuetidinem Accentus rationem integre observans Leiriae 
per Antonium de Mariz 1575 foi. 

Manoel Carneiro Fr. natural de Lx. Q filho de Antonio Carneiro, e 
de Anna de Figueiredo, foi muito scientifico na Muzica, e pela destreza 
com q .tocava orgao foi admitido na Religiao Carmelitana no Convento 
Patrio. Compos diversas obras em Muzica a 2 coros. faleseo a 29 de 
Agosto de 1695. 

Manoel Correa Fr. natural de Lx." da Ordem Carmelitana sendo 
Mestre no seu Convento de Madrid passou a exercer este menisterio 
na Cathedral de Saragossa, onde faleseo, entre as suas obras huma das 
mais estimadas foi o Moteto Adjuva nos Deus a 5 vozes ('^). 

Manoel Correia natural de Lx. a Cappelao na Cathedral de Seviiha, 
foi insigne na Arte da Muzica, compos huma Salve Regina a 4 vozes, e 
outras obras mais a 6 vozes ( 13S ). 

Manoel Correia, Racioneiro em Seviiha natural de Lx. a onde pelos 
annos de 1630 teve pela sua vasta sciencia as maiores estimacoes; com- 
pos, e emprimio obras excelentes em Muzica ( 13U ). 

Manoel Dias natural da Cid.e de Elvas Mestre da Cappela da Se da 
mesma; compos huma Arte, e varias obras da Quaresma em Muzica ("°). 

Manoel Dias da Resurreisdo, Mestre Geral das Capelas de todas 
as Igrejas da Cid." da Hha de S. Tome, e natural da mesma Cid. e compoz 
varias obras em Muzica com muita sufisiencia, fez muito bem os versos 
Latinos, Portugueses e castelhanos. 

Manoel Fernandes natural da Cid.* de Funxal capital da Ilha Ter- 
ceira, e conigo da Se da d." Cid. E ('"). 

Manoel Francisco Velozo, organista, q foi da Se de Lx.* Compos 
algumas obras em Muzica, faleseu no seculo de 700. 

Manoel de Jesus e Nascimento, Presbitero do abito de S. Pedro, 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



35 



cura de huma das freguesias da Cid.« da Ilha de S. Tome, e natural da 
mesma Cid. E tern composto algumas obras em Muzica com m. to acerto he 
doutona predicadeq uza muitas vezes. 

Manoel Leittio de Avilis natural da Cid.< de Portalegre da Provm- 
cia Transtagana, foi Mestre da Cappela Real de Granada, onde faleseo 
forao muito estimadas as suas Missas, que compos, huma a 8 vozes, e 
outra a 12 (»«). 

Manoel Lopes Cardoso Presbitero secular natural de Elvas, foi 
Mestre da Cappela, e de ceremonias na Se da mesma Cid. e compos muitas 
obras em Muzica ('"). 

Manoel Machado natural de Lx. 8 Escrivao das Terras da Raynna, 
foi muzico da Cappela de El Rey de Castela, entre as suas muitas obras 
q compos tiverao mais estimacao as seguintes — Cogitavit Dommus La- 
mentacao da 5." f." maior a 4. Salve Regina a 8 vozes ('"). 

'P.' Manoel Mendes Leu Muzica em a Cid. e de Evora foi Mestre 
da Cathedral de Portoal-egre donde era natural, imprimio huma Arte desta 
faculd. e , era chamado por antenomazia o Principe da Muzica, e quando 
foi Arcebispo de Evora o Serenissimo Cardeal D. Henrique teve este Au- 
■tor aula publica de Muzica tendo por discipulos a Manoel Rabelo, Duarte 
Lobo, Simao dos Anjos, Francisco Mendes de Gouveia e Filipe de Maga- 
lhaes, compos Missas a 4 e 5 vozes, Magnificas a 4 e 5 vozes, faleseo na 
sua Patria no ano de 1605 dele fazem mencao o P.e Fonseca, Evor. Glo- 
rioz. p. 413, e M.el de Faria e Sousa na 2 Part, da Fuent. de Aganip.; 

Estanc. 71 <" ). ^ J 

Manoel Olanda, Presbitero, natural de Evora Cidade, compos al- 
gumas obras em Muzica, faleseu no seculo de 700. 

Manoel Pouzdo Fr. natural do Landroal da Provincia Transtaga- 
na, f.° de Lourenco Riz, e de Brites Friz, Religioso Graciano, foi Vizi- 
tador da sua Provincia; faleseo em Lx. a a 17 de Junho de 1683 entre 
diversaa obras que compos entrao as seguintes = Liber Passionum et 
corum quae a Dominica Palmarum usque ad Sabbatum Sanctum Canfari 
solent. Lugduni apud Petrum Guillimin foi. Missa de defuntos a 8 vozes, 
mereseo grandes estimacoes do Serenissimo Monarca D. Joao o 4.° ("°). 

Manoel da Porifieagdo natural da Cidade do Porto onde estudou 
Gramatica com o insigne Mestre Joao Nunes Freire, e Muzica com Izidoro 
Alvares deixando o seculo se recolheo a Congregacao do Evangelista pela 
profunda sciencia da Sagrada Theologia foi Laureado na Universidade de 
Coimbra com as insignias Douturaes, compos algumas obras em Muzica, 
foi Reitor do Convento da Feira, faleseo no anno de 1694 dele faz mencao 
o P.e Francisco de S. M.° Ant.° Caetano de Souza Ap. paral. a Hist. Gen. 
da Caz. Real Portug. pag. 65 e 49. 

Manoel Rabelo natural da Vila de Aviz da Provincia Transtagana, 
foi peretissimo em Muzica, e Mestre dela na Cid.* de Evora, compos bas- 
tantes obras, onde se achao as seguintes = Parce mihi a 6 vozes, 4 Mi- 
zereres a 3 coros, Missa a 12 vozes, deste Autor faz mencao Manoel de 
Faria e Sousa Fuent. de Aganip. Part 2 Poem. 10 Estanc. 72 

Manoel Rodrigues Coelho da Cidade de Elvas, foi insigne Proffes- 
sor de Muzica, e destrissimo tangedor de muitos instrumentos, cujos exer- 
citou nas Cathedraes da sua Patria, foi Cappelao da real Cappela, onde 
pelo expaco de 20 a. tocou Arpa e orgao, entre mais obras escreveo hum 
Livro intitulado: Flores de Muzica para o instrumento de tecla, e Arpa 
impresso no anno de 1620 na Officina de Pedro Crasbeek ( ,iS ). 

Manoel dos Santos Fr. natural de Lx.» filho de Antonio Ferr.% e 



» 



DKIONARIO BIOGRAFICO DE M0S1C0S PORTUGUESES 



Maria da Silva, da religiao de S. Paulo 1.° Eremita no Convento da sua 
Patria, foi compozitor da Cappela real, de que .tinha cada anno 600 mil 
reis, nao foi menos famoso organista, entre muitos e excelentes obras que 
fez sao de maior estimacao o Mizerere a 3 coros, hum Te Deum a 3 coros 
feito para se cantar na Cappela real no anno de 1708 quando foi recebida 
a Seremssima Raynha D. Mariana de Austria, faleseo em 1737 ("=) 

Manoel Soares Presbitero secular do Abito de S. Pedro natural de 
Lx." Cultivou profundamt.' a Arte da Muzica Compos Salmos a 4, e mais 
vozea para todas as festas da Igreja e outras obras muito profundas, e 
de merecimento, e na Arte da Muzica era eminente em ser especulativo 
nao se quiz acabar de ordenar por escrupulos, faleseo no seculo de 700 ( 15 °) 

Manoel Soares Per.' natural da Vila de Caminha na Provincia de 
Entre Douro, e Minho, filho de Joao Soares Per.% e de D Dom * s Lou- 
renca Rebelo, foi Mestre da Cappela Ducal de V." Vicosa, e depois da 
Cappela Real do Serenissimo REY D. Joao 4.° entre as muitas obras que 
fez se incluem as seguintes = Missa a 12 vozes, Te Deum a 12 vozes 

Manoel Tavares natural da Cid. c de Portalegre em a Provincia 
Transtagana, foi chantre da Cappela Real de Mursia, e Cuenca onde 
morreu, entre muitas obras, compos as seguintes = Moteto a N Snr- 
Vem m hortum meum a 8, Dixit, Dominus a 14, Beatus vir a 12 Lauda 
Jerusalem a 12 (■"). 

Marcelino Religioso Trino (" 3 >. 

Marcos AnM de Portugal, nasceu em Lisboa ('"). 

Marcos Soares Pr.ra p.e natural da Vila de Caminha Provincia de 
Entre Douro e Mmho, famoso Proffesor de Muzica: Irmao do famoso 
Joao boares Rebelo, foi eminente na sciencia da Muzica, foi Mestre da Ca- 
^1%°^ t de VlIa Vi ? osa - e de P° is Mestre da Capella real do Serenissimo 
H&Y D. Joao o 4.°, entre muitas obras que compos compos hum Te Deum 
a 12 vozes, e Missa a 12 vozes, e as Licdes do Officio de Defuntos a 8 e 
16 vozes ( 155 ). 

Maria de Castro D. nao so foi peritiasima em a Arte de Muzica 
em que compos, mas tambem em Filosofia, e Theologia, dela faz mencao 
Iheatro Heromo, torn. 2 pag. 275. 

Martinho de S." Monica Fr. natural de fivora f.° de Manoel Miz 
e Ursula Riz relegioso Agostiniano, foi M. p da Cappela do seu Convento 
de Lx. a ; e dos Novicos, Compos em Muzica diversas obras, faleseo no 
seculo de 600. 

Marwnna de Abreu natural da vila de Abrantes do Bispada da 
Guarda nao so foi sabia em Muzica em que compos, mas na lingua La- 
tina, e Filosofia, daa suaa obras faz mencao o Theatro Heroino, torn 2 
pag. 282 ( ,5 °). ' 

Marteniano. 

Matkias de Sousa Vila Lobos natural da Cid.' de Elvas, e Bacha- 
rel na faculd.' de Dereito Cesario pela Universid.' de Coimbra eM'da 
Cappela da Cathedral da sua Patria, compos huma Arte de Cantoehao 
impresa em Coimbra por Manoel Riz de Aim.'* -no anno de 1688, tinha ' 
pronto p." dar a imprecao hum livro de preceitos de Muzica, e regras de 
contraponto ("*). 

Miquel de Azevedo F. Religioso Carmelita Calsado, natural da Ci- 
dade de Evora, foi Provinsial. 

Miguel Leal Fr. natural de Lx." Monge de S. Bernardo, entre as 
obras que compos, he de maior credito a Missa a 9 coros com varios ins- 
trumentos, foi Prior em o Convento de N. Senhora do Desterro de Lx » 



D1CI0NARI0 BIOGRAFICO DE MC'SICOS PORTUGUESES 



37 



teve iguaLm." grande .talento para a sciencia severa, que para o Pul- 
pito ( lsa ). 

Miguel da Nativid.e F. natural da villa de Ovidos do Patriarcado 
de Lx.» Monge de S. Bernardo, foi cantor mor de Alcobaca, e Mestre da 
Capella, compos muitas obras, sendo de maior estimacao 28 salmos das 
Vesperas Cistercienses ( 1SSI ). 

Nicolao Dias Velasco, Muzico da Camara de ElBey Catholico Fe- 
lipe 4; e de seu Irmao Gardeal Alberto; compos huma obra intitulada 
Nuevo Modo de cifra para -taner la guitarra, impressa em Napoles por 
Egidio Longo 1GW U. foi destrissima tangedor de viola. 

Nicolao da Fonceca natural de Lx. a foi Mestre da Cappola da sua 
Patria, e Conigo de 4. 1 Prebenda, entre muitas obras que compos teve 
muito merecimento a Missa a 16 vozes ( ,H0 ). 

Nicolao Ribeiro Pago Vedro. Presbitero do abito de S. Pedro foi 
mestre do real Seminario de Muzica da Patriarcal de Lx. a , escreveo va- 
rias obras em Muzica, he natural da Vila Alenquer, e hoje he Benefi- 
ciado ( 181 ). 

Nicolao Tavares natural da Cid.' de Portalegre da Provincia Trans- 
tagana; foi Mestre das Cathedraes de Cadiz, e Cuenca, onde faleseo n 
id. e de 23 a., deixou compostas varias obras Muzicaes (">' s ). 

Nuno da Conceigdo Fr. natural de Lx. a filho de Joao Soares Car- 
dozo, e Francisca Coutinha; Belegioso Trino, foi Lente de Muzica em 
a Universidade de Coimbra, tomando posse a 22 de O.bro de 1691 Com- 
pos salmos, Hinos e Motetes a diversas vozes, faleseo no Colegio de Coim- 
bra a 8 de Fevereiro de 1737. 

Nuno da Cunha natural de Pernambuco, onde era julgado o milhor 
Compozitor que ate o prezente tiverao compunha a U e a 8 vozes sem 
fazer partitura, contao os seus nacionaes, que de prepozito os sens ini- 
migos lhe perderao huma voz de huma Missa, e e!e escreveo estanta- 
niam. le as outras vozes, e a olho lancou a que lhe tinhao perdido. 

Pedro Alvares Moura natural de Lx. a , Conigo de meia Prebenda 
na Cathedral de Lamego, e depois de Coimbra, foi insigne Proffessor de 
Muzica, teve em Roma grandes estimacoes e fa imprimio a obra seguinte : 

Livro de Motetos a U, 5, 6 e 7 vozes. Romse apud Niculaum Mutium 
159U A es-te Autor em Roma foi muito estimado pelo Eminentissimo Car- 
deal Ascanio Colona floreseo no seculo de 500 ( ,a3 >. 

Pedro Antonio Avondano Proffeso na Ordem de Christo natural 
de Lx.' foi rabeca da Camara de Sua Magest.% foi excelente Compozitor, 
a sua Muzica tinha grande armonia, e muita nuvid.% compos Salmos, 
Missas, e hum Te Deum muita Sonata instrumental, e muita tocata de 
Cravo, tambem compos a Muzica de huma Opera Buriesca que se executou 
em Salvaterra na presenca do Serenissimo Snr. D. Jose 1." Cuja opera 
se intitulava II Mundo del la Luna, que teve excelente aceitacao faleseo 
no seculo presente 

Pedro da Conceigdo Fr. natural de Lx." Relegioso Trino, foi na 
Arte da Pouzia, e da Muzica insigne, entre varias obras suas, tiverao 
mais estimagao as seguintes = Muzica a U coros para huma Comedia 
que se reprezentou no Paco em aplauzo da vtnda da Serenissima Rayinha 
D. Maria Anna de Haustria. Vilhancicos a 3, a U, e a 8 para o Convento 
de Odivellas, faleseo na hid.e de 21 annos a 4 de Janeiro de 1712. 

Pedro Esteves F. Religioso da 3.* ordem Franciscana natural da 
Cid. c Evora. 

Pedro Fernandes q julgamos ser natural da Cid,* de Beja pro- 



38 



DICIONARIO BIOGEAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



vincia Transtagana floreseo no seculo de 500 foi M. ( da Se de Sevilha 
as suas obras se impremirao em Veneza no anno de 1588 (""). 

Pedro da Fonseca Lucio natural da vila de Campo mayor em a 
Provincia Transtagana, foi Mestre de Muzica na Cappela Ducal de Vila 
Vicosa em 164-0 compos diversas obras em Muzica, faleseo no seculo 
de 600 ( iaa ). 

Pedro Guerreiro natural da Cid. e de Beja provincia Transtagana 
na idade de 18 anos era ja tao consumado em Muzica q foi ocupar o mes- 
trado da Capela da Se de Jaen, e depois exerseo o mesmo lugar na se de 
Malaga, levando a primazia a m. tos opozitores, foi do seculo de 500 Com- 
pos muita obra em Muzica ( 16T ). 

Pedro Pimentel natural de Lx. 1 destrissimo organista cujo menis- 
terio exercitou por muitas annos na Cathedral da sua Patria, Compos 
huma obra intitulada Livro de Cifra de varias obras para se tangerem 
no orgao, cuja obra afirma q se imprimio Joao Franco Barr.'° na Bib. 
Portug. M. S. em 4. faleseo no anno .de 1599. 

Pedro do Porto natural da Cid. e q itomou por apelido, foi Mestre 
de Muzica na Cathedral de Sevilha, e da Cappela dos REYS Catholicos, foi 
muito estimado de El Rey D. Joao o 3° entre as suas obras Muzicaes teve 
a primazia o Moteto que comesava clamabat autem Jesus, a esta obra 
chama o Princepi dos Motetos Joao Barros nas antiguidades de Entre 
Douro, e Minho cap. 7 asestio na 'Cidade de Evora quando nela estava 
a corte ( 16S ). 

Pedro Sanches de Paredes filho de Salvador Sanches de Paredes, 
natural da Vila de Ovidos do Patriarcado de Lx. a onde foi Benefieiado 
formado na faculd.* dos Sagrados Canones, foi insigne humanista, e Egre- 
gio Compozitor de Solfa compos Arte de Gramatica para em breve se 
saber latim Composta em linguagem, e versso Portugues. Impressa em 
Lx. a por Vicente Alvares no anno de 1610 Compos em Muzica Lamenta- 
coes da Semana Santa de varias vozes, e Vilancicos p. a a noite de Natal, 
faleseo em a q. ,a de Pedro Sanxes Farinha seu Primo situada junto do 
Convento de N. Sr. a da Luz no termo de Lx. B 13 de Abril de 1635. 

Pedro Talezio Presbitero insigne Proffesor de Muzica, cuja fa- 
culd.* ensinou na Universidade de Coimbra onde ocupou a Cad. ra de Mes- 
tre em 1613, tendo ja sido M. c da Cathedral da Guarda foi o primeiro que 
ordenou neste reino Muzica de Coros, e canto chao, ele foi o que insti- 
tuio a Irmand. 6 dos Muzicos em obzequio de S. ,a Cesilia sua Protectora, 
publieou huma Arte de Canto chao com huma breve instrucao p." os Sa- 
cerdotes, Diaconos, e Subdiaconos, e mossos do coro conforme o uzo Ro- 
mano, cuja Arte se imprimio 2 vezes em Coimbra, huma no anno de 1617, 
e outra no anno de 1628, tinha pronto huma Arte de Canto de orgao, a 
qual se nao imprimio por nao ter a impregao de Coimbra, Caracteres 
Muzicos ( 16B ). 

Pedro Vaz Rego nasceo na Vila de Campo Maior da Provincia 
Transtagana, filho de Manoel Vaz Rego, e Brites Lopes, foi Mestre de 
Muzica da Cathedral de Elvas ,e ao depois foi Reitor do Seminario, e Mes- 
tre da Cappela da Claustra de Evora, em cuja Cathedral foi Baxarel fez 
nobremente todo o genero de Verssos Portugueses, e castelhanos, ascre- 
veo muitas obras em Pouzia, humas impressas em Evora na officina da 
Universid.* em os annos de 1690 1705, e outras em Lx.' na Offecina da 
Muzica em 1729, e 1730 Compos em Muzica Missas a U coros, Salmos, 
a U coros, e muitas obras mais, cujas se conservao no cartorio da Muzica 
da Cathedral de Evora, faleseo em Evora a 8 de Abril de 1736 quando 



DICIONARIO BI0GRAF1C0 DE MOSICOS PORTUGUESES 



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contava 66 annos de hid.' Jaz sepultado no Convento da Cartuxa situado 
fora desta Cid.' S. Rei D. Joao 5 q. ao foi a Evom o vizitou o q muitas 
pesoas antigas me certificarao ( ,7Q ). 

Peixoto da Pena natural de Tras os Montes Compozitor, e o maia 
famoso e perita instrument ista do seu seculo em Castela na prezenca do 
Emparador Carlos 5° se admirou de que os sens Muzicos para tocar gas- 
tassem m.to tempo em temperar os instrum.tos e por zombaria Ihe derao 
huma viola destemperada na qual regulou por ,tal forma os dedos que 
sobe produzir comsunancias susesivas por largo espaco, suspendendo do- 
cem.te e ademirando os ouvintes ( 171 )- 

Placido da Silveira do lugar de Casilhas do Patriarcado de Lx. a 
filho de Eento da Silv. ra , e Simoa de iMoraes, profesou o institute da Or- 
dem militar de christo no real Convento de Tama*-, foi m. t0 pirito no 
Contraponto, e nas Serimonias Eclesiziasticas, compos Processionale ex 
Missale, ac Breviario Romano a S. Pio reformatis deeerptum. Conim- 
brkae ex Regali Artium Colegio 1721. 4. Compos maia Psalmos, Himnos, 
e Motetos a diverssas vozes, faleseo a 8 de M.io de 1736. 

Placido de Souza Monge Beneditino Irmao do Marques das Mi- 
nas ( 172 ). 

Policarpo ( m ). 

Rodrigo Ant." foi o mais abil tangedor de viola q ate ao .presente 
ove em Lx. a Compos m. to Minuete, e tocatas p. a o dito Instrumento morreu 
nos Reinos estrangeiros, onde teve g. a " aplauzos. Muzico Instrumentista 
da Camara de S. Mag. de e Cavalei.ro Fidalgo da Caza Real cujo foro Ihe 
foi consedido no Ano 1.722. 

Romao Mazza nasceo em Lx. a filho de Joao Thomas Mazza, e de 
D. Maria Catherina Iudice descendente de huma I lustre familia Floren- 
tina ( 17i ) foi mandado por Ordem da Serenissima Senhora Rainha D." Ma- 
riana de Austria ('") estudar a hum dos Colegios de Napoles, e recomen- 
dado ao Cardeal Otobonio, ja na hid.e de U annos seu Mestre que foi hum 
dos famosos Descipolos do grande octavio Pintone, q nao Ihe achava nada 
que Ihe immendar a respeito de Contraponto, tambem estudou as mais 
Seiencias, todos os grandes Proffesores que viao as suas obras, ou o ouviao 
falar deziao que se acazo se perdesse o Contraponto, nele se achava, foi 
o Proffesor que teve mais avultada Livraria, nao so da sua faculd. c , po- 
rem ahinda de humanid.'S Caetano Maria Schiare Compozitor que foi 
do Serenissimo Infante D. M. f! contava que mandandose-lhe de Italia 
huma grande duvida em Contraponto, so elle lha decedira: Quando a 
Na?ao Ingleza festijou a perda que teve o Pertendente, fez huma Sonata 
por destribuicao tao expecial, e nova, q athe os mesmos rabe?6es gran- 
des, que erao 4 cada hum dezia sua coiza diferente: Compos huma Salve 
regina a U vozes com rabecas no torn de C sol fau S" 1 menor que he bem 
digna de se imprimir pela grande estimacao que meresse a todos os Prof- 
fessores, e Curiosos, compos .bastantes Consertos de Rabeca a 5, e a 6 
instrura.**", compos responsorios, Salmos, Misas, e huma excelente obra 
que nao chegou a aeabar, por q a morte Iho embarasou, sendo esta as 
regras de acompanhar no cravo, a qua! ahinda hoje he muito estimada, 
e procurada ninguem no seu tempo tocou mais deficuld." na rabeca: Tra- 
balhava em descubrir o moto Contino: trnha o foro de Cavaleiro Fidalgo 
da Caza Real, estava para por o Ablto de Christo, cuja merce tinha feito 
a seu Pay o Snr. REY D. Joao 5° a quern seu Pay pedio a renuncia; fa- 
leseo no anno de 1747 de 28 annos de hid.' . 

Sebastiao da Costa natural do Lugar de Azeitao do Patriarcado de 



«0 



DtCIONARlO B10GRAFIC0 DE MOSICOS PORTUGUESES 



Lx.», Cavaleiro Proffesso na Ordem de Christo, Escrivao das Cozinhas 
reais e M.* da Cappela do Sermissimo D. Afonso 6, e D Pedro 2 entre 
m.tas obras compos salmos de Completas a 8 vozes, e Missas a vozes 
Ligoes a U e a 8 vozes, e Mizereres a 8 vozes, faleseo em Lx* a 9 de Agos- 
to de 1696 jaz sepultado no Conv. to do Carmo. 

Simao dos Anjos falta este autor floreseu em 600 e foi disciDolo- 
do P.e M.el Mendes (" s ). 

Simao de Carvalho Mestre da Cappela da Se de Lx. a alem de va- 
rias obras que compos em Muzica compos huma Missa que foi muito es- 
^> timada, faleseo no Seculo de 700. 

X/ Simao da Cunka Ribeira este sabio autor vivia em Espanha no 

seculo de 500 nao so foi siente nas compozicoens da Solfa, mas tambem 
em fazer exselentes versos em latim, castelhano e portugues, foi um dos 
q sensurou o Livro q empremio o Baxarel Tapia Numantino no dito se- 
culo cujo livro esta empreso em Espanha ( 17T ). 

Simedo da S.ta Quteria F. Religioso da 3 Ordem da pinitensia, q 
julgamos ser da Beira, compos diversas obras em Muzica faleseo no pre- 
sente seculo. 

Teodoro Fernandes Moreno natural da Cid. s da Bahia muito douto- 
em Contraponto, tern escrito bastantes obras em Muzica com aserto. 

Thomas Pereira P." da Companhia de Jesus natural de S. Marti- 
nho do Vale termo da V. a de Barsselos na Provincia de Entre Douro e 
Mraho, filho de Dom.°* da Costa Per. 3 , e Fran. ta Ant. a , compos em Mu- 
zica a obra seguinte — Muzica Pratica e Especulativa ( 1!S ). 
n i Tristao da S. a Proffesor insigne de Muzica, e Mestre que foi de 

El Rey D. Affonso 5* por ordem do mesmo Snr, compos Amabies de Mu- 
zica o original se conserva na Biblioteca Real. He alegada esta obra por 
Fran.co Velez de Guevara Cavaleiro Fidalgo da Caza de EIRey no seu 
livro intitulado De la realidad, y experiencia de la Muzica 

Valariano Fr. Relegiozo de S. Paulo prim.ro Eremita. 

Vicente Freire de Faria natural de Lx. a 

Vicente Ignacio natural da V. a de Setubal tocava muito bem Ra- 
beca, e compos varias obras de Muzica, faleseo no seculo de 700. 

Vicente Lusitano natural da V. a de Olivenga na Provincia Trans- 
tagana Presbitero do Abito de S. Pedro insigne Proffesor de Muzica a 
qual ensinou em Italia nas Cid. es de Padua, e Viterbo compos em a Lingua 
Italiana a obra intitulada Introducao Felessicima de Canto chao, canto 
figurado, contraponto simples, e consertado com regras geraes p. a fazer 
fugas a 2, 3, U e mais vozes, cuja obra se imprimio em Veneza no anno 
de 1561 em quarto grande na officina de Francisco Rappazeto, e ao de- 
pots foi traduzida em Portugues pelo Conigo Bernardo da Fonseca em o 
anno de 1603, e a deo ao chantre de Evora Manoel Severim de Faria ( 180 ). 

Vicente Raymundo natural de V. Vicosa M. e da Cappela em a Se 
de Olivenca, compos hum Stabat Mater em Muzica, e huma Missa. 

Victorino. 

Victorino Jose da Costa natural de Lx. a Monge de S. Bento, com 
o nome de Fr. Victorino de S. Gertrudes, foi m. to perito na Gramatica 
Latina, Pouzia vulgar, Muzica, Matematka, Astrologia, Historia Ecle- 
ziastica, e secular, em todas estas sciencias escreveo, e imprimio obras 
como se pode ver na Bibl. Luzitana Tom. 3 foi. 789 e 791 ( ,ai ). 

Victorino Jose de Paiva, Presb. do abito de S. Pedro natural 
de Evora. 



NOTAS 



(') *Foy perito nas Ceremonias Ecclesiasticas, e. destrissimo na Cantoria do 
Choro emendando muitas vezes algum erro, que ou por descuido, ou ignorancia 
se cometia.> 

E mais adiante: <Como foy muito perito na Arte da Musica compoz hum HvTO 
de Missas para Be imprimir, e outras exeelentes obra3 desta profiss§o.» 

f: tudo quanto diz da ciencia musical de D. Agostinho de Castro o Abade de 
Sever, Diogo Barbosa Machado, na sua monumental obra: Bibliotheca Luaitano, 
pag. G3, T. I. 

Nao m; consta que exista qyalquer composicao deste Autor pela qual se 
aferisse o seu merecimento e o livrp, a que se refere Barbosa Machado, nao deve ter 
tido as honras da impressao e por via disso e que, naturalmente, nem Ernesto Vieira 
nem Joaquim de Vasconcelos incluiram o Arcebispo Primaz em suas obras. 

-- (') A proposito deste autor nao encontrei nenhuma noticia. Trata-se, certa- 
mente, de pessoa contemporanea de Jose Mazza (conhecidos pessoais talvez), que 
este lancava no seu projectado Dicionario para mais tarde lhe fazer a biografia e, 
6 isto tao crivel que, propositadamente, deixava ficar om espaco em branco, o qual 
por vicissitudes da vida nunca chegou a preencher, se e que a morte o nao levou 
antes disso. 

< 3 ) Mazza deve ter lido mal, pois a profissao religiosa deste autor fez-se no 
dia 14 de Fevereiro de 1682. (Cf. DicionArie Biogrdfiea dos Jfiisicos Portugueses, de 
Ernesto Vieira, pag. 391, 2.° vol.). 

( 4 ) Em 1723 andou por Paris, Alcala e Valhadolide. Em 1747, data em que se 
publicou a Bibliotheca Lusitana do Abade de S. Adriao de Sever, ainda vivia este 
autor. (Cf. ob. tit., pag. 301, 2.° vol.). 

(a) Deve tratar-se de Alberto Jose Gomes da Silva. Antes do terramoto ja era 
irmSo da irmandade de S. Cecilia « assinou o compromisso em 1764. Em 1779 era 
mordomo; parece ter falecidp em 1795. 

Foi autor de umas Regras de acompanhar j>ara cravo f ou 6rg&a (obra muito 
fraca), publicadas em 1768 e dedicadas a el-Rei D. Jose. 

Deste autor era uma opera em tres aetos que se cantou no teatro da Rua 
dos Condes, em 1775 e cujo papel principal foi desempenhado pela celebre Zamperini. 
Intitulava-se a opera: II Geloso, 

Destinada para figura central da opera era a famosa Luiea Todi, maa por 
qualquer circunstancia nao quis aceitar o encargo. *Em 29 de Janeiro de 1775 entre- 
gou (o Todi) a pt. e da opera do m." Alberto, e nao quis reprezentar mais e em 27 do 
d." nao quis hir ao Ensayo.> 

(Cf. Luisa de Aguiar Todi, por Mario de Sampayo Ribeiro, pag. 67 e Ernesto 
Vieira, ob. cit., pag. 476 e 297 do 2° vol.). 

(") Alberto da Silva Burgos sucedeu a Luis Lopes Gago no cargo de orga- 
nista de Santa Maria, Matriz de Beja. 

O documento que o nomeia e do teor seguinte: 

«Dom Joao etc. eomo Governador, etc. Faco saber aos que esta minha Carta 
virem que tendo Respeito a estar vaga a occupacao de organista da Igreja de Samta 
Maria matriz da cidade de Beja que he da dita ordem por falecimento de Luis Lopes 
Gago e em Alberto da Silva Burgos concorrerem todos os requizitos necessarios para 
bem fiervir a dita occupacao como constou do seu exame que por meu mandado the 
foi feitp perante o Juiz da ordem da comarca de Moura, e informacao que por elle 
me foi dada Hey por bsm e me praz fazer merce ao dito Alberto da Silva Burgos 
da dita occupacao de organista da referida Igreja e com ell a vencera de ordenado 



42 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



em cada hum anno dous mpyos de trigo pagos na forma costumada e os mais proes 
e precalgos que direitamente lhe pertencerem como tinha e ha via seu antecessor Pello 
que mando ao Prior da dita Igreja e Beneficiados della e mais pessoas a que tocar 
lhe dem posse comp he estillo e cumprao e guardem muito inteiramente esta minha 
carta sendo passada pela chancellaria da ordem. El Eey nosso Senhor o mandou 
pelos Doutores Fr. Miguel Barbosa Carneiro e Francisco Freire da Cruz Deputados 
do despacho da Meza da Consciencia e Ordens. Francisco Ferreira de Araujo a fez em 
Lixboa Occidental a 21 de junho de 1740 annos. Antonio Luiz de Azevedo Coutinho 
a fez escrever. Miguel Barbosa Carneyro. Do.utor Francisco Pereira da Cruz.* (Torre 
do Tombo, Chancellaria da Ordem de Aviz, liv. 31, fol. 279 v. in-Sousa Vite.rbo, 
Subsiding para a Historia da Musica em Portugal, pag. 516.) 

(') Acerca deste autor nalo topei itenhuma noticia. Vide nota n.° 2. 
■ • — < 8 ) Joaquim de Vasconcelos, no 1.* vol., pag. 3, de Os Mu.sic.03 Portugueses, 
afirtna, nao sei por que bulas, que Alexandre de Aguiar faleceu a 12 de Dezembro 
de 1603 e, na sua esteira, segui.u Eugenio Amorim, no seu Piciondria Biogrdjico de 
Musicoa, pag. 5, Edigao Maranus, PSrto, 1941. 

Barbosa Machado (vol. 1.°, pag. 93) da-o como afogado entre Lob6n e Tala- 
vera a 12 de Dezembro mas de 1605. 

Vasconcelos cita Baptista de Castro (in Mappa de Portugal, t. II, pag. 346, 
2.* edicao) que indica a data de 1605. Aquele senhor acusa este de ter copiado da 
Bibliotheca Lusitana (lug. cit.), mas nao diz onde viu a data de. 1603, donde a incer- 
teza em estabelece-la. 

Sousa Viterbo, in Bubsidios para a Hist, da Musica em Portugal, pag. 18, 
vem desfazer este encanto e apresentar prova provada da data em que morreu o ca- 
valeiro fidalgo da Casa Real Alexandre de Aguiar. 

Segue o documentor 

"Dora Amrique etc. aos que esta minha carta virem faco saber que eu fiz 
merce a Alexandre d Aguiar, caualleiro fidalgo de minha casa e meu musico da 
camara, de X r* de tega cada annp ates que sobcedsse na coroa destes Reinos, allem 
dos XX r. 3 que de minha fazenda tinha, segundo se uio psr hua portaria de Aires 
Ferreira, fidalgo de minha casa e escriuao de minha fazenda, feita a X dagosto do 
anno passado de b" Ixxbiij, pella qual nao tern padrao atiegora, e auedo eu a yso 
respeito e por folgar de fazer merce ao dito Alexandre d Aguiar quero que elle benha 
e aja de minha fazenda do primeiro de janeiro do anno que vem b c Lxxx em diate 
X r. 5 de tega em cada huu anno allem dos XX r' que ja de mim tern. Notefficoo assi 
e mando aos vedores de minha fazenda que lhe fa;ato assentar no livro della e do 
dito janeiro do anno que vem despachar em cada huu anno em parte onde lhe sejao 
bem pagos e por quanta os elle avia de comecar a veneer dos ditos X dias dagosto 
do anno passado, em que lhe fiz merce delles em diate e por este padrao os hadauer 
de Janeiro do anno que vem como nelle he declarado, eu lhe mandei dar aluara pera 
Bastia Pirez de Gaui, que serue de men thesoureiro mor lhe pagar XIII E b iij ra 
que lhe montara dos ditos X dias dagosto te fim de dezembro do dito anno passado 
a rezao destes X r" cada anno. E pera firmeza de todo lhe mandei dar esta per mim 
assinada e asellada com meu sello pedete. Antao da Eocha o fez em Lixboa a 
XX dias de junho, anno do nascimento de nosso Senhor Ihuu X." de jb'lxxix. E eu 
Alvaro Pirez o fiz escreuer.* 

A margem deste documento foi escrito o que se segue: 

*S. Magestade fez merce a Alexandre d Aguiar que por sua morte podese 
testar de cinquoenta e cinco mil rs. de tenga dos que tinha e por os nomear em seu 
filho Jeronimo d Aguiar Pachequo mandou risquar este registo por despacho da fa- 
zenda pera se lhes passar delles padram em seu norae por ser fallecido o dito Ale- 
xandre d Aguiar, o que fiz em Lixboa a 2l maio de 600. Luis d Aluarenga.* (Torre 



DICIONARIO B10GRAFIC0 DE MOSICOS PORTUGUESES 43 



do Tombo, Chancelaria de D. Sebastiao e D. Henrique, Doa^oea, liv. 44, fol. 247 in 
ob. e lug. citado.). 

Donde se eonclui que em Maio da 1600 ja Alexandre de Aguiar tinha falecido. 

( B ) Trata-se de Alexandre Delgado Janeiro, que viveu no seculo XVIII. 
v Foi diseipulo do Padre Pedro Vaz Rego, aucessor de Diogo Dias Melgas no 
mestrado da Se de fivora. Foram publicadas ha alguns anos umas cartas deste autor 
dirigidas a Diogo de Mendonsa Corte Real, na revista Hist&ria, l." vol., pag. 399 a 404, 
pelo coronel sr. Henrique de Campos Ferreira de Lima. 

Porque se trata de documentos que espalham muita luz fiobre a e'poca em 
que foram escritos e, sobretudo, porque sao as unicas fontes donde alguma coisa se 
conbece acSrca de Alexandre Delgado Janeiro, para aqui os reproduzo: 



€111.°"' Ex." 1 " Sr. 



<Depois dos para as 8 horas da noute deste dia sexta-feira 12 do cor- 

<rente mez, recebi a carta de V. Ex." e sem axaminar se havia na Capella Real o con- 
«theudo na Carta de V. Ex.' porque tinha certeza de o haver, cuidei logo de ir bus- 
ccar os Responsprios de Estevao Ribeiro Frances diseipulo que foi de meu mestre 
tPedrp Vaz Rego, os qua*s remeto a V. Ex.' sem copialos, por que ha outros que 
«d*ordinariamente cantamos com mais de quatropeada extensao, e podemos ■este anno 
«passar sem estes, ainda que em alguns cantamos tambem alguns do dito Frances, 
«mas nunea todos. Tambem ha nesta Real Capella o Livro dos Hymnos do insigne 
«Philipe Vital Flprentino do qual uzamos quasi todos os dias, e delle farei copiar o 
«hympo da dita festa dos Reis, que ira niuito a tempo; e tambem se copiarao todos 
«oa mais do dito Livro, do modo que V. Ex." me manda insinuar. 
«Deus guards a V. Ex.' por muitos annos 
<Villa Visosa 12 de Dezemb.ro de 1755 

111.""' Ex."" Sr. Diogo de Mendonca Corte Real 
De V. Ex.' 
inutil ere ado 
Alexandre Delgado Janeiro.* 

Livro dos Hinos a que se refere Janeiro nesta primeira carta foi pjiblicado 
em Roma em 1636. 

Este padre Filipe Vitali fora tenor no Colegio dos Cantores Pontificios, para 
onde entrara a 10 de Junho de 1631. Foi autor da muito celebre tFavola in musica* 
L'Aretusa (dedicada ao Cardeal Borghese e representada em casa de Monsenhor 
Octavio Corsini a 8 de Fevereiro de 1620) que e considerada como a primsira ten- 
tativa de opera teatral Ievada a efeito em Roma. (Cf. projfosita de Alguns Do- 
cumentos aobre Alexandre Delgado Janeiro, por Mario de Sampaio Ribeiro, in Ma- 
t6na t vol. II, Serie a) 1935, pag. 7 e seguintes). 



<I11.™' 1 Ex."' Sr. 



<Pelas 10 horas da manhan deste dia 13, estando na hermida de S.'' Luzia, 
«para se entoar a festa da mesma santa com os meus collegiaes porque he obrigacao 
<da Capella, e depois de cantarmos a Padroeyra deste Reyno a sua solemne missa 
cchamada dos sabbados, recebi a carta de V. Ex.* de 11 do corrente. mez em que me 
<manda lhe remeta o hymno que esta Real Capella usa nas vesperas do Natal, o qual 
«vai no Livro que mando por este mesmp Portador a V. Ex.", que certamente he 
<compostura de Vitale, e por este cantamos so o hymno das Matinas que he o mesrao 
•que de vesperas em tudo, e ca dob fica o mesmo Livro dos hymnos de Vitale, por 



44 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



<onde can tare mo s o de vesperas e matinas; e como neste que remeto se achao tam- 
«bem pa hymnos de Laudes, assim do Natal como dos Reys e pelo mesmo cantochao 
cfeitos de que usa esta Capela Real, Patriarchal, Mafra e podera ser que la sejao 
«tambem necessarios, se quizerem uzar da solemnidade que uzamos; porem advirto 
«a V. Ex.* que estes dois hymnos das Laudes nab sao de Vitale, porque no seu livro 
«so se achap os hymnos de vesperas; so se for compostura do mesmo avulsa, ou sera 
cde Manoel Soares, ou de outro mais antiguo. Se S. Mag." quizer que fique la o Livro 
«quc remeto, para ssrvir nas seguintes duas solemnidades eu cuidei em copiar e os 
«meos collegiaes os ditps dous hymnos de la.udes em borrao para ca se porem em 
«melhor forma, e de modo que nao haja falta. No qua respeita ao hymno das ves- 
«peras dos Reys ja dice a V. Ex.* que o remeteria a bom tempo, e entre tanto pode 
wsrtificar V. Ex.* a S. Mag.' que he compostura de Vitale e pelo mesmo cantochio 
«desse hymno das laudes da mesma festa, que he o mesmo cantochao que de vesperas. 
«Gostarei muito que tudo va e seja do agrado da S. Mag.^ e de V. Ex.* que Deus 
*g. e muitos annos. 

«Villa Vicosa, Collegio dos Reys 13 de Dezembro de 1755. 

«Ill. m " Ex.™" Sr. Diogo de Mendonca Corte Real. 

De V. Ex.' 
Inutil creado 
Alexandre Dslgado Janeiro.* 

A terceira carta ja fora publicada por Ernesto Vieira no 2.° vol. do seu 
Dtcxondrio (pag. 447 e seguinte), mas nao deixo de a reproduzir aqui por ser cteia 
de interesse: 

e Ex."' Sr. — Sabbado 7 do corrente mez recebi por um proprio carta 
«de V. Ex.* em que m e recommendava os Impropcrios de 6." feira santa nos quaes fieo 
«uidando como no mais que me tern ordenado. 

tAgora remeto a V. Ex.* huma Missa a 4 de. estante em vozes separadas de 
<Duarte Lobo e que se intitula - Hie est vere Martyr. Tambem remeto seis hym- 
*nos; o 1.* he das vesperas de Sabbado, posto que ja remeti outro porem este podera 
«servir nos seguintes dois sabbados -sm que se reza da Conceicao, e por isso se deve 
•cantar por differente canto e com mudanca do ultimo verso do modo que vae, e o 
<outrp pode servir como v. g. amanha, e em outros sabbados em qua nao se reza da 
«Conceicao e que se dividem as vesperas com algum semiduplex. O 2. D nas chagas 
cde Christo na 1/ sexta f;ira da Quaresma. O 3." he de S. Gabriel a 18 de Marco. 
«0 4." de S. Joseph. O 5." para as ditas da Paixao e Ramos. O 6." para a festa das 
«Dores, e ficao completados os hymnos da Quaresma se nap me engano. 

«Como nesta Real Capella ha boas solfas de Semana Santa, porque escolhi- 
«das dos melhores auctores, fiz o incluso Index de todas para que' Sua Magestade 
tppssa escolh;r o que lhe parecer melhor, ou mandar ao Director da musica o fassa 
«do que he preciso, e no mesmo Index, ou a parte se pode notar o que se deve. copiar 
*para se ir pondo prompto, porque os copistas alem 6s sere.m muito occupados no 
«coro, nao teem muito exercicio destas copias. 

<Como V. Ex.' me tinha mandado falar em missas de Affonso Lobo e em um 
divro de Semana Santa esta uma que vaa no Index, ja a mando copiar. Deus G. e a 

«V. Ex." por muitos annos. Villa Vicosa 13 de Fevereiro de 1756. D. V. inutil 

«reado, Alexandre Delgado Janeyro. — HI.— e Ex."- Sr. Diogo de Mendonca 
cCorte Real.> 

Existe ainda uma quarta carta, que. e do teor seguinte: 

«I11.-* e Ex."* Sr. — Recebi neste correio duas cartas de V. Ex.", em hua 
<vinha hu eredito de quatro contos duzentos e outenta mil reis para pagamento dos 
cHinistros, Fabrica e Serventes desta Real Capella ate o ultimo de Dezembro 
tde 1755, por cujo cuidado e lembranca todos os interessadoe bejam reverentemente 



DICIONAMO B10GRAF1C0 DE MOSICOS PORTUGUESES 45 



«as maos de V. Ex.", e cuido em avisar ao Administrador dos Tabacos de Eatremoz 
tpara que ponha a dita quantia prompta, porque tern oa Miniatros della necessidade. 

«Em outra recebi o extracto das Solfas necessarias, tiradas do Catalogo que 
<mandei, pertencente s6 a Semana Santa, e pelo meu cuidado fica dar satisfacao 
«de tudo notado e pedido. Agora remetto a V. Ex.* 5 .Magnificas de Aguilar, que 
<com 3 que ja mandei deste A. se completa o jogo inteiro, para as haver de todoa 
«os tons. Vae tambem hua Missa a 4 vozes de Affonso Lobo de Borja, que se intitula 
< — Simile eat regnum coellorum — e eata he a unica que ca ha deste A. e ja he das 
«que vem notadas no extracto que agora reeebi. No mesmo se diz ha falta de Mote- 
«tes para 4." e 6.'" feiraa da Quaresma; eu ja tinha remettido os que ca havia da 
«Quaresma, excepto os da Semana Santa, e que nao havia mais do que para as 
«Domingas e para 4." feiraa, que tudo foi, porem como no mesmo extracto se diz, 
<que se nao oa houver, se componhao e se remetao logo, e vejo ha de servir o primeiro 
tna primeira 6.' feira, e nao vae a tempo no seguinte correio, nem o Mestre da 
t-Capella, ou outro dos compozitores desta Villa, o poderia compor hoje, eu me resolvi 
tfaze^lo, e o remeto a V. Ex.', e quando nao agrade, ao menos com elle se pode 
«suprir a falta deste anno, que, pola nao a haver, quiz hoje ter mais este pequeno 
etrabalho, e porque dezejo empregar-me no servico de S. Mag.' com todas as fonjas 
te prendas taes e quaes ellas sao. Todos quanto3 aabem da resolucao de S. Mag. u 
<sobre a seguranca do dinheiro da Fabrica e cera, a eatimao muito, e a minha 
ccomunidade e eu maia que todos, pela amor que tenho a esta Igreja, que me parece 
the minha, e da parte della dou os agradecimentos a V. Ex.* e bejo prostradamente 
«as maoa de S. Mag.'. Eu ja mandei dar aviso ao novo Thesoureiro, porem ainda 
«nao lhe falei depois da ordem, maa julgo, segundo me dizem, nao estara muito 
«contente, se assim for nao quer o que he justo, porque em dinheiros alheyos deve 
«haver toda a seguranca e cautella, e isto meamo ha de querer oa que delles 3e 
*encarregao para maior credito das propria3 pessoas. Tambem farei se execute tudo 
<o mais que V. Ex.* me ordena assim pelo que reapeita a Fabrica como com aa contas 
ido Thesoureiro defunto, que estao promptas e boas. Deus Guarde V. Ex.* muitos 
«annos. Villa Vigosa 27 de Fevereira de 1756 — 111.*° e Ex.° Sr. Diogo de Mendonca 
«Corte Real. De V. Ex.° ■ — Tnutil criado — Alexandre Delgado Janeiro>. 

Desta carta se infere com meridiana clareza que Janeiro nao era o Mestre 
da Capela Real. Seria o Mestre de Miisica do Colegio dos Reis e teria sucedido talvez 
imediatamente ao Padre Inocencio de Sousa Mealha. 

Naa referencias de Delgado Janeiro a uma comunidade, parecei-me tratar-sa 
aimpleamente dos seus colegiais, pois ha comunidade aonde houver vida em comu.-n 
e o colegio dos Reis era por isso mesmo uma comunidade de que ele era o Reitor. 

motete a que ele se refere, o tal que ninguem quisera compor e a que ele 
metera ombros, e uma famosa mentira, mais tarde desmascarada. A composicao que 
ele enviava com tantaa reservas para Lisboa nao era afinal sua, mas de Diogo Diss 
Melgas. 

O texto, inapirado no Capftulo 6.° de S. Mateua, e o da Antifona ad Benedietus 
desse dia, Feria fi.* post cineres. 

Ja foi cantado mais que uma vez por Polyphonia, sendo de extraordinario 
efeito. £ mesmo uma maravilha de tecnica e de inspiracao. 

As cartas eram dirigidas a Diogo de Mendonca C6rte Real, filho do celebre 
miniatro do meamo nome, de D. Joao V, que andava empenhado em repovoar do 
musicas a Capela Real, pois o terramoto tinha feito em cinzas tudo quant© la havia. 
(Cf. Hist&ria, loc. cit, A propd&ito de alguns Doeumentoe sobre Alexandre Delgado 
Janeiro, por Mario de Sampayo Ribeiro). 

( 10 ) Certamente £ o Mestre Alvaro Afonso que foi Mestre de Capela de 
D. Afonso V. «Sei da sua existencia por uma carta de privilegio que este monarca 



46 



DTCIONARIO BlOGRAFICO DE M6S1C0S PORTUGUESES 



passou em favor de Joao Afonso, morador em Estremoz, a pedido de Aluaro A.°, 
mestre da nosa capella por quanto nos disse que cosara com hua ana criada. A carta 
e de 22 de Janeiro de 1452». 

Os documentos veem publicados no opusculo — Cultura intelectual de D. Affwu 
so V, por Soiisa Viterbo. (Cf. Subsidies, etc., pag. 5 e 6 do mesmo autor), 

Barbosa Machado parece, pela maneira como escreve, que viu e examinou 
o precioso manuscrito a que se refere Jose Mazza. Segundo aquele, existia na biblio- 
teca de D. Pedro. A noticia dada pelo Afcade de S. Adrian de Sever vem no 4." 
volume da sua obra, impresso depois do terramoto. Esta circunstancia faz supor 
que o precioso codice musical nao se tivesse perdido na catastrofe, e que talvez 
ainda exista, nao se sabendo onde. 

Segundo Machado, o tftulo do trabalho era: — Vesperae, Matutinum, et 
iMiules cum Antiphonis, et figuris musicis de inclyta, et miraeulosa Victoria in 
Africa parta ad Arzillam, era 1471. 

Nas licoes do oficio relata a historia da Conquista de Arzila e Tanger. £ 
dedicado ao mesmo monarca. 

Ai se nos dao conhecimentos que se nao acham noutros autores «como sao 
aa portas de bronze que D. Afonso V mandou conduzir de Tangere e as colocou 
no Templo de Santo Antonio desta Corte, as quais com indiscreta barharidade foram 
fundidas, como tambem o foi a Estatu.a de prata do mesmo Eey montado a cavalo 
por ordem do Prior do Convento de Nossa Senhora do Espinheiro para augmento 
de um dormitorio, extinguindo-se com injuria da veneravel antiguidade dois padroes 
em que se conservava eterna a gloria daquele Monarca e memoravel Conquista da 
Arzila e Tangere>. (Cf. Barbosa Machado: — Bibliotheca Lusitana — 4." In Sousa 
Viterbo, pag. 5 e 6 de Subsidies, etc.). 

(") Substituiti Antonio Goncalves dos Martires como tangedor de harpa na 
Capela Eeal tendo por «ordenado trinta mil reis e mais 7300 para o moco que lhe 
ha de trazer a harpa*. Alvara de 30 de Setembro de 1677. 

Antonio Goncalves dos Martires, natural de Lx.% filho de Goncalo Goncalves, 
tornado por tangedor de harpa no lugar que vagou por falecimento de Francisco 
d Escobar. Alvara de 16 de Marco de 1660. (In Sousa Viterbo, Subsidios, etc., pag. 
144 e 268). * 

( i: ) Parece nao ter relacao nenhuma com outro Escobar on Eseovar, que se 
chamou Pedro e foi mestre da Catedral de Sevilha em 1507, sucedendo a Francisco 
de la Torre. (Cf. Os Manuscritos Musicals n." 6 e 12 da Biblioteea Geral da Univer- 
sxdade de Coimbra, po r Mario de Sampayo Ribeiro, pag. 86). 

( ls ) Vide nota n.° 2. 

(") Fltia — Biographic univer. des musiciens, Paris, 1866, 2' mE ed., vol. 1, 
pag. 75, julgou que este autor fez a miisica para a obra a que se refere o codice, 
mas nao e verdade, como se depreende das proprias palavras de Jose Mazza. 

Nao deve confundir-se este Antonio de Almeida com outro autor do mesmo 
nome «Capellao-cantor de capella-real em tempo de D. Joao IV, que em 14 de 
Marco de 1650 lhe fez merce de um moio de trigo por anno de acrescentamentoi. 
Eia o texto da merce: «Dom Joao, etc., faco saber aos que esta minha carta de 
padrao virem que tendo respeito a boa satisfacao com que Antonio de Almeida serue 
de capellao-cantor de minha real cappella, hey por bem de lhe fazer merce de hum 
moio de trigo em cada hum anno de acrescentamento... Joao da Costa a fez em 
Lixboa a quatorze de Marco de mil e seis centos e sincoenta annos. Fernao Gomes 
da Gama o fez escrever. El-Rey». (Torre do Tombo, Chancelaria de D. Joao IV, liv. 
21, foi. 240, (in, Subsidios, etc., Sousa Viterbo, pag. 26). 

<") Vide nota n.° 2. 

(") Vide nota n. D 2. - r - 



DIC10NAEIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



47 



<») Faleceu no Convento de Belem a 3 de Marco de 1700. (Cf. BiM. Lurtt., 
vol. I, pag. 218 e 219 e Ernesto Vieira, ob. eit., pag. 100, 1.° vol.). 

( ls ) No ano indkado pelo codke oeorreu a morte do filho de Antonio Carreira, 
que usou o mesmo nome e foi vitimado pela famosa peste, que durou de 1599 a 1603. 
Ernesto Vieira nao quis arriscar uma data, mas Sousa Viterbo encontrou documentos 
que mostram que ele saiu desta vida entre 15 de Julho de 1587 e dia indeterminado 
de 1597. (Cf. Os Mestres da Capela Real nos Reinados de D, Jodo III e D. Sebaatiao, 
pag. 24). 

(">) O nome deste autor presumo que esteja incomplete. Nao sei de quera 
ae trata. Vide nota 2. 

— - (=°) Alem deste Antonio Fernandes, o maior teorico portuguea, disdpulo de 
Ouarte L6bo e provavelmente aluno do Colegio doa Reis Magos da Vila Ducal, exts- 
tiram mais quatro miisicos com o mesmo nome. 

O titulo completo da obra que escreveu o Padre Antonio Fernandes e foi pu- 
blicada no ano de 1626 e o seguinte: Arte de Musica de canto dorgam e canto eham, 
e proporgoes de Musica divididas harmonicamente. Composta por Antonio Fernandez, 
natural de Villa de Souzel, mestre de Musica na igreja de S. Catherina do monte Si- 
nai: Dirigida ao insigne Duarte Lobo Quartandrio e mestre de Musica na S. S4 de 
IAsboa. — Por Pedro Craesbeeck. Impressor del Rey, Ano 1626. 

O exemplar que exiate na Biblioteca Publica de fivora pertenceu a Livraria 
da Congrega;ao do Oratorio de Estremoz. 

Quanto aoa restantes autores do mesmo nome, eis os documentos: 

Antonio Fernandes 1." 

Trombeta do Arcebispo de Braga. D. Joao III lhe cotwedeu licenca em 1531 
para poder andar em mula. 

Antonio Fernandes 2° 

«Nos ho Day am e eabido de See de Lixboa fazemos .saber aoa que esta nosa 
certjdam vjrem e ho conhecimento dela pertencer em cony> Antonio Fernandez tan- 
gedor doa orgaos da djta See tern bem serujdo este segundo quartell que se comecou 
pello primeiro dja de abryll e ae acabou pelio deradeyro dja de junho deata preaente 
era de jb'r. anos e volo notjficamos asy para lhe fazerdes seu pagamento segundo 
ordenanja e este sera asynado pellos nosos hasynadores. Antonio Nunez noso espri- 
uam ho fez per noso mandado oje deradeyro dja de junho era acjma esprita = ho ar- 
cediago da terceira cadeyra — Jeronymo Teixeira. 

sO doutor Jorge Temudo proujsor e visitador jerall neste arcebyspado de Lit- 
boa e pelloa reuerendos senhores dayam e cabjdo da See vagamte a nos Antonio da- 
raujo recebedor da cancelarya do dito arcebyapado saude em Jesus Cristo mando nos 
que do dynheyro que tendes da dyta cancelarya deys e pagueea ha Antonio Fernandez 
tangedor doa orgaos da dita See quatro mjU e qujnhentos reaes que lhe aao dyuydos 
deste aegundo quartell deste presente ano do mes dabryll e mayo e junho e jsto doa 
dezoytos caregos que lhe fareys bom pagamento e como lhos pagardes cobrareys delle 
seu eonhecymento para nos serem leuados em conta — feyta em Lixboa ao primeiro 
dya de julho = Johao Fernandez o fez de quynhentos e quarenta anos*. (Torre do 
Tdmbo, Corpo Cronol6gieo, Parte 2.*, Maco 232, Doc. 70) in Subsstdios, etc., de Sousa 
Viterbo, pag. 199 e eeguintes). 

'• " Antonio Fernandes 3." 

Capel&o-cantor de D, Sebastigo, que, em carta de 1 de Outubro de 1558, lh$ 



49 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCS1C0S PORTUGUESES 



fez mercS de doze mil reaes por ano, por espaco de doia anos, a-fim de poder pro- 
seguir dos seus estudos, (Idem, pag. 200). 

Antonio Fernando 4." 

Na minuta, aem data, de uma carta, dirigida ao bispo de Tytopuli, ordena* 
-se-lhe que meta de novo em posse a Ant6nio Fernandes, no cargo de organists, do 
um mosteiro que se nao designa. 

A carta e talvez do .tempo de D. Manuel ou de D. Joao III, (Idem, pag. 201). 

( 21 ) tPela expulsao dos jesnitas, houve necessidade de adoptar providencias 
acerca das pessoas, que tinham cartas de Irmandade, Confraria, foros e sumarios de 
indulgencias, sitas nas casaa daqueles religiosos, que tao bem sabiam estender a 
rede da devocao. Essas pessoas deviam entregar os papeis que possuiam em certos 
prazos e a certos dezembargadores. Entre eles figura Ant6nio de Figueiredo Ramos, 
. musico da Real Camara, natural de Lisboa, casado, morador na rua dos Calafates, 
freguesia de N. S. da Encarnacao>. (cf. Subsidies, etc., de Sousa Viterbo, pag. 222). 

<") Jose Mazza deve querer referir-se a Antonio Leal Moreira. 

Nasceu este notavel musico portugues na vila de Airantes por volta de 1758 
e faleceu em Lisboa a 21 de Novembro de 1819. 

Era filho de Bernardo Luis e de Josefa Maria. [Em 30 de Junho de 1766 entrou 
para o Real Seminario, com oito anos de idade. Nessa casa de ensino, fundada por 
D. Joao V, ouviu Antonio Leal Moreira as sabias licoes de Joao de Sousa Carvalho. 

Devido ao seu merito foi nomeado substituto dos mestres de miisica e mes- 
tre efectivo em 1 de Fevereiro de 1787. 

Em 17 de Outubro de 1792 contraiu matrimonio com D. Mariana Joaquina 
da Fonseea Portugal, irma do celebre compositor Marcos Portugal. 

Foi condiscipulo deste ultimo e de Joao Jose Baldi. Antonio Leal Moreira, 
que viveu a epoca agitada da Guerra Peninsular, tambem lhe sofreu os males e foi 
forcado a abandonar o remanso da sua casa da Eua dos Anjos, n.° 156, para servir 
o exercito. 

Neste tempo fez-se a mobilizacao em massa de toda a populacao valida 
do Reino. 

Em Lisboa criaram-se, para sua defesa, 16 legioes, distribuidas por. varios lu- 
gares da cidade, segundo Alvara e Piano de 23 de Dezembro de 1808. 

Leal Moreira, em 8 de Marco de 1809, foi proposto para tenente de uma das 
companhias de atiradores da Legiao Xacional do Paco da Rainha, pelo seu chefe Jose 
Inacio da Costa Quintela, coronel de infantaria adido ao segundo Regimeirto de Mili- 
cias de Lisboa Ocidental, por ser versado no manejo de espingarda e evolucoes 
mili tares. 

Esta proposta foi confirmada por portaria de 10 de Marco do mesmo ano, 
nomeando-o tenente de atiradores do 2.° batalhao da referida legiao. 

Em 3 de Junho de 1810, Costa Quintela, mim longo e honroso atestado, men- 
ciona e poe em relgvo os servicos militares prestados por Antonio Leal Moreira. 

Por causa de ter adquirido um forte reumatismo nos arduos servicos que lhe 
competiram, requereu a sua demissao, sendo-lhe, porem, conservadas as honras ineren- 
tes ao seu posto, em atencao a forma como nele se houvera. 

(Cf. Histdria, vol. II, serie a), 1935, pag. 59 e seguintes, artigo O musico 
Leal Moreira, no Arquivo Hist6rico MMtar, do sr. coronel Henrique de Campos Fer- 
reira de Lima). 

Jose Mazza, na primeira parte das oito pecas que fazem parte do c6dice, que 
reproduzi integralmente no prefacio, fala num Eleuterio Leal, a que se segue uma 
palavra ilegive!. iNao se tratara de Eleuterio Franco Leal? Nao me parece que se 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



49 



poasa pensar outra coisa. Diz ele ser natural de Peniche, foi para o Seminario da Pa- 
triarcal, onde aprendeu musica com seu tio Antonio Leal Moreira. 

Se aasim e ique parentesco havera entre estes compositores e aquele mestre 
de miisica de Peninehe, que dava pelo nome de Jose Leal Moreira? 

Em 1789 entrou para o Real Seminario Antonio Leal Moreira, filho legitimo 
do capitao Jose Leal Moreira e de D. Anna do 0, baptizado na freguesia de S. Pedro 
de Peniche. Este Leal Moreira, que morreu novo, era irmao de Eleuterio Franco 
Leal ou Eleuterio Leal Moreira. Segundo Mazza, eram, pois, sobrinhos do grande 
Antonio Leal Moreira. 

i Aquele capitao Jose Leal Moreira seria o mesmo que o mestre de miisica de 
Peniche? 

fi de supor que seria primo-irmao de Antonio Leal Moreira, donde o chama- 
rem, ao uso antigo, sobrinho a Eleuterio. 

Acerca de Jose Leal Moreira, reproduzo o document*) seguinte, que, e certo 
r.So fazer luz sobre os graus dp parentesco que unem todos estes Leais Moreiras, mas 
diz algo sobre a figura apagada daquele musico. 

*D. Maria, etc. Fago saber que havendo respeito a me representarem o Juiz 
de Fora Veriadores, e mais officiaes da Camara da Villa de Peniche que os morado- 
res da dita Villa Regulados pela sua devogao e Piedade sempre costumavao condes- 
cendentez (sic) cultos fostejar os oragos das suas freguezias, e mais Imagens mila- 
grosas, que nella veneravao, fazendc todas mais fun^oens da quaresma com religiosa 
solemnidade e pompa, emquanto as suas posseblidades aasim o permetiao, mandando 
vir de fora para as ditas funcoens Musicos e Instrumentos, por nao haver na dita 
terra coisa alguma daquellas, para mayor Lustre das ditas festividades e funcoens 
Quaresmais; porem como aquelle Povo quasi todo se compunha de gente Maritime 
a quern de muitos annos a esta parte faltavao as pescarias e crmsciupntemente a sua 
subsistencia ; e porisso se tinhao na devocao e Culto por falta de meyos com que po- 
decem satisfazer as despezas das ditas festevidades, pelo que respeitava musica que 
por vir de fora pela nao haver na terra se lhes pagavao preeos exorbitantes, lem- 
brando-se que so havendo naquella terra hum mestre de muzica, que naquella arte 
podece instruir os meninos, pois em poucos annos lhes ficaria assim mais faci! o po- 
derem continuar com suas Pias e bem fundadas festevidades, sendo-lhes menos custo- 
sas as musicas, havendo-as naquella villa, que vindo de fora della. Pedindo-me lhe 
fizesse merce permitir que do cofre dos sobejos das sizas se desse annualmente o par- 
tido de cinquenta mil reis a pessoa perita que houvesse de Insinar musica naquela 
Villa. E visto o que allegou e informacoes que se houve pelo Bacharel Joaquim Xa- 
vier Morato Boroa, tendo ouvido, digo, sendo Corregedor da Comarca de Leiria, pelas 
quaes constou ser bastante o partido de quarenta mil reis por anno, e ouvindo a 
Nobreza e Povo da dita Villa de Peniche que nao teverao duvida como tambem a 
nao teve o Procurador de minha Real Coroa a quern se deo vista. Hey por bem 
aprovar, como com effeito aprovo e hey por aprovada, a nomeacao que os suplicantes 
fizerao em Jose Leal Moreira, mestre da musica da dita Villa, com o Partido de qua- 
renta mil reis em cada hum anno pagos pelo cofre dos Sobejos das Sizas da mesma 
Villa, havendo-os fieando o dito mestre da musica obrigado a ensinar de graca os mo- 
radores da referida Villa. .E esta Provisao se cumprira como n'ella se contem e valera 
posto que seu effeito haja de durar mais de hum anno sem ambargo da ordena^ao em 
contrario e se registara nos Livros da Camara da dita Villa para a todo o tempo 
constar que Eu assim o houve por bem. De que pagou de Novos Direitos vinte mil 
reis que se carregarao ao thesoureiro delles na L.° 4." de sua Receita a fs. 105 e se 
registou o seu conhecimento em forma no Livro 34 de Registo geral a fs. 102 v.° A 
Rainha Nossa Senhora o mandou pellos menistros abaixo asignados do seu Conselho 



W DICI0NAR1Q BIOGR.iFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 

e seus Dezembargadores do Pago. Thome 1 Lourenco de Carvalho a fez era Lisboa a 6 de 
Dezembro de 1778 annos. Desta 800 reis e de aasignar 800 reis «Antonio Pedro Vergo- 
lino a faz escrever> Joao de Oliveira Leite de Barros <Pedro Viegas de Novaisi. Por 
despacho do Dezembargo do Paco de 11 de maio de 1775, e 19 de Dezembro de 1778. 
sAntonio Freire de Andrade Enserrabodes>. iPagou 800 reis, e aos officiaes 928 
reia, Lisboa 17 de Dezembro de 1778 — Dom Sebastiao Maldonado — 'Jeronimo Jose 
Correia de Moura*. (Torre do Tombo, Chancelaria de D. Maria, liv. 13, fol. 115 v. 
in Souaa Viterbo — Subsidios, etc., pag. 403 e seguintes). 

Mazza deve ter feito confusao quando copiou esta biografia da Dibl. Lu- 
sit, pois a data do falecimento deste Autor e a 6 de Dezembro do referido ano e 
nao a 20. 

( ! «) Faleceu a 5 de Novembro de 1602. Vid. Ernesto Vieira, ob. eit., pag. 
57, 2.° vol. 

(* 5 ) Nao conheso outra noticia deste nome. Vid. nota 2. 

Sobre este autor, veja-se Ernesto Vieira, ob. cit., 1.° vol. pag. 398. 
"(**) Quer Mazza, quer Joaquim de Vasconcelos (06. eit.) se limitaram a re- 
produzir o que Barbosa Machado deixou registado na Bibl. Lusita.na. Ernesto Vieira 
nao o incluiu no seu Dicionario, mas o Dr. Goncalo Sampaio (Subsidios para a hi&ttria 
dos musicos Portugueses, Braga, 1934, pagina 15), di-lo excelente baixo e distinto 
compostitor e participa ter encontrado no Ar:mivo distrital de Braga, num codice 
bastante usado, um Invitatorium de defuntos, a 4 vozes, da autoria do Padre Milheiro. 

A sua edicao do Rituale Romanum Pauli V iussu editum subjuncta cantuque 
ad generalem regni consuetudinem redacto {Coimbra, 1618) foi reeditada varias vezes. 

Nos livros dos obitos da Se de Lisboa (cf. Luis Pastor de Macedo.AVfci'ns 
« registos curiosos extraidos dos livros paroquiais da freguesia da Se, Lisboa, 1940, 
pag. 12) ha um registo, datado de 19 de Julho de 1598, que certifica o ter sido sepul- 
tada uma defunta da freguesia de Sao Tome, trazida de Nossa Senhora da Graca por 
ordem de «Ant6nio Milheiro, capelao desta Se e o Maior Contra-Baixo que agora ha 
e se sabe em todo o mundos. • 

O registo comprova a excelencia do <5rgao vocal do Padre Milheiro e parece 
mostrar que ele, antes de ser mestre de Capela da Se de Coimbra (por 1618), ja faria 
sarvigo na Se de Lisboa. 

( 2a ) Nao sei de outra referenda a este miisico. Vide nota n.° 2. 

( !9 ) Professou em Viana-do-Alentejo no dia 28 de Novembro de 1622. Cf. Joa- 
quim de Vasconcelos, ob, cit., 1° volume, pag. 23. 

( a °) Trata-se, evidentemente, d P. e Antonio Pereira de Figueiredo. Estudou 
latim e musica no colegio ducal de Vila-Vicosa, onde teve por Mestre o P." Inooencio 
de Sousa Mialha. Segundo Vieira, teria permanecido em Vila-Vicosa desde oa onze 
anos aos vinte e sete, dezasseis portanto. Nesta altura, 1742, foi para Coimbra, tendo 
entrado no mosteiro de Santa Cruz com o dote de organista. Em 1744 foi admitido 
na Congrega?ao do Orat6rio e ai passou a sua vida, valorizada por uma obra que o ligou 
a historia da Literatura portuguesa, mais do que a Historia da Musica. Sobre o valor 
artistico deste Autor IS-se com muito proveito a achega para a Historia da Musica 
em Portugal — A obra musical do Padre Antonio Pereira de Figueiredo — Liaboa, 
1932, por Mario de Sampayo Ribeiro. 

( ai ) Morreu em 1617. Cf. pag. 1G9, 2.' vol., ob. cit. E. Vieira. 

( ai ) A noticia de Mazza e" extraida da Bibliotheca Lusitana. Outro tanto se da 
quanto a de Antonio de Pina. Nao e impossivel que Antonio de Pina e Antonio de 
Pinho, ambos musicos e poetas, fossem uma e a mesma pessoa. 

( 3S ) Ernesto Vieira (ob. cit.) nao refere este autor. Como Jose Mazza viveu 
e'm Beja, quando D. Fr. Manuel do Cenaculo estava a testa da diocese recem-restau- 
rada, e natural que o houvesse conhecido se nao pessoalmente, ao menos por tradicao. 

(") Trata-se da mesma pessoa que o antecedente, Segundg Barbosa Machado, 



&ICIONARIO BIOGRAFICO t)E MtSICOS PORTUGUESES 



51 



foi discipulo de Manuel RebSIo. Joaquim de Vasconcelos (ob. eit., 2." vol., pag. 237), 
ignoro com que base, preeisa o ano de 1625 como aquele em que Vilalva recebeu 
ligoes de Manuel Rebelo. 

( =s ) Tambem se deve tratar dum s6 Ajitor, que nasceu em Lisboa a 20 de 
Junho de 1682 e tomou o habito a IT de Janeiro de 1702. Foi contemporaneo de Bar- 
bosa Machado, que Ihe fez um elogio. Parece que ainda vivia em 1747, como aflrma 
Joaq. de Vase, ob. cit. 

( 3S ) Era irmao de D. Joao V. Esteve em Roma, onde recebeu lieoes de Domin- 
gos Scarlatti. Quando voltou para Portugal, propos o seu meatre para professor da 
Princesa Real D. Maria Barbara de Braganca, que mostrava grande inclinacao para 
a musica. Domingos Scarlatti instalou-se em Lisboa em 1721, como mestre da Capela 
Real e professor da Infanta ate 1729. Neste ano, seguiu para Madride na eomitiva 
da sua discipula, que havia desposado o que depois se ehamaria Fernando VI de 
Espanha. 

Basta citar o nome celeberrimo de Domingos Scarlatti para se avaliar do alto 
servieo que prestou ao desenvolvimento da musica em Portugal o Infante D. Antonio 
trazendo ate nos os ecos da justa fama que disfrutava aquele compositor, Mestre 
de Capela de S. Pedro do Vatieano. 

Num. diario Hsboeta, manuscrito da Biblioteea de fivora, um escriba lancou 
a seguinte nota: tchegou o Miizico Escarlate com a molher fermosa e dous filho3 
se lhe continuam os sens grandes ordenados.s Data de 27 de Dezembro de 1729. Tal- 
vez se trate de alguma visita a Lisboa depois de ter partido na eomitiva da sua Real 
discipula para Madride. 

( 3; ) nome complete deste autor parece te r sido Antonio da Silva Gomes 
e Olive ir a. 

Foi compositor de bastante merecimento. Ainda vivia em 1817. Cita-o com 
elogio — Mario de Sampayo Ribeiro, in A Musica em Portugal nos siculot XVIII 
e XIX, pag. 39. 

Ha um outro Antonio Silva que tomou parte nas esplendorosas festas que se 
realizaram no Natal de 1576 n mosteiro de Guadalupe. 

Foi o caso que D. Sebastiao, que ja havia planeado a sua campanha afri- 
cana, decidira pedir o auxilio de Filipe II de Espanha. Para esse encontro familiar 
levara D. Sebastiao os seus melhores musicos, entre os quais Alexandre de Aguiar 
(ver este nome) e Antonio Silva, tatigedo r dos orgaos. (Cf. Ernesto Vieira, of>. cil., 
vol. 1.°, pag. 6). 

(3S) Nao sei de quern se trata. O nome, talvez incompleto, prejudica a busca. 
Vide nota 2. 

(**) Antonio Teixeira foi o primeiro pensionista que o magnanimo Rei 
D. Joao V mandou estudar a Italia a cu3ta das rendas da Patriarcal. Abalou em 1717, 
quando ainda so contava dez anos de idade. (Cf. Mario de Sampayo Ribeiro, ob. cit., 
P&g. 25). 

( ,0 ) Nao sei de outro musico que d§ pelo nome de Atanasio, que nao seja 
Frei Atanasio da Encarna^ao, que pertenceu a ordem dos religiosos franciseanos 
da provi'ncia da Arr&bida. 

Faleceu em 25 de Junho de 1710. Diatinguiu-se como cantor. 

( 41 ) Baltazar de Faria — que foi tio do Chantre da Se de fivora e precursor 
do jornalismo em Portugal, Manuel Severim de Faria — vem aqui apontado tambem 
como musico. 

D. Francisco de Lima, Chantre na Catedral Eborense, renunciou a essa digni- 
dade na pessoa de Baltasar de Faria. Durante dezanove anos presidiu ao canto do 
cabido o conego chantre referido. 

D. Teotonio de Braganca, Arcebispo de fivora, forf amieissimo de Baltasar 
de Faria e talvez devido a isso este se resolvesse a abandonar as dignidades capi- 



82 btciOHAkto biogrAfico ds to&stcos Portugueses 



tulares para envergar a cogula branca dos frades cartuxos, de quern aquele Aree- 
bispo era disvelado protector. 

certo e que Baltasar de Faria fez-se monge, e foi- nor dezasseis anos, 
trocou o nome de baptismo pelo de Basilic, a que juntou o titulo honorific dos bene- 
ditinos — Dom. 

A sua actividade em favo r da Ordera e da retigiao foi verdadeiramente assom- 
brosa; fo, nomeado Prior da Cartuxa de Evora, onde a sua accao foi muito 
notavel. 

Escreveu a hisWria da sua religiao ate o 12." geral, mas so foi impressa 
a vida de S. Bruno, o patrono: Vida do Patriarcha San B,uno, Lx.', 1649 Tip. Domin- 
gos Lopes Rosa. ' ' 

Barbosa Machado nem uma so palavra escreveu sofcre a suposta actividade 
musical de D. Basilio. (Cf. Alentejo & Jaaela do. Passado, por Joao Rosa pags 4 
e seguintes da III parte e 23 da I parte). 

(«) O name complete deste Autor era Bento Nunes Pegado. Sucedeu no mes- 
trado da Se de Viseu ao C6nego Estevao Lopes de Morago pelos anos de 1629 a 1634 
Foi Mestre da claustra da Se de Evora. (Cf. ^oias ao Programa do concerto de 

J^S^T n ° Teatr ° Garda ^ ReSende ' na "° ite d6 7 de Junh0 de I942 ' por ManueI 
(«) Foi nomeado a 11 de Dezembro de 1738 organista da igreja de Nossa 
Senhora da AIcacova da Cidade de Elvas, substituindo Domingos Rodrigues ft que 
consta <Jo documento que a seguir reproduzo: 

«Dom Joao etc. Como Governador etc. Faco saber ac-s que esta minha Carta 
virem que tendo respeito a esta r vaga a ocupacao de organista d a Igreja de Santa 
Maria de AIcacova da Cidade de Elvas que he da dita ordem por falecimento de 
Domingos Rodrigues e na pessoa de Bernardo Jose da Silva concorrem 03 requisites 
necessary para bem a servir como constou por informacao do juis da ordem da 
comarca de Estremoz de que tudo houve vista meu Desembargador procurador geral 
das ordens: Hey por bem e me praz que o dito Bernardo Joseph da Silva sirva a dita 
ocupacao de organista da Igreja de Santa Maria de AIcacova da Cidade de Elvas 
em quante eu o houver por bem e nao mandar o contrario e com ella haja o ordenado 
e mais proes e precalcos que direitamente lhe tecar na mesma forma com que o tinha 
seu antecessor: Polio que .mando ao dito juis da ordem d a comarca de Estremoz que 
na forma referida o deixe servir e cumpra e guarde esta minha Carta muito inteyra- 
mente como nella se conthem sendo passada pella Chancellaria da ordem- El Rey 
nosso Senhop o mandou pellos Doutores Frey Miguel Barbosa Carneiro e Joao Correa 
de Abreu Deputados do despacho da Mesa da Consciencia e ordens: Francisco Fer- 
reira de Azevedo a fez em Lixboa occidental a onze de Dezembro de mil sete centos 
e trinta e outo annos — Antonio Luiz de Azevedo Coutinho a fez escrever Frey Miguel 
Barbosa Carneyro, Joao de Abreu* (Torre do Tombo, Cliancelaria de D. Maria I 
Ordem de Avis, liv. 31, fl. 260 v. in Subsidios etc., de Sousa Viterbo, pag. 512). 

Passou depois para a igreja do Salvador da referida Cidade, a exercer o mesmo 
oficio em substituigao do Padre Jose de Sousa. 

(") Trata-se de Bras Francisco de Lima que, com seu irmao Jeronimo Fran- 
cisco de Lima, foi mandado para Napoles como pensionista do Seminario Patriarcal 
a estudar musica. 

Qualquer deles faleceu depois do autor do codice, donde a explicacao da 
ausencia de dados biograficos. 

Parece que s6 Jer6nimo Francisco de Lima se revelou miisico de merito, 
tendo, ao que parece, Bras Francisco de Lima esquecido o que aprendera para se 
dedicar ingloriamente a vida comercial. 

(«) Jose Mazza deve referir-se a Bras Luis Coelho, organista da Igreja da 
Conceij3o dasde 8 de Setemb.ro de 1606. 



DICIONAMO BIOGRAFICO DE MVSlCOS PORTUGUESES 53 



Segue o alvara que lhe confirms a mere*: 

<Eu elRey faco saber aos que este meu aluara virem que eu ey por bem e me 
praz que Bras Lui3 Coelho, a que ora fiz merce do cargo de tagedor dos orgaos da 
igreja de Nossa Senhora da Conceicao, tenha e aja com elle de ordenado cada anno, 
doze mil reaes, que he outro tanto como tinha a pesoa que ategora serui o dito 
carguo segundo se vio per certidao de Manuel Roiz, porteiro do conselho de minha 
fazenda, os quaes doze mil reaea comegara a veneer de oito dias de setebro do anno 
passado de seis centos e seis em diante, em que come^ou a serjjir, como constou pet 
ir.formagao do Vigairo da dita igreja, e lhe serao asetados e pagos no thesoureiro 
do dinheiro do hum por cento e obras pias que dos ditos oito de setebro do anno 
passado lhe dee e pague os ditos xij reaes cada anno aos quarteis, etc. Antao da 
Rocha o fez em Lixboa a dez de maio de seis centos e sete. Sebastiao Perestrello 
o fez escrever. (T. do Tombo, Chancelaria de D. Filipe II, Doagoes, liv. 16, fl. 222 
in Sousa Viterbo, document© niimero XXVI — A Ordem de Christo e a Musica 
Sagrada nas such igrejas do Continents, Coimbra, 1911, pag. 34). 

(") Este e Bras Scares da Silva, que foi mestre de Miisica no Real Colegio 
dos meninos 6rfaos e ensinou as regras da compostura a muitos alunos, entre os 
quais avulta o compositor Joao da Silva Morals. 

Em Junho de 1665 foi nomeado mestre da Capela da Igreja de Nossa Senhora 
da Conceigao. Foi freire professo na Ordem de Cristo e sucedeu naquele cargo a Frei 
Francisco da Costa. £ste foi cantochanista e compositor de musica religiosa. Faleceu 
em 1667. 

Barbosa Machado afinna tex Sete autor deixado as suas ohras manuscritas 
em dois volumes. 

Ernesto Vieira viu na Biblioteca Nacional umas Paixdes a quatro vozes, de 
Francisco da Costa. Diz que sao escritas no estilo de fafcordao, muito usado na epoca. 

documento que nomeia Frei Bras Soares da Silva para sucessor de Frei 
Francisco da Costa e do teor seguinte: 

*Dom Afonso, etc. Fa$o saber a vos Luis Alvares de Tabora administrador da 
Jurdisao ecleziastica da Villa de Thomar e mais lugares que pleno jure lhe pertense 
que por hora estar vago o Beneficio de mestre da capella da Igreja da Nossa Senhora 
da Conceigao desta cidade de Lisboa que he da mesma ordem e desa Jurdisao por 
promosao de Frey Francisco da Costa ultimo e imediato passuidor que dele foi e pela 
boa informa;ao que tenho de Frey Braz Soares da Silva Freire profeco da mesma 
ordem de suas partes, sufisiensia, vida e costumes hey por bem e me praz de nele 
o aprezentar como com efeito o aprezento e hey por aprezentado que o seruira como 
cumpre ao seruigo de Deos e bem da mesma Igreja e das almas dos freguezes della 
e voa encomendo e mando que nella o confirmeis e lhe paseis vosas letras de confir- 
masao delle na forma costumada nas quais se fara expresa e declarada mencao de 
como o confirmastes a minha aprezentagao e para guarda e conservagao do direito 
da dita ordem e com o dito Beneficio de mestre da capela avera o mantemento a elle 
ordenado e os proes e percalgos que direitamente lhe pertenserem e se eomprira 
sendo passada pela chancellaria da ordem. Niculao de Carvalho a fez em Lisboa 
a 16 de junho de 1665. Jose de Carvalho de Miranda o fiz escrever. El Key. (T. do 
Tombo, Chancelaria da Ordem de Christo, liv. 18, fl. 353 v.). 

«Em o mesmo dia, mes e anno se passou quitasao deste Benefisio de mestre 
da capela de 10S200 reis que pagou de tres quartos, feita e sobscrita pelos mesmoa 
officiaes e asinada por Sua Magestade. — El-Rei». (Idem, in A ordem de Christo e a 
Musica Sagrada nas suas igrejas do Continente, pag. 42, Sousa Viterbo). 

Falando dos Mestres de Capela da Igreja da Conceicao nao vai fora de pro- 
posito trazer para Sste lugar o documento seguinte: 

«Eu el Rey como gouernador etc. Fago saber ao3 que este meu aluara uirem 
que auendo respeito ao que me representou o mestre 4a capella da Igreja de Nossa 



54 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCS1C0S PORTUGUESES 



Senhora da Conceicao desta cidade que he da dita ordem estar atuahnente aeruindo 
com grande trabalho e ensinando os meninoa do coro da mesma Igreja cant and o as 
micaa conuentuaes nos domingoa e dias santos, e aos oficios diuinos na semana santa 
com a porcao de 4J000 reis cada anno asentadas na folha do Rendimento da caza 
da India e outros 4?O0Q reis que lite daua a dita Igreja e nao ter entrado nos acreaen- 
tamentos que tinha tido o uigario e Beneficiados da mesma Igreja e estava vivendo 
nesta corte aonde as despeza3 erao excessivaa e que sendome tudo preaente em con- 
sulta do conselho da minha fazenda e a Respasta que ao dito requerimento deu o 
presidents (?) della hey por bem e me praz de lhe fazer merce de acresentar a dita 
ocupasao de mestre da capella da dita Igreja de Nossa Senhora da Conceicao desta 
cidade, mais 8$000 reis aos oito que tern para ao todo ter em cada hum anno de 
ordenado e que estea 8$ 000 reis que agora lhe acre sen to lhe serao asentados na folha 
do rendimento da caza da India onde os comecou a venser de 12 dias deste anno 
preaente de 1711 em diante que h£ o dia em que fis esta merce; Pello que mando 
ao vedor de minha fazenda Ihes fasao asentar nos livros della os ditos 85000 reis 
que novamente lhe acresento a dita ocupasao de mestre da capella da dita Igreja 
e levar em cada hum anno na folha do acresentamento do Rendimento da caza da 
India para lhe serem pagos na mesma forma e em que sao oa 4$000 reis que tern 
nella a dita ocupasao e este alvara quero que valha como carta posto que seu efeito 
haja de durar niaia de hum anno sem embargo da ordenacao Livro 2.° titulo 39 e 40 
em c on t ratio sendo primeiro pacada pella chancellaria da ordem e nao pagou novo 3 
direitos por ser de exerckio ecelesiastico. Joa de Sexas Henriques o fez em Lisboa 
aos 9 de Outubro de 1711. Antonio Guedes Pereira o fes escrever. — Rey (T. de 
Tombo, Chancelaria da Ordem de Cmto, ]iv. 97, fl. 179 in .4 ordem de Christo... 
nos Iyrejaa do Cont\nente t pag-. 44, Sousa Viterbo). 

C 7 ) £ sem diivida Camilo Cabral, que a custa d Seminario da Patriarcal 
foi para Napoles. Do livro dos assentos doa seminaristas da Patriarcal consta de facto 
que Camilo Cabral foi para Napoles, maa no rol doa alunoa do Conservatorio de Santo 
Onofre de Capuana nao aparece tal nome. La veem os dois irmaos Pecorario (Joaquim 
e Antonio) — emtrados em 23 de Marco de 1T56; Jeronimo Lima e Braz de Lima 
e Joao de Sousa, entrados a 15 de Janeiro de 1761. 

Talvez que Camilo Cabral f6sse destinado para outro dos quatro ccnserva- 
■tfirios napolitanos. (Cf. A Musica em Portugal «os s4culo3 XVIII e XIX, por Mario 
de Sampayo Ribeiro, pag. 77). 

( 1S ) Nao topo notfcia que identifique este autor mend on a do pelo codice de 
Mazza. Vid. nota 2.*. 

( ,e ) No livro dos sEstatutos dos Bachareis da Se de fevora>, na pag. 10, 
eneontrei os nomes de Francisco Lopes, Cosme Delgado e por cima duma linha, acres- 
centado, o nome de Manuel M erodes, como ten do assistido a elaboracao dos mesmos 
Estatutos, o que se deu em 5 de Outubro de 1581. 

A-proposito de Coame Delgado, cantor da S£ de fivora, trago para aqui uma 
«Representacao respeitosa> feita pelo Cabido ao Arcebispo de fivora, entao, segundo 
ereio, D. Teotonio de Braganea. 

Refere-se aos cantores da Se Eborense e traz um elogio de Cosme Delgado, 
que suponho desconhecido ou pelo menos infdito, 

C I X 

£ um manuaorito com a cota — — ±- n." 83, da Biblioteca Publlca de fivora. 

Consta do seguinte: «... Dom Manoel q' Da te por deuaijao q' tinha particular 
a kidas as couaaa Ecc.** e por lhe pareger q' seria asij be, ordenou antes de encomen- 
dar esta ao Cardeal Dom Afonso seu f.° q' esta em gloria q' nella ouuese musicos can- 
tores q' nella seruise nos dias solemnes e feat as do anno, e por o Rendimento da 
fabrica da mesma See o poder ja permitir, lhe mandou dar delle conuenientes par- 
tido3 com q' podese aer ajudados aviver e podese seruir a Sees. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 66 



«Depois disso vindo o dito Cardeal dora Afonso a ter esta Igreja nao somente 
eonseruou o costume ordenado nella / maa ainda trabalhou por augmentar o culto diuino 
e ornamento de todas as eousas delle / procurando mais cantores « os melhores q' 
podia aver e Ihe acrecentou tambem charamelas q' nella nao auia por lhe parecer 
q' todo ornamento de musica e instrumeittos se deuia de proctirar pera louuor de nosso 
snr. e lOrnamento de hua see tarn honrrada e Prelacia tamanha e q' hya sendo muito 
Eiqua / e pera todos estes ministros mandou ordenar Regimen'tos do modo e como 
avia de serai r, e taea os deixou atodos como consta do Liuro de sua visita^ao*. 

tDepois do falecimento deste Cardeal dom Afonso socedeo o Cardeal e Hey 
que foi dom Henrique nosso snr. q Ds te 5 cujo tpo apetifjao delRey dom Joao neu 
Irmao o S." Padre eregio esta S." 1 Igreja em See -Metropolitans, e a elle proueo em 
piimeiro Arcebpo della com grande aplauzo e contentamento de todos, e como tal 
e dito Cardeal Rey que Ds te sendo nella Prelado adesejou e nobrecer e augmentar 
c todas as cousas deuidas ao servico de nosso snr e do culto diuino e ornamento 
e autoridale delle e das p." della e em tanto era desejoso e amigo do ornamento 
e autoridade da capella dos cantores desta See q' donde quer q' os podia aver ipera 
ella muito bons os mandaua vir e aos parecia q serviao pera o seuico della os aceitaua 
para cantores cam seus ordenados e stipendios / e aos que com ellcs somente nao 
podia contentar ne satisfazer por unerecere maiores partidos os benefficiava na mesma 
See pera por esse Respeito alem de cumprire as obrigacoes deseus beneffV" com suas 
vozes epesoas ajudare alouuar a Ds e sere cantores na ditta Se e como fez a muitos 
de q ainda agora ha vivas lembrancas / e nao somente co os estranhos usava isto 
mas ainda aos cantores da sua camara e criados seus honrrados fazia cantores na 
mesma See por a capella ser mais graue e melhor prouida tanto zelava as cousas 
do servico de Ds e culto diuino / e caso q este seu principal intento e fundamento 
nao fora tambem o Respeito humano deter na sua See muitos e bos cantores hera 
causa pera asy ser / pois aconteceo avh- elRey ouvir missa aesta See, e ser ella cele- 
brada eofficiada por sua AI. asy o aver por bean portodos os ministros della e can- 
rtores oque ainda em nossos tpos pode acontecer / epera hu so dia destes hera deuido 
avelos quanto mais seruind.0 ordinariam."> 

«E tambem ocustume e posse Immemorial e q' esta See esta de ter cantores 
tenefficiados nella faa forca e .parece q depersy ajuda a lembrarse a V. S. q' seja 
siruido querer q' se nao mude nella nada do q' esta ibe prouido acerq.' das cousas 
deseu seruico como esta e outras, e ainda q' os cantores da capella desta See de 
muitos sobejasse e nao fose necessarios estando Recebidos nella por via ordinaria 
e seg. rt ° custume .parece q' se nao deverao tirar, nem deapedir sem causa sem lhes ficar 
algua satisfacao pera Remedio de sua vida pois a deixarao de ter em outras partes 
por se querere obrjgar ao seruico desta See / e s e este he o custume antigo usado 
e pratieado tias casas dos Revs e principes com as p" q' os serve, quanto mais se 
deue guardar na casa de Ds e sua Igreja q' toda he chea de mja. (Mtseric&rdia). 

cTambem parece q' he pera se lemhrar q' alem deste custume antigo de can- 
tores sere beneff."" nesta see ser nella usado por bom a decencia de asy ser e avantage 
q' tern d e clerigos a seruire he muito maior q' sere todos leigos antre os quae3 ne 
a honestidade ne a apparencia exterior se iguala co os clerigos e sacerdotes q' todauia 
ainda q' fossem muito disolutos a lugar da Igreja a obrigaca do off.", e a esperanca 
do premio de seus trabalhos e a sejeicao do Prelado os faz sempre estare com maior 
Respeito e veneragao aos off." diuinos.s 

<E se nos beneff. d " presentes dagora se ouuera principiado este custume / e 
por iso se achara aver notavel falta no seruijo da See ena admin istracao dos sacra- 
mentos a q' fosem obrigados ainda como cousa noua introduzida sem prescricao de 
nhu tpo se podera remediar / mas e tanto he custuonado q' passa d e quarenta e cin- 
quenta sesenta e mais annoa q beneff Lei ados custamavfio ser cantores q' fr*° annes 



86 DICIONAMO BIOGRAFICO DE M0S1C0S PORTUGUESES 



fcacharel que foi era cantor e Serafim de Luna Pero de Corral Manoel Dias o qual 
custume e posse passa de tarrtos annos, aprouodo e usado pelos Prelados passadoa 
q' assy o ordenauIo.> 

«0 Arcebpo dom Joao de Mello q Ds te quando veo aesta Prelacia parecendo 
lhe que podia forrar pera as Rendas da dita obra da See alguns partidos de tantos 
cautores quantos entao avia q' herao hua igrande parte mais do q' agora, e tratando 
de apousentar algus com algua parte de seus ordsnados o nao effectuou por em sua 
Relagao entao com os letrados q' avia e outros q' forao pera isso comunieados seasen- 
tar q' o nao podia fazer em consciencia nao sendo elles disso contentes.> 

«E posto q' as Rendas da faibrica desta see entaio estiuesse mais inteiras 
e fosem de maior Rendimento e que bean podiao soprir a todos os encargos do seruico 
tla See tambem entao os custos forao maiores e muitas obras que ouue e se fizerao / 
/ e avia pera tudo / e se depois se extinguirao e diamenbrarao tantos bens da dita 
Hernia da fabrica como he notorio o cabido coimo ja te dado conta a V. S. e lhe fez 
disso lembranea, fez nisso todo o q' por entao pode ser pera se nao effeituar, mas 
4odavia foi com o Cardeal e Rey dom Henrique q' Ds tern mandar fazer oreamento 
de todo o q' ainda ficaua de Rendu a dita obra da See, e armada ella com os gastos 
todos e com as desp. 1 ' dos cantores e charamelas se achaua que pagos todos ficavao 
ainda encada hu aimo mais de .mil e quinhentos cruzadoa de Rejmanecente pera o q* 
comprise e necessidades q' sobreuiese / e que visto hu anno sej'a mais e outro menos 
he condi;ao ordinaria dos tjpos e dos aKendamentos das Rendas, q aleuantao a abaixao 
as cousas / pelo q' sempre se pode co os custos presentea.* 

«Cosmo Delgado br (bacharel) nesta see e que ora te cargo de mestre da 
capella ha perto de trinta annos q' aserve de cantor, e te elle neste officio de musica 
tantas partes de q' nosso sfir. o dotou q' por sua boa voz e hatoilidade pare^e q' ainda 
q' delle fora mere^ido escusareno detal por sua Rara habilidade e voz boa se podia 
bem exceptuar detodos, e he Rezao q' hua tarn insigne See e q' tern tal Prelado 
tenha e tudo os mais avantejados ministros eseruidores q' possao ser, porq' alem de 
em tudo nosso sfir ser louuado na sua Igreja / o pouo com a bondade da musica se 
incita adeuacao, e acurdare em cousas q' o esperito com ella Represents, e lembra.» 

cPor todas estas Rezoes e outras q' podera sever, e especialmente iporquem 
V. S. he, epelo S.'° Zello q' sempre mostrou pera todas as cousas do seruigo de nosso 
sfir e be de sua Igreja e seus subditos Pede este seu €abido a V. S. seja seruido 
conseruar esta See e Igreja sua no estado e posse eim q' a achou quando lhe foi entre- 
gue, e que nella se guardem os seus costumes antlgos e bos / mande q' os cantores 
na eapella sejao os q' sao ainda q' sejao beneff. ,, °", e proueja os charamellas della 
por a muita falta que ha disso.> 



Seguem as assinaturas dos Gapitulares nas quais se destaca pela elegancia 
e justeza a do Conego Jeronimo Osorio. Ai fica um documents curioso sobre o estado 
em que vivia a iCapela da Se nos fins do seculo XVI e principios da XVII. Cosme Del- 
gado faleceu uma terga-feira a tarde, 17 de Setembro, de 1596 e deve ter nascido por 
volta de 1530. ~ " 

Na altura em que Jose" Maz-za lancou no seu projectado Dicionario 6ste 
riome, ainda o mesmo, como diz, exercia o ofkio de trombeta Mor de Sua Magestade. 

— pi) o epigrama que Rezende dedicou a Damiao de G6is esta mal copiado. 
Para se entender, deve ser isto: 

Elige vestro navis horum te Tiomine dici 

An Phebi, an Orphei dulcis utrisque modU 

Aut, si non spernis genus a quo Musica primum 

Tnvenba est, nobis, sis Daimiane Jubal. . - ■ r'ffv? 



DICI0NAR10 BIOGEAFICO DE M&SICOS <PORTUGUESES 57 



Em portugues Boa assim: «6 Damiao escolhe para estro da tua nau musical 
um daqueles que te chamam ou pelo nome de Apolo ou pelo de Febo que e doce para 
ambas as artes, ou entao, se nao desprezas a ra>ca pela qual a unusica foi inventada 
em primeiro lugar, Bejas tu para n6s um novo Jubal.» 

Martinho Gerberto, na sua obra rara De cartiu et Musica Sacra, na pag. 335, 
-X, 2." vol. traz a seguinte referenda altamente elogiosa ipara Damiao de Gois: «Cum 
lauds 'meminit Glareanus Damiani a Gees, equitis Lusitani, viri nobilis, et eximii ejus 
tempestatis aymphonetae. Qui (addit) post<quam totam ferme lustrasset Europam, 
hie ad Hercyniae silvae caput D. Erasmum Roterodaonum invisit, cuius hospitis ali- 
quot mensibus suavissime est usus: hinc inter nos notitia orta, nine amicitia facta, 
quae nunquam, quoad vixero, evanescet. 

Specimen ejus compositions adiungit, de eoque Opmeer inquit: 

In compenendis syimphoniis magnus artifex, et a cunctis viris amatum 
plurimum*. 

Em portugues quere dizer o que segue. «Glareano gloriosamente recorda Da- 
miao de Gois, cavalciro portugues, homem de estirpe nobre e eximio musico dessa 
epoca. qual (continua ele), depois que percorreu quasi toda a Europa, visitou aqui 
ro alto da floresta Hercinica (Floresta Negra), D. Erasmo de Roterdao, de cuja 
hospitalidade usou coin muita felkidade durante alguns meses: a partir disto, origi- 
nou-se um conhecimento reciproco entre nos e uraa amizade que jamais perecera 
emquanto eu vi;cr. 

Acrescentou a isto um exemplar da sua composicao, do cujo conteudo diz 
Opmeer: Grande arttista em compor concertos e muito amado por todos OS homens 
doutos.> 

A aura musical de que gozou Damiao de Gois esta hoje seriamente compro- 
metida. Sampayo Ribeiro, in Damiao de Goes 7ia lAvraria Real de Musica, 1935, afirma 
ter sido Damiao de Gois de excessiva vaidade a ponto de ele proprio escrever os seus 
elogios, tao enfatuados e presuncosos comio Sste: «Na musica compoz muitas coisas, 
na qual foi tao destro e exercitado que nas terras por onde andou lhe chamavam 
o musico por alcunha.* 

As <muitas coisas* que compos reduzem-se a bem pouco e a sua destrexa e 
exercick) nao sao tao grandes que Fetis evite dizer que o moteto goesiano inserto no 
terceiro livro do Dodecachordon possui <alguma nudez na harmonia.> 

Damiao de Gois brilhou mais como humanista, e so devido as humanida- 
des ele conseguiu captar a amizade de Erasmo, que niio apreciara musica. A sua 
grande gloria esta em ter deixado a posteridade principalmente as cronicas de dois 
grandes reis Portugueses — D. Joao II (emquanto Principe) e D. Manuel. 

( s -) A respeito de Damiao de St.* Quiteria e de Davide Francisco Xavier, nao 
encontrei outra noticia. 

( s 3) Ernesto Vieira iparece-me que se enganou redondamente quando afirmou 
ser Diogo Dias o mesmo que Diogo Dias Mclgaz, que vem a seguir citado no codice 
de Mazza. 

Diogo Dias foi cKrigo de mi&sa e era organista e oiestre de cairto na vila do 
Crato; por tudo isso pagava-lhe a Camara de ordenado vinte mil reis. 
Ai vai o documento respeitante ao caso: 

«Eu El-Rey faco saber aos que este aluara virem que os oficiaes da camara 
da vila do Cratto me enuiarao dizer per sua carta que na dita villa falesera o padre 
Diogo Dias, cantor e organista na matris della, o qua! tinha ,por minha prouisao vinte 
mil rs em cada hum anno das rendas do conselho com obriga,;ao de tanger os orga«3 
e insinar canto, e por que lhe ficara hum sonrinho, clerigo de missa, por nome Paulo 
Afonso, que tinha as mesmas partes pera bem poder tanger os ditos orgaos, e a dita 
camara tinha obriga^ao ao dito canto, pello que me pediao lhe fizesse merce de man- 
Jar pasar prouizao ao dito Paulo Afonso para lhe darem os ditos vinte mil rs com a 



SB DICIONAR10 BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



imesma ofljrigagao, e visto seu requerimento e informaicao que se ouve pello ouvidor 
da comarca do priorado do Crato, hey por bem e me praz que os ditos officiaes da 
camara pgsao dar daqui em diante ao dito Paulo Afonso vinte mil rs em cada hum 
anno das rendas do Conselho da dita villa na© entrando nisso minha tersa com a 
obrigacao de tanger os ditos orgaos e ensinar o canto na forma em que o fazia o dito 
Diogo Dias, seu tio, e niando ao prouedor da coma.rca leve em conta aos ditos offi- 
ciaes da camara nas que lhe tomar das rendas do dito Concelho ditos vinte mil rs 
em cada hum anno e lhe cumprao e guardem este aluana como nele se conmtam que 
sa registara -no liuro da Camara da dita villa, e ualera como carta sem embargo da 
ordenacao do 2." liuro titolo 40 em conltrario. Joao de Souza o fez em Lixtoa a vinte 
da Julho de mil e seis centos e uinte e sette. Joao Pereira o fez escrever.t> (T&rre do 
Tombo, Chan cell aria de D. Fiiipe III, L.° 17, fl. 132 in A Musica sagrada em diversax 
terras do Beino, por Francisco Marques de Sousa Viterbo, 1911, .pig- 19 e 20). 

A Paulo Afonso sucedeu o padre Antonio Vieira (ver Sste nome). Este hoim6- 
nimo do grande orador jesuita recebeu meree de dez mil reis, pagos pela Camara, 
segundo ah _ ara de 9 de Agosto de 1636. 

Joaquim de Vasconcelos assevera ter Diogo Dias estudado em fivora, onde 
chegou a Mestre de Capela. Nao sei contestar em absolute a afirmacao, mas suponho 
tratar-se de f aril conf usao. Ao contrario do que avanca na sua obra (Os Musieos Por- 
tugueses, pag. 79, 1." vol.) — o existirem composicoes de Diogo Dias no Cartorio da 
Se — so posso afirmar que nao Iia uma unica, por excepcao. £ mme que nunca aparece 
no cartorio das raiisicas da Se de fivora. A unica probabilidade que ha de tudo e que 
tenha estudado de facto em fivora, pois encontrei este nome em livros do Arquivo 
Capitular da Se. 

Talvez porque no epitafio deste compositor, escrito em latim, aparece 
a palavra Melgaz, assim grafada, Ernesto Vieira foi induzido no Srro de que seria Sste 
o nome do Mestre, mas em latim, pois em piortugues, crismava-o de Melgaco. 

Na mesma esteira teem seguido muitos dos que alguma coisa escreveram sobre 
o assunto, sendo, no entanto, ainda neste caao, uma so a verdade. O nome absoluta- 
mente autentico tirado da propria assinatura e — Diogo Dias Melgas ou Melgaz. Foi, 
no entanto, o Cardial Saraiva (lAsta de aXguns artistas ■Portugueses, pag. 47) que oca- 
sionou tamanha confusao no nome do ultimo dos grandes mestres do contraponto em 
fivora no seculo XVII. 

Natural do Baixo-Alentejo, nascera em Cuba; foi o mais infeliz de todos 03 
grandes mestres do canto de orgao de antano e um dos mais inspirados, senao a 
mais ingpirado dos artistas Portugueses, que escreveram naquele genero de musica. 

A sua morte deu-se na noite de 10 para 11 de Marco de 1700, em fivora, em 
caaa sua, onde residia, na Rua do Eepirito Santo. 

CXXVI 

Na pagina 164 do c6dice da Biblioteca PiibHca de ftvora se le o se- 

2-21 

guinte: 

<No sogam saindo da porta da igreja para a porta principal esta enterrado 
o P.* Mestre Melgas. Faleceo a 13 de Marco de 1700*. 

Ernesto Vieira tomou este documento como ponto de partida, aceitou aquela 
data de 13 e p&s de parte a que Barbosa Machado indicava, que era 9 do mesmo 
mes e ano. (Cf. Bibliotheca Lusitana, pag. 89, IV vol.). 

porem, certo que uma e outra estao erradas. 

Antonio Francisco Barata, falecido funcionario da Biblioteca de fivora, pu- 
blicou em Outubro de 1905, no jomal «Correio Elvense*. um artigo intitulad/> Diogo 
IHas Melg&s. Nesse artigo, reproduzido na revista «Arquivo Transtagano>, de 15 de 
Maio de 1934, encontram-se os dados mais concretes que se wnhecem sSbre o desdi- 
toso musico, que morreu cego. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



Netfse artigo se diz que a morte de Melgan ocorreu na noite de 10 para 11 de 
Marco de 1700, pois, no dia 11 ja os frades de alguns conventos rezavam misaas 
por sua alma. No dia 12, foi sepultado, com acompanhamento da Irmandade dos 
C.erigos de Santa Marta, a entrada do convento dos Remedios, em campa que com- 
prara aos earmelitas descales que habitavam aquele mosteiro. «No mesmo sogam 
(sic) ao pe desta mesma sepultura acima referida esta enterrado Joao Melgas sohn- 
nhoo do P.' M.' Melgas que era seu sobrinho faleceo a 25 de Abril de 1700*. «No 
mesmo sogam esta enterrada por baixo da sepultura acima referida huma sobrinha 
do p.' Melgas faleceo a 20 de Maio de 1700>. E ainda eontinua a tragedia desta 
familia: «Entrado pellas grades do sagam a mao esquerda da sepultura do P.* Mestre 
Melgas esta enterrada uma sua sobrinha Luisa M.' falecida a 17 de Abril de 1712» — 
«A mao direita da cova do P.' Mestre Melgas esta enterrada huma sua afilhada por 
nome luzia M* faleceo em vinte e quatro de Novembro de 1714*. 

Infelizment* os frades nao respeitaram a campa de Mestre Melgas e passados 
anos venderam-na ao Dr. Ant6nio de Azevedo Cotrim: *Esta sepultura do P.* Mestre 
Melgas comprou o letrado Cotrim e nella se enterrou sua molher D." M. 1 faleceo em 
28 de Agosto de 1732». E mais: <Na sepultura q' esta ao sair dos arcos do Alpendre 
da Ig.* q' he do Dr. Anto. de Azevedo Cotrim se enterrou este mesmo a 21 de Ag. 

de 1747». _ 

O Dr. Joao Melgas Ferro pouco sobreviveu tambem ao extmgmr rapido da 

sua familia. 

Melgas viveu e morreu pobre. A data da sua morte houve necessidade de pe- 
dir a urn estranho 4.000 reis para se fazer o ent«rro. Foi o irmao que os pagou, 
a 20 de Junho de 1700, a Sebastiao Ferreira. 

Diogo Dias Melgas foi menino de coro na claustra da S6 de fivora, para 
onde viera aos nove anos de idade. 

A proposito transcrevo o que o Padre Francisco Fonseca escreveu sobre a 
easa onde viveu e aprendeu o Padre Mestre Diogo Dias Melgas, e no qual ha refe- 
renda altamente elogiosa para ele. 

« 4.te 1552, os meninos do coro recebiam as li^oes, mas ficavam e viviam nas 
suas casas. Nesta altura *o Serenfssimo Cardeal Infante D. Henrique os mand-.u 
ajuntar em Collegio, para que fossem melhor instruidos, e ficassem mais aptos para 
o servico do Culto Divino. A primeira instituicao era de quatro, e coma por conta 
do Mestre Escola o seu sustento, e ensino, a estes acrescentou outros quatro o Arce- 
bispo D. Afonso, outros tantos o Cardeal D. Henrique, e dois D. Joao de Mello per- 
fazendo o numero de quatorze, que a liberalidade dos Senhores Arcebispos costuma 
subir ao de vinte. Acho em Author fidedigno, que o Senhor Cardeal quena, que 
todos fossem orfaos para acodir com a mesma esmola ao servico da Se, e ao de- 
zemparo dos Mininos, mas cony, nem em todos os orfaos se podia achar suavjdade 
das vozes para o servico do Coro, se alterou juatamente esta dispos.pao do Seremssuno 

Arcehispo. . 

417 O seo primeiro Collegio foy na Se velha, que tinha servido de Caza do ,Se- 
nado, e de morada do Escrivao da Camara, e por esta ameacar ruina, se mudou para 
aquelas cazas, que ficao detraz da Caza do Cabido, onde viviao muito apertados, e 
com muita incomodidade os inocentes Mininos; compadeceo-se delles o Arcebispo D. 
Luiz da Sylva, e lhe fundou junto da claustra o magnifico Collegio, em que hoje ha- 
b^tao, o qual acabou o Senhor D. Simao da Gama: e se fez a mudanca com muita 
aolenidade aos 8 de Mayo 1708. Tern hua linda Capella dedicada o Mimno perdido, 
e nella alem das Ladainhas, e Salve, rezao o terco do rozario todos os dias. Estudao 
enquanto Mininos a Solfa, e quando mayores com titulo de Colleges mudao a cor 
da beca, e vao a Universidade ao Estudo. 

Em 1617. O Arcebispo D. Joseph de Mello lhe deo santpe e prudentes est*- 



ISO 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



tutog dizendo no prologo as muytas utilidades que desta funcao tinhao nascido, por 
ter sido o seminario dos Meatres daa Capellaa, nao so das Ses de Portugal, mas de 
muytas de Castela; e no tempo em que aqui foy Reytor, e Mestre da Claustra. o P.' 
Diogo Dias Melgas, todos os Mestres da Musica portuguesa tinhao sido seus Disci- 
polos: a que podia acrescentar os muytos que ,ou retirados nos claustros ou ordenados 
sacerdotes authorizarao as Religioes com aa auaa prendaa e aa Parochias com as suas 
exemplarea vidas. .(Cf. Paginas 233 e 234 de Hvora Glvrwsa, Parte Segunda - dSvo- 
ra Pia»). 

O epitafio que fizeram para colocar no tiimulo de Melgas, e que certamente 
nunca la eateve, diz assim, em portugues: 

*Morreu neste mundo triste urn meatre que aoube comunicar aoa homena a 
Musa celeste (a musica). 

Mas se ele jaz itramado numa urna funerea, a fama nao esta sepuitada no- 

tumulo. 

Melgaa, depois da morte, vivera lustros eternos, emquanto houver homens, 
emquanto houver astros». 

Nao obstante Mazza afirmar que o epitafio se lia na campa, eu abundo na 
opmiao de Ernesto Vieira, alias baseada nos dizeres de Barbosa Machado, de cuja obra 
Mazza a copiou. Ora o douto Abade de Santo Adriao de Sever apenas diz que o epitafio 
latino foi composto e mais nada. Ora, sabendo-se das predileccoes literarias da epoca fa- 
cilmente se conclui que ele representa a.penas o elogio epigramatico de urn admirador 
entusiasta e nada mais. 

Gracas a amabilidade de Mario de Sampayo Ribeiro, que me forneceu a cipia, 
posso dar aqui o testamento com que faleceu o inaigne compositor e que se encontra 
na Biblioteca Nacional de Lisboa (Ma. 9534 F. G.). 

tEm nome de Deos e Santissima Trindade Padre, filho e Espiritto Santo tres 
pessoas destintaa e hum so Deoa Verdadeiro em quern eu o Padre Diogo Dias Melgas 
crejo bem e verdadeiramente e em cuja fee protesto viuer e morrer e nella como fiel 
Catollico eapero saluar minha alma, e por me achar enfermo nesta cama ignorando dia 
e hora em que Deos Nosso Senhor sera seruido leuar-me da vida prezente dezejando 
em tudo por minha alma em caminho da Saluacao ordeno e faco este meu Testamento 
pella forma e maneira seguinte: 

Primeiramente emcomendo minha alma a Deos Nosso Senhor que a creo (sic) 
e remio com o presiozo sangue de JESUS Christo na aruore de vera Crus e Ihe pesso 
que pelos merisaimentoa de Sua sagrada morte e paixao queira uzar com ella de sua 
infenita Mizericordia perdoandome minhaa culpas e peccados e leuandoa a gozar da 
Eterna bemauerituranea pera cujo fim a creou e remio e pesso e rogo a Glorioza 
sempre Virgem Maria queira interceder por mim como Jlaj e adeuogada de peccado- 
res ante seu Vnigenito filho pera que minha alma seja recebida e va gozar de sua 
vista, e o mesmo pesso e rogo a todos os Santos e Santas da Corte celistial e em espe- 
cial ao Anjo de minha guarda e ao Santo de meu nome, e aquelles a quem tenho par- 
ticular deuoeao. 

Primeiramente declaro que sou saserdote do habito de Sam Pedro e que son 
natural do lugar da Cuba termo de Beja e que sou filho ligitimo de Afonao lourenco 
Melgas ja defunto e de Maria ferra e me acho com minha legitima erdeira que he 
minha Maj e asim quero que sendo Deos seruido leuarme desta vida prezente meu 
corpo seja sepultado no Alpendre de Nossa Senhora dos Remedioa desta eidade e asim 
deixo se venda huma palangana de prata que tenho e o valor della se me mande dizer 
em missas de corpo prezente sendo hpras e quando nao forem horaa seja no dia logo 
seguinte e declaro que a esmolla de cada huma destas missas seja de tostam. 

Item disce deixaua aos Relligiozos de Nossa Senhora dos Remedios quatro mil 
reis de esmolla da sepultura e juntamente pera huma missa e meio officio. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MVSICOS PORTUGUESES fil 



Item quero se me digam niais sinooenta missas por alguns emcargos e reati- 
tuicoes em que esteja emcarregado sendo a propia esmolla de tostao. 

E declaro que eu sou Irmao da Irmandade do Sacramento de Santo Antao e 
de Sam Mamede e sou Terseiro de Sam francisco e de Nossa Senhora <lo Carmo e sou 
Irmao de Nossa Senhora do Rozario e de Nossa Senhora da pas e de Sam Niculao, 
da Senhora da Emcarnaeao de Sam Mamede, e asim quero que todas Irmandades sobre- 
dittaa me acompanhem quero que os meos Irmaos e Clerigos da Confraria das almas 
de Santa Marta desta cidade me leuem e acompanhem a minha sepultura e me facao 
todos os mais sufragios que custumao fazer aos que sain Irmaos da difta Irmandade 
quero e mando que se me digam mais trinta missas por alguns emcargos ou obrigacoens 
em que esteja obrigado quero que me acompanhe a minha freguezia da see a que se 
dara a esmolla custumada. 

Item pesso e rogo a meu Irmao Ioao Melgas pello amor de Deos se^ja meu 
Testamenteiro e aseitar o trabalho e dar [eximprimenUH com aquelle cuidado e zello 
que delle fio ao disposto neste testamento. 

Item Instituo a meu Sobrinho Joao Melgas ferro estudante neste (sic) uni- 
versidade de idade de treze annos, digo de treze pera catorze annos ou o que se achar 
na verdade por meu herdeir.o, e asim lhe deixo tres quarteis de vinha que estao no 
posto do dijebe e partem com a estrada de villa vicosa. 

Item lhe deixo mais humas cazas em que mora na rua do Espirlto Santo. 
Item lhe deixo huma adega de vinho e azeite com sua alagarissa na travessa 
d) Guerreiro ou do Valente que esta defronte da varanda das mesmas cazas. 

Item deixo ao mesmo meo Sobrinho Joao Melgas Ferro huma caza que esta 
na mesma travessa asima declarada que parte com a mesma Adega. 

Item deixo mais ao ditto meo Sobrinho a minha renda e datta que 
tenho na herdade da Cotelija que sao trinta alqueres de pam trasados e declaro que a 
dita herdade esta na freguesia de Santa Catherina de Semies termo de Beja. 

Item deixo mais ao dittto meu sobrinho hum farregeal que esta no limite da 
cuba no posto de val de sintrao que leua em sameadura quinze alqueres de trigo; 
e declaro que tanto a ditta renda como o dito farregeal se venda pera dar satisfacao 
a duzentos e vinte milreis que se deuem a Irmandade das Almas. 

Item deixo ao ditto meu sobrinho humas cazas em o lugar da Cuba. 
Item deixo mais dois mil reis de foro que comprej na herdade do Perineo 
freguezia de Santa Caterina de Selmes. 

Item deixo todas as diuidas que me deuem e o que se achar em minha caza 
a minhas sobrinhas que de portas adentro tenho depois de compridos os meus legados 
e declaro que toda esta fazenda que deixo a meu Sobrinho Joao Melgas Ferro he 
pera ser sacerdotte e viuer com suas Irmans e esta fazenda nao podera lograr nem 
pessuir o pay do ditto meu Sobrinho em nenhum tempo, e emquanto elle o nao for 
sera seu Tio o Padre Joao Melgas ademenisUador della ou quern elle declarar. 

Item deuo ao Padre Antonio da fonseca huma moeda de ouro Deuo mais 
ao Reitor dos meninos do Cora sinco mil reis digo sinco mil e trezentos e des reis 
Deuo mais na loja de Miguel da Costa tres mil e quinhentos reis e mais hum resto 
que sera o que elles dicerem Deuo a Irmandade das Almas duzentos e vinte mil reis. 

Item declaro me deue Maria Banha Irmaa do Padre Bento Gomes que Deos 
tem quatorze mil reis. 

Item me deue meu Primo o Doutor Francisco Dias Melgas morador na cidade 
de Beja corenta mil reis por hum escripto que tenho na minha mao alem do dote que 
del a minha Sobrinha. Item me deue meu Primo Manoel Afonso de Almada morador 
na Cuba doze mil e quinhentos reis. 

Item declaro que em caza do Senhor Conego Manoel da Silueira de Sequeira 
esta hum prato de prat a empenhado em trinta mil reis. 



82 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



Declare que pera tester dos bens de meu patrimonio me deu minha Maj licenca 
a que asistirem (sic) prezentes por testemunhas o lecenciado o Padre Antonio de Souza 
Manoel ferro e Pedro da Costa e Bento da Silua e Antonio da Silua todos moradores 
nesta cidade e por esta maneira hei este meu Testamento por feito e acabado por 
aer asim minha ultima vontade e por estar falto de vista e nao poder escreuer pedi 
a.- Padre Antonio de Souza morador nesta cidade em a rua do Machede que este por 
mim fizece e a meu Rogo aainace o que eu Sobrido (sic) fis e asinei. Euora aos dea 
dias do mea de Marco de mil e sete centos annos. Asino A rogo do Padre digo do ditto 
Padre Diogo Dias Melgas por estar faJto da vista e nao poder escreuer e por mim 
— o Padre Antonio de Souza. 

AiPROUAgAO 

Saibao quantos este Instromento de Aprouacao de Testamento e ultima vontade 
virem que no Anno do Nascimento de Nosso Senhor JESUS Christo de mil e sete 
centos annos aos des dias do mes de Marco do ditto anno em esta cidade de Euora 
na rua do Espirito Santo nas eazas de morada do Mestre Diogo Dias Melgas Mestce 
da Capella dos Meninos de Coro aonde eu Taballiao ao diante nomeado fui estando 
elle ahj prezente doente deitado em cama de doensa que Deos Nosso Senhor lhe deu 
mas em todo seu prefelto Juizo e entendimento quanto o mesmo Senhor nelle pos 
segundo parecer de mim Taballiao e testemunhas ao diante nomeadas e asignadas 
c logo perante as dittas Testemunhas me foy dado de sua mao a de mim Taballiao 
este seu Testamento que em suas maos tinha o qual disse que fizera pera bem de 
sua alma e descargo de sua consciencia que he o que fica atras escripto pello Padre 
Antonio de Souza que o fizera e asignara a seu rogo por elle estar falto da vista c 
nao poder escreuer e que por este Instromento o aprouaua e retificaua e auia por 
firme e valiozo e por seu solene e verdadeiro Testamento e que por elle outrosim 
anulaua contradezia e reuogaua todos os outros Testamentos Sedullas comdesillos e 
mandos que antes deste haja feito e so este quer que valha e tenha forsa e vigior em 
juizo e fora delle e que failecido elk Testador da vida prezente quer e ha por bem 
que este seu Testamento se dei em todo e por todo a sua deuida execucao e se abra 
por auteridade de justissa, o qual Instromento de Aprouacao de Testamento pedio 
elle Testador a mim que aqui lhe puzece c escreuece o que eu fis a seu rogo quanto 
em direito posso e deuo E declarou elle Testador que sendo cazo que o ditto seu so- 
brinho Joao Melgas Ferro nao seja Clerigo e tome outro estado pasara a ditta he- 
ranca que neste seu Testamento lhe deixa a suas Irmans do ditto Joao Melgas que 
estam em sua eompanhia e declarou mais que deixaua a seu criado Bento da Silua 
des mil reis e hum vestido sendo prezentes por Testemunhas perante quern o aseitou 
todas chamadas e rogadas por parte delle Testador; E declarou mais elle Testador 
que de todas as heransas que deixa ao dito seu sobrinho e sobrinhas nunca podera 
seu pay pesuillas em nenhum tempo e asim o aseitou. Testemunhas que prezentes 
forao o Padre Antonio de Souza que asinou a rogo do ditto Testador por estar falto 
da vista e nao poder escreuer e Manoel Ferro morador nesta cidade na trauessa das 
Gattas e Domingos Teixeira digo e Domingos figueira morador na ditta rua do 
Espirito Santo e francisco da Cms hora estante nesta cidade em caza de Manoel 
Varella Bento da Silua e Jacinto de Pereiros e Antonio da Silua asistentes na ditta 
caza que todos aqui asignarao por suas maos letras e sinaes eu Pedro da Costa Cal- 
deira Taballiao de Nottaa nesta cidade de Euora e seu termo que este Instromento 
de Aprouacao de Testamento fis escreut e asinej.> 

(") Exist* no Arquivo Capitular da Se de fivora, onde foi Conego Dias Velho, 
um missal eborense, cujo trabalho de copia e integralmente devido a este insigne 
autor. No cartorio da Se nem uma so composican sua exists, porem, para verificacao 
'la competencia musical do fiel seeretario de D. Henrique. 



DfCIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 63 



( 5S ) Pareee que o nome deste autor era realmente Dionisio dos Anjos, mas 
Joaquim de Vaaconcelos transformou-o em Diniz. Na origem, o nome e o mesmo, maa 
em portuj^ues existem os dois. 

(Vase, f>b. eil,, pag. 7, 1.° vol.). 

(") Frei Domingoa da Conceijao dedieou-se tambem a trabalhos literarios, que 
ficaram manuacritos. 

(") Acerca deste mestre de capela da catedral elvense, Manuel Joaquim, nos 
Documentas para a Histdria da Musiea da Si de Etvas, que compilou e publicou em 
folhetina no Jornal de Elvae (n.° 53 e seguintes da serie VI), eacreveu o seguinte: 

tfiste eclesiastico era, em 7 de Janeiro de 1712, o escrivao da Confraria daa 
Almas e assinou-se num termo dessa data (Cf. Ldvro dos Irmdos das Almas da 
St.* £fc? de Elvas, fol. 9 v.") pela seguinte forma — «0 P." M." Capp.' D.°* Gomea». 

No livro mencionado seguem-ae muitas assinaturas em que se vg o seu sinal 
por extenao, acompanhado do seu important* cargo. 

Por exemplo: a fol. 29 le-ee — O P." Domingos Gomes M* da Capp.* — a fl. 
4u, ano de 1728, assina com a mesma firmeza de letra — O P* Domingos Gomes do 
Couto — e asaim ate fl. 70, em data de 28 de Novembro de 1754. 

P.' Domingos Gomes do Couto (e assim que passamos a trata-lo) fez, em 
1746, parte dum juri, que aprovou para o sMeatrado da Solfa da V.* de 01iv CB a Ju- 
liao Rozado Tauarea>. 

Como o documento e curioso, vamos transcreve-lo na Integra: 

sProuiaao do Mestrado da Solfa da V." de Oliv.™ em Juliao Eozado Tauares. 

Dom Balthazar de Faria Villasboas por m. ce de Deos e da Santa Se Ap.™ 
Bispo desta cid.* e Bispd.° de Eluaa do Cons.° de sua Magd.' q. ID.' gd." etc. Fazemos 
saber q. atendendo noa a incapassidad." em que achamos a Domingos Fern. 11 " de Pinna, 
q. seruia de Mestre de Solfa na v.* de Oliv.™ deste nosso Bisp. D e q. nao fazia apro- 
ueitamento algum no d.° emprego nem aatisfazia com as obrigacoens do Meatrado e 
querendo ter com elle algua comizeracao em atencao a aua pobreza e aos muitoa annos 
q. tinha seruido o apozentamos com doia moyos de trigo. 

Conuimos o dito Me3trado por vago p.» o prouermos em concurso e p.* vir a 
noticia de todos oa q. se quizerem opor mandamos fixar'Editaea e deputamos p. a Juizes 
da opozi^ao ao P.' D. D " Gomes do Couto M.' da Cap. 1 de nossa See e a» P.' Ignocencio 
de Souza Mialha Mestre da Cap." Real de V." vicosa e feita a opozicao por rigurozo 
exarae em que forao opositores p P.' Manoel Diaa Fialho da V." de Oliv." Juliao Rozado 
Tauarea Clerigo in minoribus da v.* de Castello de Vide e Affonso Ferreira da v.* 
de campo mayor foi julgado e votado pellos dites Juizes por mais digno e idoneo 
p.* a dita ocupacao e Meatrado o dito Juliao Rozado Tauares. Pello q. lhe mandamos 
passar esta nossa Prouisao pella qual lhe fazemos me.' da prebenda e Mestrado da Solfa 
da v.* de Olivenca emquanto nao mandarmos o eontr." emsignara Solfa a todaa as 
pessoas q. a quizerem aprender sem q. por isao possa pedir nem leuar emolum. al- 
gum e fara todas as auaa obrigacoena do Mestrado satisfazendo com ellas intr*mt* 
hauera a renda chamada Prebenda do d." Meatrado com o encargo dos doia moyos 
de trigo p.' o aeu antecessor apozentado e hauera outrosim todoa os proea e preealaos 
q. por direito e costume lhe pertencerem como o ouveram aeus antecessores e man- 
damos a todaa aa pessoas a q. m pertencer tenhao e hajao ao d.° Juliao Rozado Ta- 
uares por M." da Solfa da d.* v.* de Oliv.^etc. Dada nesta cid.' de Eluas sob o noaso 
signal e aello de nossas Armaa aoa outo de Feu." de mil sete centoa e quarenta e 
seia annos. Francisco Pereira eacrivao da Cam." Epiacopal a eacreuy. // Balthazar 
Biapo de Eluas. // Lugar do sello // Reg."* no 1.° da chancellaria a fl. 225 // Tebceira. 
// Pagou dois mil e oito centos rs. // Reg. no 1.° da Cam* a fl. 6 // Pereira. 

(Do livro do Registo d»s provim."* e serventias de todos ot ofieios de gro$a 
t just,* deste Bisp. q. c&messou em o anno de 17iS, a fl. 6 v°). 



64 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



Vamos fechar estas notas sobre o P.* Domingos Gomes do Couto, com o assento 
de obito, pelo qual se v§ que faleceu em 17 de Outubro de 1756. 

iEm o dia dezassette do mes de outubro do anno de mil sette centos e sin- 
coenta e seis, faleceu o Ed." P.* Domingos Gomes do Coitto mestre da Capella desta 
Se morador na rua da feira desta freguesia recebeo o sacramento da Extrema un S ao 
e o da Penitencia sub conditione por se privar dos sentidos nao fes testamento foi 
-sepultado nesta se do q. fis este assento q. asinei. Vig.° Manoel Mis Salgado.> (Do 
Livro de defuntos da Se de 17i2 a 1761, fl. 143 V) (In. Jovnat de Elvas, n.° 78 de 
12-V-1929, e n.° 82, de »-VI-1929). 

( 5a ) Em Santa Catarina de Kibamar, escola que D. Joao V fundou em 1729, 
e que D. Joao Jorge dirigiu proveitosamente, aprendeu Frei Domingos do Eosario! 
autor do vu, gar, e ainda As vezes manuseado Theatrp Ecclesiastic,,. 

fiste livro foi de grande utilidade e quasi obrigatorio para o desempenho das 
funeoes sagradas em Portugal. 

Nasceu sen autor em Santa Maria dos Oiivais e professou na ordem francis- 
cana dos frade3 capuchos em 15 de Abril de 1722. 

Depois dos estudos que fez no referido Colegio, foi transferido para Mafra, 
onde, durante quarenta e urn anos, exerceu as funeoes de cantor-mor. 

Foi celebre este monumental convento pela escola de musica que la brilhou 
e cujo canto, chamado capucho, fazia as deKcias de muita gento, induindo o propria 
u. Joao V. O canto capucho consistia na harmoniza 5 ao do cantochao a tres e quatro 
vozes, realizando uma especie de fahordao. 

Foram estas artimanhas pseudo artisticas e quejandas que estropearam de 
tol modo o velho canto gregoriano ao ponto de o tornarem irreconhecivel. Ainda hoje 
se fazem sentir aquelas influencias que criaram amhiente prejudicial ao canto pro- 
prio da igreja. 

Frei Domingos do Eosario faleceu antes de 1778. 

( B ") Nao encontro em parte alguma outra referenda a este autor Ver 
nota n.° 2. 

-'(«>) Foi revelado ao publico, na noite de 4 de Junno de 1942, no teatro de 
S. Carlos, quando da apresentacao de «.Polyphonia», que Duarte Lobo era alentejano 
c mais ainda, que tinha nascido na vila das Alcacovas, mui perto de fivora, poHtanto. 

Nas notas que enriquecem o programa respectivo escreveu Manuel Joaquim 
que «n» dia 19 de Setembro de 1575 baptizo*se, na Igreja do Salvador da vila de 
Alcacovas, uma crianca, a qual se deu o nome de Duarte. 

Foram seus pais, Eui Gomes Vieira e Isabel Leonardes; o neofito teve por ma- 
drinha Jeronima Vieira e foi seu padrinho Baltasar Lobo, do qual usou o apelido*. 

Tudo pode estar absolutamente certo, excepto, a meu ver, a data apontada, 1575. 

Duarte Lobo, na dedicatoria ao Duque de Braganja, do seu segundo livro de 
Missas, afirma dever ao Cardeal D. Henrique tudo o que sabia de Musica, pois fora 
este quern o mandara estudar no seu colegio de fivora do Espfrito Santo. Chamava-Ihe 
seu o Cardeal, porque o fundara e dotara, mas foi entregue aos padres da Companhia 
de Jesus, que eram os Mestres da Universidade anexa ao Colegio. 

O latim que Duarte Lobo empregou € bem claro e expresso nestes termos: 
*...me quidem acceptum referre quodcumque artis in me est, Lusitaniae Eegi Invic- 
tissimo Henrico... in suo Eborensi Collegio a primis numerorum dementis me jussit 
ir.stitui*. 

O Cardeal foi Arcebispo de £vora pela segunda vez de 1574 a 76. Teria, pois, 
Duarte Lobo, segundo a data atras apontada, urn ano de idade quando o Arcebispo" 
saiu para Lisboa. 

iComo explicar que D. Henrique tivesse influencia no ensino de Duarte Lobo? 
Quando o Cardeal-Rei morreu, ainda aquele contava somente cinco anos de 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 65 



idade; ieomo entender, pois, aquelas palavras de Duarte L6bo? £ certo que a vila das 
Alcacovas pertencia ao senhorio da Casa de Braganea e Duarte L6bo era talvez filho 
de algum empregado ou caseiro dela; ;mas quern se lembraria de una crianca com 
menos de cinco anos? Por^osamente sou levado a crer que aquela data devera aer 
ontecipada. 

Sampayo Ribeiro (in Veidente, cronica De Musiaa, Nov. de 1940, n.° 31, 
vol. XI) deu-o, por hipotese, nascidcr entre 1565 e 1570, e parece-me que tal calcuio 
deve bater certo. 

;N5o se tratara de err© de copista, que, distraido ou apressado, escreveu 
setenta cnde deveria ter e3Crito sessenta? A data de 15G5 parece muito viavel e 
antolha-se-me que resolveria o problema. 

Acresce a isto que Duarte Lobo foi discipulo do Padre Manuel Mendes, cujas 
aulas teriam tido comeco por alturas de 1560 (cf. Ocidente, n.° citado). 

Admitindo que ingressavam rvo colegio aos nove anos, segue-se entao que teria 
ido para fivora em 1574, ano em que D. Henrique estava a testa do Arcebispado. 
Uma coisa e certa porem. Duarte Lobo nao morreu com 103 anos, como tern sido 
afirmado por todos quantos se referiram ao grande contrapontista, Jose Mazza iiicluso. 

Teve a dita de encontrar a certidao do obito, Mario de Sampayo Ribeiro, que 
anunciou jubilosamente ter Duarte Lobo morrido no dia 24 de Setembro de 1646, tres 
anos mais tarde do que a data indicada por Joao Soares de Brito no seu Theatrum 
Lusitaniae IAtteratum, manuscrito existente na Biblioteca Nacional. 

Duarte Lobo e considerado o mais profunda teorico do contraponto em Portu- 
gal nos scculos XVI e XVII. f: porem, para se notar que este juizo ainda e susceptivel 
de sofrer mudan^a com o estudo minucioso das obras completas doa maiores vultos da 
nossa velha polifonia. 

A proposito de Duarte Lobo ter sido Conego Quartanario, vou transcrever 
documento que faz luz sobre o que vinha a ser tal dignidade. 

certo que o foi na S£ de Lisboa, mas nem por isso o documento perde inte. 
resse, ao que me parece, porque creio que o que se dava na Se de fivora, dava-se na 
da capital do Reino. 

O documento k talvez do ano de 1589 e contem transcrigoes de outros anterio- 
res, cujas datas vao indicadas. 

Dele se fica sabendo que a Se tinha, ao tempo, um 6rgao muito grande e muito 
bom e, alem disso, tinha ao seu service charamelas, baixoes, e corneta, todos assala- 
riados e pagos pela fibrica da mesma. E para o orgao havia um organista mui s&bio, 
que recebia g rosso estipSndio. 

A data de 1589 esta acrescentada no manuscrito por mao alheia e escrita a 

lapis. 

Trata-se de documento do ultimo quartel do aeculo XVI, e aquela data e verc- 
simil, pois que em 1589-1590 teve comeco o terceiro quadrienio do governo do grande 
Arcebispo D. Tentonio de Braganca, que entrou em fevora a 7 de Dezembro de 1578. 

(Ha nesta Igr.» Metropolitana vintecinquo prebedas e oito dignidades das 
quais a principal post Pontificalem he o Dayao a seg."» o Chantre, a 3." o thesoureiro 
mor. a 4." o M." Schola. a 5." o Arcediago do Bago. 6. o Arcediago da sexta. 7. o 
Arcediago de Laure. 8. a Arcediago de Ouriola. 

As ditas 25. Prebendas estao repartidas namanr.' segutnte. hfia tern annexa 
aduitam... (?) apl." o Dayao outra damesma manr.' o Chantre, outra esta annexa 
inperpetuum ao collegio do Spirito Sancto dos P." dacomp." desta cidade outra esta 
repartida em quatro quartanarios q' seruem de c/>me;ar as horas edizer as missas 
mayores pellos Capitulares ausentes, ou legitimam." impedidos. Ha mais outro quar- 
tanario q' serve a conesia annexa ao collegio do Spirito S.'°. 

As prim.™' quatro dignidades tern cadahu sua Prebenda. 



« DTCIONARIO BIOGRAFICO DE MCSJCOS PORTUGUESES 



Duas Prebendas das sobreditas 25 se extinguirao e partirao em quinze Ba- 
ehalarias com obrigacao de curar e aministrar os sacram."" e seruir no choro e altar. 

E assy mais se extinguio outra Prebenda e repartio em des Capellanias da 
meama See com oa aobreditos eneargos. 

Outra Prebenda esta repartida. ss mea q' eata annexa ad uitam ao Arce- 
diago do Bage emea ao S.' n officio. 

Outras duas estao diuididas em quatro meas prebendas e assy ficao ao todo 
cinquo conegos meyo prebendados som." e onze conegos com Prebendas inteiraa. 

E assy estao repartidas oje todas as ditas 25. Prebendas do Cabido no qual 
e lugares publicos as dignidades precedem aos Conegos pella ordem q' fica dita. 

Os Conegos e conegos meyo Prebendados precedem bus aos outros conforme 
as suas antiguidades na confirmaj;ao do Beneficio de cada hu sem auer algua diffe- 
renca entre os conegos Prebendados e meyo Prebendados. 

Todos os ditos conegos precedem aos quartanarios e os quartanarios aos Ba- 
chareis e os Bachareis aos Beneficiados e huns e outroa cada hum en sen grao prece- 
dem pella antiguidadc da confirma^ao de sens beneficios. 

Ha mais doua Capellaes aq' chamao da fabrica com obrigagao de missa 
quotidiana por defuntos q' deixarao fazenda a dita fabrica e de cantar no choro. 

E outros dous aq' chamao altareiroa e sao sacerdotes (?) e tern cuidado do 
altar mor. e do cruzeiro ese pagao da fabrica. 

E outro a que chamao capellao das capellaa q' tern cuidado daa mais capellas 
da see aquem tambem paga a fabrica. 

thesoureiro mor he obrigado ater a sua cuata sempre doua clerigos hum 
q' sirva de ter cuidado das coozas da sancrestia e dar as guizam."" necessarios e 
cutro pera ajudar no q' maia for necessario e ter mao no liu.° aos sacerdotea. 



Tern mui bom choro de bordo nouo, hum orgao m.'° grade e m.'° bom e outros 
nienos e hum Realeijo. 

Tern Charamelas, Baixoens, Corneta obrigados a see com aeu stipendio q' se 
lhe paga da fabrica. 

E muy boa Capella dediversos musicos e cantores obrigados a meama see q' 
se pagao da fabrica della*. 

A margem le-se: «E hum organista muy sabio com grosso stipendyp>, 

Rela$ao do Estado da Igreia elborense q.d." o II."" sfir Areebp." de Euora. 

aauisitainda limina tpto. pelU> terceiro Quadrienio. Cod. -■ '- n.° 53 da Biblioteca de 
fevora. 

E, ja agora, mais uma noticia, a titulo de curiosidade: 

«Mandamos q *os cantores desta nosa See nao vao cantar a parte algu os 
dias q' tivere de obrigacao nellfl porq' se achou q' niao auia faltas. 

(Duma carta de D. Teotonio ao Cabido e mais gente da Se de 18-IV-1582). 

Porque havia dignidadea e conegos que por qualquer pretexto fugiam a obri- 
ga;ao da Missa Conventual obrigatoria e eram substituidos peloa quartanarios, D. Teo- 
tonio, na Viaita.$ao de 1584, proibe que algum quartanario ae preste a celebrar aque- 
las Missas sem licenga expressa do zeloao Prelado sob pena de «mil ra per cadavez>. 

f-) £ mme que nao deseubro em parte alguma. Vide nota n.° 2. 

(as) No catalogo da Livraria de D. Joao IV, reeditado por Joaquim de Vas- 
concelos, aa composicoes de Estevao de Brito ocupam parte da pagina 246 e toda a 
seguinte no «aixao 28 n.° 697*. 

( ai ) Ha inexactidoea na noticia. a capelao-mor da Corte de Madride era, ao 
tempo, D. Jorge de Ataide e nao de Almeida (cf Vieira, ob. eiU, pag. 279, 1.° vol. e 
Vase., ob. cit., pag. 47, 1.° vol.). 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 67 



A data do fateeimento de EfitevSo de Cristo e posta por Barbosa Machado 
cm 1613 no auplemento a Bibliatheca Lasitana, tolno 4.", pag. 144. 

(") Este grande mestre do contraponto em Portugal foi riscado dos livros bio- 
grafieos dc musicos depois da publicagao da obra, que varias vezes ja citei: Os Mur- 
sieos Portugueses, de Joaquim de Vaseoncelos, impressa em 1870. 

Estevao Lopes Morago estudou em fivora, se nao era mesmo eborense, e foi 
discipulo de Filipe de Magalhaes. 

fi urn nome glorioso que foi deaencantado em Viaeu pelo incansavel musicoLogo 
sr. tenente Manuel Joaquim. 

Sobre este extraordinario artista, cujos motetos chegam a atingir as raias 
da beleza aublimada, deve aquele senhor dizer-nos, em futuro trabalho, coisa3 muito 
curiosas e totalmente ineditas, na maior parte. Eatevao Lopes Morago ainda vivia 
em 1630. Foi licenciado em Artes pela Univeraadade Eborense. Eateve em Viseu desde 
1599 a 1628. 

(66) p r ocurei informar-me de quern seria este P.* Eatevao e dizem-me de Elvas, 
que existem la na Biblioteca Piiblia Hortensia algumas miisicas da airtoria do P.* 
Eatevao Joaquim Eelvado Vidigal de Negreiros. 

O Te-Deum a que se refere Jose Mazza nao existe, porem; mas atribuido aquele 
autor ha o seguinte: Dixit Dominus, salmo e uma Lamentacao para, 6.» /.», ambaa 
as coisas a quatro vozes. 

( CT ) Eatevao Eibeiro Frances foi discipulo de Pedro Vaz RSgo, o Mestre de 
Capela da Se de fivora, que sucedeu a Diogo Dias Melgas. Foi talvez condiscipulo de 
Alexandre Delgado Janeiro, e digo talvez, porque se bem que ambos f&ssem alunos do 
mesmo mestre, ignoro ae o foram ao mesmo tempo. 

Ribeiro Frances escreveu uns responsorios que, segundo hipotese de Sampayo 
Ribeirc-, seriam da Epifania. (Cf. A propdsito de Alguns Documents sobre Alexandre 
Delgado Janeiro, in Hist6ria, vol. II, serie a) 1935, pag. 7 e seguintes. Vide a nota 
n.° 9, respeitonte a Delgado Janeiro). 

( 6S )Frei Filipe da Conceicao pertence ao seculo XVII. No catalogo da Livraria 
de D. Joao IV, figuram tres vilaneieos de sua autoria. 

Filipe de Magalhaes foi talvez o maia inspirado musico que tivemos nas 
eenturias de 500 e 600. No estilo em que escreveu, o da Escola-Processo Eborense, con- 
traponto puro de escrita horizontal, atingiu o grau maia elevado na expressao, que 
soube transmitir as notas que lhe saltavam do cerebro para o pentagrama. Foi dis- 
cipulo, em fivora, do Padre Manuel Mendes. Em 1500 era assalariado da Se de fivora, 
onde ganhava 3$000 reis anuais, suponho que como cantor, (cf. Antonio Francisco 
Barata, fivom antiga, pag. 47). 

Na celebre carta que o P.* Tome Alvares dirigiu a Baltasar Moreto, carta 
que foi fotografada no Museu Plantin, em Antuerpia, onde existe o original, e repro- 
duzida fielmente na pagina 45 e aeguinte de A Musico. em Portugal nos secvXos XVIII e 
XIX, por Mario de Sampayo Ribeiro, faz-se referenda ao P." Filipe de Magalhaes. 

Estas obras deixou Manoel mendes a Phillipe de Magalhlea Capellao de 
S. Mg. 4 ' E nesta Cap." mestre de musica aeu discipulo primogenito no saber, her- 
deiro nos beneficios, lugar, E spiritu, o qual tambem tern trabalhado em muitas 
( com posi goes) q' dao prego as do aeu meatre>. 

A carta e datada de 5 de Marco de 1610. 

Por ela ae ve que foi Filipe de Magalhaes o discipulo dilecto e herdeiro dos 
livros de Manuel Mendes. 

Em 1623, no mes de Mar?o, sucedeu a Francisco Garro no lugar de Mestre 
da Capela Real e foi aposentado por D. Joao IV em 15 de Maio de 1641. A aposen- 
ta;5o conatava de 80 mil reis de ordenado e 5 moios de trigo, podendo dispor de 
mais dois que tinha de tenca em favor de sua sobrinha Maria de Passos. 



68 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



Antes de ser nomeado ja ensinava aos ministrios da Capela, musica de can- 
tochao e canto de orgao e tinha cuidado da estante na ausencia do mestre. O alvara 
que o nomeia diz que atende nao so a estas circunstaneias como ao notavel talento 
e habilidade que tern para a musica. Segundo Manuel Joaquim, em Marco de 1648, 
ainda Filipe de Magalhaes vivia. 

«Foi o mais reputado compositor do seu tempo, em Portugal, e a sua obra 
subjuga a de todos os seus ilustres contemporaneos, porque nenhum outro logrou 
alingir tao alto grau expressivo. 

Esta posigao foi defendida publicamente nos varios concertos que tPolypho- 
nia> tem dado desde Junho de 1942, e em que se teem inclufdo pejas do Padre Filipe 
de Magalhaes. 

Deste insigne Mestre, encontraram-se, em 5 de Maio de 1931, na Se de Lamego, 
dois grossos volumes de musica religiosa. Ambos eles sao impressos, mas ja nao teem 
f rontispicios ; no cimo de cada folha ve-se o nome iPhilippi Magalanici>, indicando 
a autoria. O primeiro era o das Missas, cujo rosto diz: 

■tMissarum liber cum antiphonia Dominicalibus in prineipio et motetto pro 
defunctis in fine. — Auctore PhUippo Magalanico Lusitano in Capella Regia Musieet 
praefecto. Dioatus ad Pkilippum Regent Hispaniarum Cuius Dominia Quartum et 
PortugaUiae Tertium — Ulissipove. Ex officina Laurentij Craesbeeck Regi Typo- 
graphy Anno Domini MJX?XXXI>. 

Igual a este ha outro exemplar na Se de fivora, que ja Ernesto Vieira vira, 
e outro na Biblioteca da Universidade de Coimbra. 

O outro volume, de que se nao conhecia exemplar, foi publicado em 1S36 e 
corresponde ao livro de Magalhaes, que Barbosa Maehado meneiona com o titulo de 
«Cantica Beatissima Virginis. — Ulissipone apud Laurentium Craesbeeck, 1636>. 

Este livro e dedicado ao Duque de Braganca D. Joao, II do nome, que passados 
quatro anoa era rei de Portugal. Cf. pagina 16 dos Subsidies, cit., do Dr. Gongalo 
Sampaio). 

(™) Segundo Joaquim de Vasconcelos (06, ciL, 1." vol., pag. 4), Frei Fernando 
dt. Almeida foi discipulo de Duarte Lobo. 

('■) Nao conheco outra noticia deste autor. (Vide nota 2). 

( I! ) Gste autor esta nas condicoes de tantos outros, que Mazza refere e que 
seriam muito notaveis em seus dias, mas cuja fama lhes nao sobreviveu. (Vide 
nota n.° 2). 

( :s ) £ este esquecido Mestre urn dos melhoies compositores Portugueses de 
Setecentos; e, incon testa velmente, o primeiro da primeira metade daquele secul/D. 

Francisco Antonio de Almeida foi mandado a Italia aperfei^oar-se na Arte 
dos Sons, e digo aperfei coarse, porque tudo leva a crer que assim fosse. 

Em 1722, cantou-se em Roma, na segunda Dominga da Quaresma, a sua ora- 
toria II pentimento di Davidde (o arrependimento de Davide). Ora, nas palavras que 
precedem o libreto, que Andre Trabucco compusera, se diz que se nao deixe de admi- 
rar o talento do jovem compositor, tanto mais de admirar, quanto ainda e hospede da 
lingua, que so ha poueo tempo comecou a aprender. 

Se tivesse ido para Roma sem preparaclo suficiente e razoavel, nunca se 
teria abalan;ado logo a um trabalho de folego como e o duma Oratoria. 

Ignoram-se as parti eu la ridades e ate as linhas gerais da biografia deste ta- 
lentoso musico portugues. 

Supoe-se que em Roma tenha tido por mestre Alexandre Scarlatti. 

titulo completo da Oratoria foi publicado, em 20 de Maio de 1887, pelo 
Jomal da Manhd, do Porto. £ do teor seguinte: 

// Pentimento di Davidde, eomponimento saero de Amdrea Trabucca Aceade- 
mica raviwato di Benevento, detto fra gli Arcadi di Roma Albiro Mirkunsiane, posto 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 69 



in musica dal Sig Francesco Antonio d'Almeida Portkoghese e da cantarsi nella se- 
conda iD'omenica di Quaresma. nella Ven. Chiesa de S. Girolamo della Carita, At Re- 
verendissimo Padre Diego Curado, della Congregazione dell'Oratorio, C'onsultore del 
Tribunate del S. Ufxzio n'e Regni di Portogalo. 

In Roma, por Antonio de Rossi, nella strada del Seminario Romano, veei.no 
della, Rotonda, 1722. Com licenza de' superiori. 

No prefacio — a Chi legge — exalta-se o virtuoso tahnto del Giovene Com* 
positore della Musica (cf. pag. 27 in Subsidios para a Hist, de Musica em Portugal, 
de Sousa Viterbo). 

Ka autorizada opiniao de Mario de Sampayo Ribeiro — apud, A Musica em 
Portugal nos siculos XVIII e XIX, pag. 26, — as melhores paginas de Francisco 
Antonio de Almeida nao temem o conf ronto das melhores de Handel e mesmo de Joao 
Sebastiao Bach. 

Infelizmente, como observa o mesmo erudito Autor, so quando um estranjeiro 
qualquer disser isto mesmo ao3 Portugueses em torn de li^ao ou mesmo de rapida 
entrevista se acreditara no altissimo merecimento deste e doutros grandes Artistas 
Portugueses. 

-"('*) Contra o que Mazza afirma, na peiigada de D. Nicolau de Santa Maria, 
este famoso Mestre de Capela do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra nao era portu- 
gues de nascimento, nem castelhano de apelido. 

Era natural das proximidades de Cidade Eodrigo e veio para Portugal exercer 
o mestrado da Capela da Se da Guarda, de onde transitou para a de Coimbra, no desem- 
penho de cujas funcoes se manteve pouco tempo por vestir « habito doa conegos re- 
grantes. Morreu em Fevereiro de 1597, com perto de quarenta anos de professe. Para 
mais circunstanciada noticia consulte-se Mario de Sampayo Ribeiro, A Musica cm 
Coimbra, paginas 16 e 17. 

( ,s ) Grande celeuma se levantou nas arraiais lusos e castelhanos sobre a na- 
cionalidade de Francisco Correia de Araujo .Apesar da refrega, o problema ficou, e 
parece-me permanecer insoluvel. 

Em qualquer dos casos, on fosse portugues ou espanhol, o certo 6 que foi um 
doa mais notaveis musicos da Peninsula. <A sua obra constitui hoje um exemplar 
curiosissimo para a historia da musica no seculo XVII». 

Conservam-se em Lisboa dois exemplares da obra de Francisco Correia de 
Araujo, um na Biblioteca Nacional, outro na do Palacio da Ajuda. (cf, pag. 44 e 
seg.'" do 1." vol. da ob. tit. de Ernesto Vieira). 

(7sj Francisco Guerreiro e o mesmo de que trata a pega n." 6, por mim fiel- 
mente reproduzida na intnodugao a Sste Dicionario de musicos. Que Guerrero nao 
era de Beja, foi esmiu^ado por Ernesto Vieira (ob. eit, 1.° vol., pag. 477). 

Francisco Inacio Solano foi teorieo de altissimo valor, cujas obras ainda 
hoje sao proveitosaa para quern as consulta. 

Os seus dados biograficos sao muito incertos. Nasceu por alturas de 1720 e 
faleceu a 18 de Setembro de 1800, como consta do livro 11, fl. 183, verso, dos 6bitoa da 
freguesia de S. Jos 6 da An unci a da de Lisboa. 

No se-u tempo gozou de justa e merecida consideracao pelo seu real valor. (Cf. 
pag. 332, ob cit, Ernesto Vieira, 2.° vol. e pag. 39 de A Musica em Portugal, de Ma- 
rio de Sampayo Ribeiro). 

{*■) titulo da missa, segundo Barbosa Machado, era Scala Aretma. 

('") Vide nota 2. 

( so ) Vide noxa 2. 
— ( 81 ) Dr. Francisco Lopes nao e citado por mais ning-iiem. 

Em 5 de Outubro de 1581, porem, esteve presente a elaboracao dos Estatutoa 
dos Bachareis da Se de fivora, em companhia de Coeme Delgado e de Manuel Mendes, 
um tal Doutor Francisco Lopes, que me palpita ser aquele a quern Mazza se refere. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MVSICOS PORTUGUESES 



Em 1606 ainda vivia, pois naquelo data encontrei o seu nome fazendo parte 
das hachareis da Se Eborense. 

Quanto a afirmacao, de ter sido o primeiro organisrta, e que fico de pe atras, 
pois em em 1576 era ja tangedor do &rgdos da Si urn tal Manuel Barbanca. (Cf. &vvn 
Antiga, pag. 213, por Antonio Francisco Barata). 

lHaveria ja nesta altura mais que um organista? Parece-me que nao, baseado 
eta documentos que inseri nas notas sobre Duarte Lobo. (Vide nota 61). 

fi para notar que Manuel Barbanca era leigo, pois em *4 de Agosto nasceu 
Maria, filha de Manoel Barbanca,... Padrinho Manuel de Coadros, Conego e Arcedia- 
go do Bago da Se). (Cf. ob. tit de Antonio Francisco Baralta, pag. 213). 

Em 1591, era tangedor dos orgaos da Se Francisco Bantao, a qusm D. Teoto- 
nio de Braganja fez merce de 1J500 reis no dia 11 de Junho do referido ano. 

Eis o teor da merce : 

«Dom Theotonjo de Braganca Arcebpo de Evora E perpetuo admimistrador 
(sic) das Rendas da obra da See mando a vos L."" Aluaro Tinoco que seruis de R.°' 
das ditas Rendas que deis a fran. bantio tangedor dos organs mil e quinhentos ra. de 
qne faco merce auendo respeito ao bom seruico q' faz a dita see Eporesfca eseuconhe- 
cim.* feito pelo escrivao de vosso cargo mando vosserao levados Em conta; Ev. ra sob 
Binal do L."° Diogo Nunez fig." nosso secret.™ Egovernador por nos do nosso Arce- 
bpado aos xj de Junho Fran." vogado a fez de 1591>. 

Bibl. de Evora, — n.* 81. 

E ja que falei do Bacharel Dr. Francisco I^opes e inseri document© de D. Teo- 
tfinio de Braganca, ajunto mais o segoiinte, que e prova da mao de pulso daquele gran- 
tie entre os maiores Arcebispos da Metropole Eborense. 

D. Teotonio, Arcebispo de fivora, verificando o desleixo dos bachareis e dos 
beneficiados no servico do coro, houve por bem ordenar e mandar sem virtude da 
santa obediencia e sob pena de exeomunhao mayor, que daquy per dianlte nenhu Ba- 
charel, nem Beneficiado da dita see, nem Altareiro, seja Prioste, fora da see nemitenha 
outra, occupa^ao da fazenda alhea, que lhe possa estoruar o ditto seruico da Igreja, ne 
seja veador nem tenha algu outro officio emcasa de seculares, nem seriio cantores 
nesta nossa See, e auemos por escusados os que ora o sao, e mandamos q' nao siruao 
mais os dittos cargos, e Mandamos a Antonio Cordr.° Eecebedor das Eendas da fabrica 
da ditta See que nao acuda aos dittos cantores co cousa aigua de seus stipendios, e or- 
denados da Datta desta emdiante. 



Dada em Evora a 17 de fevereyro de MDLXXXij 

Bibl. de fivora — n.° 50. 
2=7 

(«) cNa igreja de Santa Cruz, de Braga, existe um passionario manuscrito, 
em muito bom estado, constituindo quatro volumes, cada um dos quais corresponde a 
uma voz, no formato de 54 X24 centimetros, belamente encadernados em carneira, 
com dourado nas faces e lambada. O frontisplcio desta obra, egual em todos os vo- 
lumes, e cuidadosamente desenhado a duas cSres e contem o seguinte: sPassio Domini 
Nostri Jesu Christi in numeros digesta Alternisque vocibus quatuor decantanda, seu 
potius deslenda. Opus Francisci Ludoviei Musices Praepositi in Cathedrali Sedi Uli- 
siponensis studio lucubratum ad usum Sodis Portuensis*. *Do uso do P." Leao de 
Araujo, e Sylva, Anno de M-DOCXLVT>. 

Como se v6, este passionario deve ser uma copia, feita em 1746, de outro que 
existia na Se do Porto, o qual tambem deveria ser uma copia do existente no arquivo 
da Se de Lisboa, mencionado por Ernesto Vieira, com Utulo quasi egual e com a 
meama dedicator! a a ■rChristo Nosso Senhor Crucificado>. 

A paixoes sao quatro, pois quatro foraro <oe evangel iatas « nfio dnco, como 



DICIONARIO BlOGRAFICO T>E MCSICOS POItTUGVES&S li 



poderi inferir qualquer pessoa menos versada em face do modo por que o Or. Cton$»lo 
Sainpato explanou o conteiido das manuscritos sobreditos: 

I — Processio et Passio in Dominica Palmarum 

II — Passio secundum Matheum 

III — Passio secundum Marcwm 

IV — Passio secundum Lucam • 
V — Passio secundum Joanem 

A Paixao da Dpminga de Ramos e a paixao segundo a versio de S. Mateiil, 
fonde o primeiro niimero indicative deve aplkar-ae edmente a procissao de Ramoa. 

(Cf. paginas 24 e 25 de Stibsidios para a hvttoria dps Mvsioos Portugueses, 
pur Goncalo Samnaio). 

Ha ainda um outro musieo com o rcesmo iyime, que foi cantor da Capela 

Real, nos fin3 do seculo de 1500. 

Em 1536 devia ser ja muito idoso, pois nesta data, e aos 13 de Marco, D. Fi- 
lipe rancede-lhe a aposentacao com 47$0O0 reis em cada ano, em dias de sua vida 
que com 18S000 que ja recebia perfez 65$090, e ficava recebendo tudo isto sem eii- 
cargos nenhuns na dita capela. Donde se pode inferir que prestou bons servi;os, 
como consta da seguinte carta regia: 

<Dom Sebastiao ee Aos que esta carta virem faeo saber que auendo respeito 
ao aerugo que me faz em minha capella Francisco Luis, meu cantor, e por lhe fazef 
merce, ey por bem e me praz que elle tenha e aja de minha fazenda do primeiro dia 
de janeiro do anno que vem de seteta e sete em diante dez mil rs cada anno em 
quanto seruir em minha capella, que lhe serao pagos com certidao do mestre da ca- 
pella de como seme, e portanto mado aos veedores de minha fazenda que Ihos facao 
assentar do L.° della e deapachar em cada hum anno em parte onde aja delks bom 
pagamento e por quanto lhe fiz esta merce dos ditos dez mil rs a xxbiij dias dabril 
deste anno presete de seteta e seis e por eSte padrao os comeca a veneer do primeiro 
de janefro do anno que vem em diante como nelle he declarado lhe madei dar aluara 
para Rui Gomez da Carualhosa, meu thesoureiro mor, lhe pagar seis mil setecentos 
quoreta e noue r3 que lhe montarao dos ditos xxbiij dahril ate fim de dezembro do 
dito anno, e por firmeza de todo lhe madei dar este por mym asinaido e asellado com o 
teen sello pendente. Antao da Rocha o fez em Lixboa a quatro dias de mayo anno do 
nascimento de nosso Senhor Ihu Xpo de jb'lxxbj. E eu Andre Pirez o fiz escreuer*. 
(Torre do Tombo, C'hancelaria de D. Sebastiao e D. Henrique, ,t>oafdes, liv. 38, fol. 7— 
in Subsdios para a Hist, da Musica em Portugal, por Sousa Viterbo, pag. 337 e seg.). 

Em dois de Maio de 1579 e D. Henrique que faz merce ao cantor Francisco 
Lufs, de tres moios de trigo cada ano cem dias de sua vida, assi como tern os outros 
earrtores, os quaia comecara a veneer de janeiro deste anno presete de b'lxxix em 
diante*. 

Em 1583, D. Filipe, atendendo aos bons services de Francisco Luis, da-lhe 
dc ten;a anual mais oito mil reis, eque lhe serao paguos com certidao do capellao 
mor e em sua ausemcia do adayao de minha capella de como serue autuallmente, em 
ella, e sendo caso que em alguu tempo adoeea de ifermidade ou velhyse que lhe im- 
pida o seruieo de minha capella, ey por bem que os ditos biij mil rs' de temca lhe sejao 
paguos com ha dita certidao de como peilia dita causa deyxou de seruir*. 

Em 1S96, o rei que govemava em Portugal entende, por bem «que por seu 
falecimSto (Francisco Luis) possa teStar dos tres moios de triguo que tern de tenca 
em cada hum anno em sua molher ou filhos so mente que elle mais quizer e nao 
em outra pessoa algua pera que a pesoa que pella dita maneira elle nomear oa aja 
cadaanno em sua vida*. 

No mesmo ano de 1596, em Abril, D. Filipe, lembrando-ae ainda dos bons ser- 
vices de Francisco Lufs, entende ppr melhor ilhe fazer merce de o auer por escuso do 
seruiso della e de o a po use tar com coreta sete mil rs de tenca em cada hum anno em 



7B DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 

dias de sua vida pera que com dearito mil rs que ja tem aja sesenta cinquo mil rs, e 
que tudo vencera sem embargo de nao auer mais de seruir na dita capella e os come- 
cara a veneer de dezoito diaa de mes de marso deste anno presets de noueta e seia 
em diante>. 

Sousa Viterbo, in Subsidies, etc., pag. 338 e seg."\ 

( 8S ) Francisco Manuel Mariz e Padre Francisco Manuel, somente, sao nomea 
que nao so nos nao dizem nada, como talvez possam designar apenas uma tinica 
pesaoa. 

( Si ) tDeste mestre de capela sabe-se que nasceu em fivora, sendo seus pais 
Manuel Martina e Angela Freire; estudou no aeminario desta cidade, para onde entrou 
em 20 de Julho de 1629, sendo discipulo de Bento Nunes Pegado, compositor portuguea 
com obraa mencionadas no Catdlogo da livraria, de D. Jotio IV, preewso documento 
para quem queira e possa um dia escrever a Historia da Masica em Portugal. 

Os biografos do P." Francisco Martins desconheceram as particularidades 
biograficas doa doeumentos por nos enoontrado3 na Biblioteea Publica de Elvas e 
que a seguir transcrevemoa : 

Vaseo martins segurado depositario na fabriea da nossa se pagara por contn 
delta des mil rs a nossa m.' da capella, dog quais Ike fasemos m. c " p.* elle repartir 
com os mais musieos pello trabalho desta suma.na s.'* prpxima passada, e com sen re- 
cibo Ike eerdo levados em eonta, eluas maio 6 de 63S. 

a) Peg ado 

Seguem-se ag assinaturaa do Chantre, Arcediago, Mestre escola, e a seguir; 

Liuranga de des mil rs de q V. S. mandou fazer pagam.'" on, m.c° ao m.' da 
eapella e mais musicos pello trabalho q tiuerao nesta sumana s.'» proxima passada, 
p." V. S. ver e assinar 

10000 

No verso, 18-se, numa caiigrafia admiravel: 

Recebi os des mil rs eonteudos na liuranga atras, os quais me entregou o 
enor Vasco Miz Segurado, Eluas 6 de Mayo de 666. 

O Mestre da Cappela 
a) FV. CQ Miz 

* 

Vaseo Miz Segurado depozitario da fabriea de nossa s.'* see dara por eonta 
della des mil rs. ao Mestre da Capella p.' repartir cam os muzieos de q Ike fizemos 
m. pelo trabalho da feata do Natal e com ssu recibo Ike serao leuados em conta. 
Eluas i'6 de janr.' de 66S. 

a) Tarrinho 

Seguem as assinaturaa do Chantre, etc., e a seguir: 

LAuranca de des mil rs. q V. a." manda dar aos muzieos pelo trabalho da 
feata do Natal p.» V. s.'* ver e assinar. 

Sao 10000 

No verso: 

Recebi os des mil rs eonteudos na liuranga atras eluas 17 de jan." de 668. 



Mestre da Capella 
a) Fr. ea Miz 



DIC10NARI0 BIOGRAFICO DE M&SICOS PORTUGUESES .73 



Vasco iTita Segurado depozittario das npssas fabricas dAra por conta da noasa 
s' m see ao Mestre da Cappella des mil rs. p. m mandar a Euora a pessoa q hade concertar 
ku liuro de Cantoria e acrescentnr o q Ihe falta e an seu recibo Ike eerao leuados cm 
conta. Eluas, £2 de janr." de 668. 

a) Tarrinho 

A seguir, aa assinaturas do Chantre, Arcediago, tesoureiro-mor, e depois: 

Liuramca de des mil rs q vs.'* manda dar ao AT.* da cappella para concerto 
de hu liuro de cantoria q se fes em Euora p.* vs.'* ver e assinar. 

Sdo loooo 

Nio verso e na mesma esplendida oaligrafia: 

Recebi os des mil rs conteudos na liuranca atras p. K o effeito q o R. Sa Cabbido 
ordena. Eluas 22 de jaair." de 668. 

O Mestre da Cappella 
a) Pre." Mix 

* 

Vaseo Mix Segurado depozits' da fabrica da nossa see pagard por eonta da d.* 
fabrica ao P.' Franc. Miz M.' da Capella des mil rets, pela mc.' que Ihe fazemoa peilo. 
Somana S. ,m p.* si e mais muzicos, e con seu recibo Ihe serum leuadps enoonta. 
Eluas i7 de jutho de 668. 

a) M.'> de Pinko Ferrao 
Seguem-se as assinaturas do De&o, Tesoureiro-mor e Chantre e depois : 
Sam iOOOO 

Liuranca do p.' Franc.' Miz M.' da Capella e mais muzieos a quern V. S.* manda 
pagar des mil rs. peUo trabalho da Somana S.'* p.* V. S.* ver e assinar. 

No verso: 

Recebi do are Vasco Miz Segurado, os des mil rs contheudos na liuransa atras. 
— Eluas 11 de jan." de 669. 

Mestre da Cappella 
a) Frc." Mis freyre 

Vasco Miz Segurado depozit." da fabrica da nossa see pagard por oonta da 
mesma a Antonio Ferreira Bn. A " q foi nesta S.'* See e organista na jg.' Parochial do 
Saluador tres mil rs pellos tres mezes Jan.'" feur.° e marco deste ano pres.'' e con seu 
recibo Ike seram leuados enconta. Eluas 2 de Agosto de 669. 

a) M. de Pinho Ferrao 
Seguem as assinaturas do Defio, Chantre e Mestre-escola, e depois: 

' - ■ 

" Sao S // 

Liuranca do Bn. io An." Frr. m de tres mil rs. q V. S.* Ihe manda pagar do seu 
■ordenado de organista da jg" do Saluador 

P.» V. S. % ver e assinar 



7* DICIONARIO BIOGRAFICO DE MVSICOS PORTUGUESES 



No verso: 

Reeebi pello beneficituh An." Ferreira organiata do Salvador os tr«« mil re, 
contkeudos, rta IhtranQa atras e por verdad* fit est* e me asiitei. — eluas tl de Agot- 
to de 669. 

O Mestre da Cappella 
a) Frc. a Miz Freyre 

Pela leitura deste titnlo, v§-se que a Igreja do Salvador tinha, na segunda me- 
tade do seculo XVII, o seu organista, que era pago pelas renda3 da Fabrica da Se. 
Na s£culo XIX ainda existia fete cargo, poia temoa noticia de artiatas que tiraram a 
sua pro vis So. 

Voltando ao Padre Francisco Martins — e so com este nome que e apresentado 
por Joaquim de Vasconcelos, Ernesto Vieira e outros dicionaristas, que, naturalmente, 
teem feito os seus artig03 sobre o que Barbosa Machado (16B2-1772) deixou na sua Bi- 
bliateca *Lusitana — ■ temos noticia de que escreveu as seguintes composisoes : 

Missas diversas a 4 vozes. 

Psalmos a 8 voze3. 

Respons&rios das matinas de quinta, serin e sdbado da semana santa a 8 vozes. 
Motetea para o Lava-pis a 4 vozes e umas Paixoes dos quatro Evangeliataa, 
a 4 vozes. 

Tendo nos encontrado uma obra, a 3 voze3, d§ste artists, tivemos o trabalho de 
meter as partes — alto, tenor e baixo — em partitura, com o fim de avaliarmos do mS- 
rito de seu autor .Esta compos i^ao 6 dividida etc quatro partes e tern os seguintes tS- 
tulos : 

Ditos d Christo da Paxao Dominica Palmarum (Esta parte contem onze nu- 

meros) . 

Ditos d Christo para a Pachdo de S.' fr? (contem oito numeros). 

Ditos d 'Christo a S da Paxdo de i.' Feira (conlt&n oito numeros). 

Ditos d Christo a 3 Feriae 6." cod Passionem (contem onze numeros). 

Ao todo contem esta obra 38 numeros de musica, que representam uma parcela 
importante do nosso i-iquissimo, mas muito desprezado patrimonio artlstico-musical. 
tex.tr> das quatro partes, que acabamos de citar, 6 tirado, respectivamente, dos Evan- 
gelhos segundo S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas e S. Joao — os quatro Ewangelistas — 
e, em face disto, estamos muito inclinados a acreditar que a composicao, que citaroos em 
normando, nao £ outra senao a que nos encontramos, sendo necessario rectificar que 
Francisco Martins escreveu umas Paixoes dos quatro Evang-elistas a 3 vozes e nao a 4, 
como dizem os dicionaristas, leigos ou erudito3, nas linhas biograficas dSste mestre 
de capela e compositor do seculo XVII. 

Os diversos numero3 de musica de que se ODmpoem estas Paixoes sao dignns 
de figurar numa Antologia de Musicos Portugueses, que, por certo, os nossos musicoa 
ainda nao pensaram former. 

Nos, modestos cultores da raais bela das Belas-Artes, a Musica, a arte divina 
que Deus deu aos homens para os tornar melhores, e que domina o mundo (legundo 
disse Lutero) temos acompanhado com especial carinho tudo o que se diz « faz sSbre 
o nosso passado musical e a conclusao a que chegamo3 e de que o po dos arquivos, a 
umidade e os ratos continuam satisfeitos e orgulhosns da posse das obras de Duarte 
L6bo. Fr. Manuel Cardoso, Filipe de Magalhaes e outros ihistres imlsicos, que honram 
a Patria em que nasceram. As Paixoes de Francisco Martins estiveram, por certei, 
bastantes aiws abandonadas e o p6 e a umidade marcaram com seu selo inconfundlv-jl 
oa 16 papers de que se compoe esta obra. 

fiste famoso especime de musica vocal a trfs partes — ntmca nos eansamos 
de estadar o setimo nfimero da Paixao de i." feira — enconftra-se guard ado na «Estan- 



DICIONARIO BIOGRAFICO BE MGSICOS PORTUGUESES TS 



tc MusicaU da Biblioteca Publioa desta cidade, ma3 e3ta de tal forma estragado, que, 
dentro de dois ou tres anos, muitas das notas escritas sobre o pentagrama devem ter 
desaparecido, pois que, presentemente, ia mal se conhecem. 

Teraoa uma prova de que a mestre de capela, de que es tamos tratando, foi 
homem estndioso. Ei-la 

No Inventdrio da Se de 1678 encontra-«e a seguinte verba: 

Onto quadernos de Responaorios de Natal de Duarte 16* estdo em poder do 
R."" M.' Franc' Miz q asignard aqui na forma q tern asignado no Inventario velho fl. (8. 

a) Fre.' Miz Freyre 

Quern tinha em seu poder obras do maior mfisico portugues, vivia, por ccrto, 
para a sua Arte, e a Ela dedicava, com certeza, todoa oa momentos de que poderia 
diapor. 

Mas nao foram s6 oa oito cadernos de Respons&rws do Natal de DuarUs hobo 
que o nosso biografado teve em seu poder, pois que o Liber Missarum IV. V. VI el 
VIII vocibus. Antuerpix, ex Offieina Plantiniana Baltharis (sic) Moreti.-M.D.CXXI que 
n6s descobrimos, ha meses, e que, presentemente, se encpntra — embora muito mutilado, 
pois mao criminosa cortou a tesoura (!) foraiosissimas vinhetas — guardado na Es- 
tante Musical por n6s organizada, contem (a fl. XC) urn Salutaris de Francisco 
Martins para 2 sopranos, alto e tenor, composi;ao que tern o segundo soprano mutila- 
do, pelo motivo acima citado, mas do qual edtamos tentando a reconstitul^ao para, 
assim, obtermos am exemplo de miisica a 4 vozes deste autor. 

No mesmo livro de El Lobo en la thearia lustroso (como cantou Manuel de 
Faria e Sousa) aintJa se encontram mais tres composicoes — infelizmente mutiladiis 
— aBbre o canto festivo Alleluia, canto que entnou no rito romano talvez com o Papa 
Sao DSmaso, que dizem ilustre filho de Guimaraea. 

Nao pode restar diivida de que estas composi;6es sao do mestre de capela de 
que estamos tratando, pois que a fls. XC e CXL se ve a aasinatura, que, comparada 
com a do reeibo de 17 de Janeiro de 1S68 (que reproduzimos) prova irrefutavelmente 
o que acabamos de afirmar. 

Na Biblioteca Publica de fivora, ainda se guarda em nossos diaa urn VUancieo 
a (fttas vozes, para a festa da Ascensao, do P." Francisco Martins. 

A letra deete vilancico, que principia: 

Sentado ao pe de um rochedo 
Feito para saudades 
Formando OS olhos can fontea 
Que assim se abrandam seus males 

parece-me digna de atenjao dos estudioaos, afim de se averiguar de seu autor. 

P.* Francisco Martins morreu em 20 de Marco de 1680 e foi enterrado na 
Se; assim o diz o seguinte assento, extrafdo de fl. 2 v.° do Ldvro da Obitoa de S." Maria 
da Alcagova de 1679 a 1716: 

O P.' M.' Fre.° Martina Mestre da Capvela de tie falegeo em uinte de 
Marco de mil < sew ten to* s oittnta rtsebeo todoa ot sacramentos, esta enterrado na 
Se£ e me asineL 

O I* fr. Diogo Af.» (TAlm.* Prior 

Alguns escritores dao notieia de que Sste ilustre musico viajou por Espanlia, 
maa nas aunt inveatiga^Ses, nada averigoamoa aobre tal assunto. Referem &ioda uma 



78 DICIONARIO BIOGRAFICO DE MVSICOS PORTUGUESES 



disputa arttstica entre o mestre de capela da Se de Elvas e o da Catedral de Badajoz, 
mas como o eminente investigador Ernesto Vieira nao ligou importancia ao facto, 
apenas diremos que quem o desejar conhecer, pode eonsulfiar o livro de Joaquim de 
Vasconcelos, Os musicos Portugueses, no artigo que diz respeito ao artiata de que te- 
moa falado, e que durante dezassei3 anos, palo menos, honrou a Arte musical dentro 
do teoiplo que foi sede do biapado elvense. 

Finalmente, e nonio nota curiosa, o P.' Francisco Martins tinha de ordenado 
12$500 reis por trimestre; assim o provam aa folhas de pagamento aos musicos da Se, 
nos anos de 1G64 e seguintea. 

Assim falou deste mestre seiscentiata Manuel Joaquim (in Documentes para 
a HUtoria. da Musica da Se de Elvas) nos folhetins que Ihe consagrou no Jornal de 
Elvas (n.° 60, de 30/12/1928, e 62 e 63, de 13 e 20/1/1929). 

Como fruto de investigacoes posteriores o ilustre musicologo deu recente- 
mente conta (nas notas do programa do memoravel concerto que «Polyphonia> rea- 
lizou no Teatro Garcia de Eesende em homenagem aos grandes meatres de fivora, a 
7 de Juiiho de 1942) de que o Padre Francisco Martins ja era mestre de Capela da 
S? de fivora em 27 de Dezemhro de 1650, e que, contra o afirmado por Barbosa Ma- 
chado, nao deve ter sido discipulo de Bento Nunes Pegado, a ser verdadeira a data da 
sua admissao no seminario eborense — 20 de Junh« de 1629. £ que, exactamente 
nesse ano de 1629, o Padre Nunes Pegado sucedeu ao Conego Estevao Lopes Morago 
no mestrado da capela da Se de Viseu. 

Padre Francisco Martina deve, com toda a probabilidade, ter sido diacipulo 
do Padre Manuel Itebelo. 

Em Dezembro de 1934, o pranteado director da Biblioteca Municipal de EIva3 
e grande benemerito Antonio Jose Torres de Carvalho, encontrou, no fundo de um 
caixote abandonado em velha arreeada-jao, um volume, in-folio que, dias depoia, mos-' 
trou a Mario de Sampayo Ribeiro, de passagem na histories cidade fronteirica e este 
reputado musicologo comprovou imediatamente que se tratava da parte mais impor- 
tante da obra do P.* Francisco Martins (dada como perdida) e a que consagrou varias 
paginas da terceira das suas substanciosa3 achegas para a historia da musica no nos30 
pais — A Musica em Portugal nos secutos XVIII e XIX. 

Algutis dos responsorios das matinas da Semana Santa deste autor ja foraia 
ressuscitados — por «Po]yplwnia» e pelo coro do Seminario de £vora — e em quasi 
todos eles a beleza atingida e, em verdade, extraordinaria. 

( 9S ) Trata-se, evidentemente, de duplicacao do anterior. 

( 83 ) A este miisico dediea Pedro de Andrade Caminha a seguinte oitava, qae 
ocorre na pagina 212 de suas obras: 

A FRANCISOO MENDES 
INSIGNE NA MCSICA 
(Epitafio XXVUI 

Tn que passas detemte, e le - , e intende, 

Que quem aqui debaixo e feito terra, • 

Inda a lembranca de sou canto accende 

O frU> peito, e abranda a dura terra. 

Quem ja o ouvio, s'outro mai3 ouve, ofende 

Seus ouvidos, e contra si mesmo erra. 

Francisco Mende3 se chamou, maa Lino, 

Mas Orfeo julgar era mais dino. 

(•T) Segundo Manuel Joaquim {Doeumentos para a HwtSria da Musica da S4' 



DICIONARIO BIOG8AFIOO DE MOSICOS PORTUGUESES 77 



de Elvas) Frei Francisco da Purificacao foi o oitavo dos mestrea de capela de que er.- 
controu noticia e sucedeu no exercicio do cargo ainda eon vida do seu antecessor, o Padre 
Domingos Gomes do Couto. (Ver nota 58), 

Dele e da sua obra se ocupou (nos folhetins que sairam no Jornat de Elvas, 
n.°" 82 e 83 serie VIII, respectivamente, de 9 e 23 de Junho de 1929) nos termos que 
passo -a arquivar ; 

«Foi urn dos mais notaveis mestres que teve a capela da Se de Elvas. Em 
1755 ja ele ocupava o lugar, talvez por motivo de doenca do seu antecessor, que 36 
morreu em 1756. 

Eis os documentoa que liie dizem respeito: 

A03 20 de Novembro de 1755 juntos os snr." Irmdos da meza aceitarao por 
Irm. desta samta Inn.*' ao M, R. P.' Fr. Frc." da Purificasdo Relig.° de S. Paulo 
M.' da Capela de See ac.tualmen.te em obrigasao de celebrar as missas pelps Irm. de- 
funtos pagar os annuaes e entrar por mordomo eomo os mais ecleziastieos e guardar 
os estatutos da Irm.' e p. 1 que conste fit este termo. Elvas ut supra. 

a) o Bm, e ' Domingos Rodrigues 

(Livro dog Irmaos das Almas da S." Se de Elvas, fl. 70). 
No Livro de Receita e Despeza de 1757 a 1802 (fl. 76 v,°) encontram-se as se- 
guintea verbas: 

a) Despendeo por liuranga de 5 de Janr.' de 176S, 00m o M.' da Capella Fr. 

Franco da Porificagdo p.* este pagar a muzieos que chamou de ford p.* as festas da 
•Cpnoeiqa/o e Natal dez mil e oitocentos reis — lOfSOO. 

b) Despendeo mais, mil nove centos, e vinte reis com. onto missas cantadas peles 
Irmdos, q faleoerrdo este anno, sendo ultimo o R. P.' Fr. Francisco da Purificassdo, 
cada kuma a duzentos e quarenta reis, soma a referida quantia, e para que comste, fiz 
este termo que asignei com os off." da meza: Elvas 29 de Dezembro de 1776. 

a) O P.' Domingos Rodrigues 

Ve-se por este «termo» que Fr. Francisco da Purificacao faleceu em 1776; 
foi-nos impossivel encontrar o seu assento de obito, mas verificamos que em 20 de 
Junho desse ano ainda assinou no Livro de Despeza da Irmandade das Almas da See 
de Elvas de 1762 a 1801. 

Dissemos acima que Fr. Francisco da Purificacao foi um doa maia notaveis 
mestres que teve a capela da Se de Elvas. 

A provar a nosaa afirmacao, encontram-se na sEstante Musical> da Biblioteca 
Publica de Elvas muitas composigoes de earacter religioso da autoria deste mestre, 
do qual, ate hoje, ainda nao encontramos a maia leve referenda em obras de musi- 
cologia. 

Eis. a lista das suas obras, por noa encontradas, com o mimero de ordem do 
cataJogo, por nos tambem organizado : 

Responsorio 5." das Matinas da Conceicdo, a 4 voze3, com violinos e orgao — 
1751 — (N.° 54). 

Responsorio 7.", a Duo, in festo Conceptwnis B. M. V. (para Santa Clara), 

com violinos e orgao — 26 de 9b.'° de 1769 — (N.° 55). 

Responsorio 6° Conceptio tua, a 4 vozes, com violinos, trompas e orgao — (N.° 56). 
Responsorio 4.° das Matinas do Natal Magnum Mysterim (sic), a 4 vozes, 

com violinos e 6rgao (N.° 57). 



7* 



DICIONARIO BIOGRAFfOO DE MOSICOS PORTUGUESES 



ResponsQ'rio 6.° das Matinaa da Conoeifdo, Crmeeptio tua, a 4 vozes, com vio- 
linos e orgao (N.° 59). 

Responsorio ad recipiendum .Regem, a 4 vozes e 6rgao (N.° 60). 

Antiphona p. 1 a Sr." do Carmo Hoe est vere speciosa, a 4 vozes, com violinoa 
e orgao. (N.° 61). 

Amtiphona Hoe est vere, a 4 vozes, com violinos e orgao (N.° 62). 

Beati amnea, a 4 vozes concertato e orgao (N.° 63). 

Letatus sum, a 4 vozes, com violino e orgao (N.° 64). 

■Lavdate pueri Dominum, a 4 vozes, com violinoa e orgao (N.° 65). 

Letatus sum, a 4 vozes, com violinos, trompas e orgao — 1757 — (N.° 66). 

Antiphona Istorum est regnum ccelorum, a 5 vozes, com violinos e orgao 
(falta o 1." soprano) — (N.° 67). 

Beatus vir, a 4 vozes, com violinos, trompas e orgao (N.° 68). 

Nisi Dominus, a 4 concertato e orgao (N.° 69). 

Invitatorio das Matinas da Conceic&o, a 4 vozes e orgao — 17-60 {N.° 70). 
lAcao 5 da 5. feira S., a 4 vozes e orgao — MDCCLX — (N.° 71). 
Missa a 4 concertata e orgao (N.° 95). 

Hymnus ad vesp.'*' In Dedications Eclesiae, a 4 vozes e orgao (N.° 96). 

In Nativitate Sancte Joanis Baptista — Hymnus, a 4 vozes e orgao (N.° 97). 

Esta3 composicoes sao todas autografas e constituent documentagao interes- 
sante para julgar de Fr. Francisco da Purificacao, individualidade que nao deve ser 
esquecida em qualquer trabalho musicologico, que, posslvelmente, possa vir a aparecer 
entre nos». 

O benemerito Antonio Jose Torres de Carvalho publicou em o seu Arquivo 
Tramstagaw (1." ano, 1933, pags. 70, 71, 79, 80, 99, 100 e 101) os eapontamentos* 
que seu tio, o notavel latinista Dr. Francisco de Paula Santa Clara, coligira sobre 
Cantores e mUsieos da capela da Se de Elvas. Notes se le: 

«FVei Francisco da Purificacao. Meatre da Capela de Musica. Religioso pro- 
fesso na Ordem de S. Paulo 1.° Eremita, da Congregacao da Serra da Ossa, impetrou 
Indulto Apostolico para se perpetuar a sua conventu alidade no Convento que a Ordem 
tinha nesta 'Cidade. Achava-se empregado como M.' da Cap. de Musica da Se de Elvas 
com licenca do seu provincial. Ele, para ajudar seus pais e irmaos, que viviam pobre- 
m«nte com o lucro de ocupacao do dito Mestrado, sujeitou-se a aceiitar o dito cargo 
de Mestre de C ipela. E porque o dito emprego tinha varias pensoes, que lhe impediam 
satisfazer as obrigacoes de comunidade, para supri-las se ajuatou com o P." Reitor 
do Convento de Elvas pagar-lhe em cada urn ano 35$0OO reis, e o dito Eeitor susten- 
ta-lo e estar com conventual idade no dito convento, livre e isento de obrigacoes. 
A familia vivia em Campo Maior, onde ele nasceu. 

O Indulto Apostolico foi julgado por sentenca da Vigararia Geral do Bispado 
de Elvas de 21 de Janeiro de 1755. 

Ha noticia de ter sido mestre da capela em 1754-59*. 

( as ) De Francisco da Rocha, diz Barbosa Machado que admirava tanto o ta- 
lento de Joto Soares RebeLo que imitava «com tao escrupulosa exac^ao as obras de 
tao famigerado meatre, que pareciam as suas composicoes, eccos sonoros das vozes de 
Rebelloj.. E ficamos sem saber se ha nesta frase elogio sincero, se acusacao de plagia- 
rio ao frade Trino. 

("<>) Vide nota n.° 2. 

(») Vide nota n.° 2. 

(«) £ste autor foi de uma fecundidade paemosa. No Catalogo da Livraria da 
Musica de D. Joao IV e o autor portugues mais vezes citado. Dole existiam na dita Li- 
vraria, alem de muitas outras composicoes, 27 vilancicos dos Reis, 37 do Sacramento, 
28 da Natividade, com mais de uma centena no cabtio seguinte, que 6 o 26, n.° 675. 



DIC10NAR10 BIOGRAFIOO DE MCSICOS PORTUGUESES 



79 



Neate caixao pude contar, muito a pressa, mais 37 do Sacramento, 45 para varias 
festas, 36 de Nossa Senhora e muitissimos mais. S6 vilancifios podem contar-ae 538, 
afora Missas, salmos, responsorios, motetes, etc. 

(m) Faleceu este autor a 16 de Julho de 1700. Foi discipulo, em Lisboa, do Bi- 
bliotecario de D. Joao IV, o P." Joao Alvares Frovo. 

«Cravista e organista que viveu em Lisbda na segunda metade do secula 
XVIII. Foi autor de uma colleccao de musicas para cravo, curiosa hoje como exemplar 
bibliographico por ter sido urn dos primeiros ensaios de muaica estampada que se fez 
em Lisboa; tern o segninte titulo: tDodoci Sonate, Variazione, Minuetti per Cembalo 
Stampati a spese degli Sig." assinanti composti Da Francesco Sav.° Battista Maestro 
e 'Compositore di Musica. Opera I — Sculp." da Francesco D. Mitcent. — Stampati 
da Francesco M. el — Lisbona — Vendese na Loge do d."> Estampador no fim da Rua 
do Paceio*. Eata obra de tres Franciscos, nao honra a memoria de nenhum delles*. 

B pouco mais adianta a continuacao da noticia que Ernesto Vieira traz nas 
pags. 90 e 91 do 1.° volume do sen Dicionario. 

O que Vieira nao disse foi o segninte, que Mario de Sampayo Eibeiro revelou: 

Francisco Xavier Baptista foi primeiro orgamista da Se e morreu a 10 de Outubro 

de 1797. Era casado com D. Ifliisa Bernarda Caria de Mascarenhas e paroquiano de 
Santa Justa. (Cf. Ocidente, n.° 54, relative a Outubro de 1942, Voi. XVIII). 

(«) Nao enconltrei outra noticia deste autor. Vide nota n." 2. 

(» s ) muito plausivel que aeja o mesmo que o anterior. 
— (»s) Sousa Viterbo, no seu notavel trabalho ja tanta vez citado, Subsidios 
para a Histdria da msica em Portugal, na pag. 386 e seg.'", inaere a seguinte noticia 
aobre Mestre Gil: — Carta de EJ-Rei aposentando-o respeitosamente e atendendo 
aos seus bons services preatados e idade lecebera anualmente ate a sua morte 32.902 
reis, *que he outro Unto quamto tinha de seu ordenado, moradya, vestiaria, apousen- 
tadoria e merce cada -ano quando servia-a-vinte mill ra de ceuada e dona mil trezen*oa 
betenta ra de sua vestiaria ordinaria, e tres mill corenta ra dte apousentadoria e tres 
mil rs de merce ordinaria, que fazem em soma os ditos trimta dous mill nouecentos 
e dous rs, oa quaes xxxij-ix'-ij rs me praz qule comece a veneer no primeyro dia 
deste mes de Julho de b'L'" e cinquo em diaiite. Joao de Castilho a fez em Lx.» a xj 
do Julho de jb c lb>. 

Segue outro documento em que se diz que, devido a ter falecido ja Mestre Gil, 
«meu cantor*, fara merce a sua mulher em cada ano de 2 moios de trigo ade Janeiro 
que ora passou deste presence ano de quinhentos, cinquoenta e sete em diante>. 

£ assinado em 2 de Marco de 1357. 

Na lista dos musicos do tempo de D. Joao III, que o sr. dr. Alfredo Pimenta 
publica no seu valioao trabalho historico, D. Joao III (a pag. 291 e seg.'") ocupan- 
dc o decimo quintto lugar da referida lista aparece — Mestre Gil, «mestr e oamtor 
del Rey». 

{") D. Gaspar da Cruz e citado por Mario de Sampayo Kibeiro (no seu 
notavel trabalho A Musica em. Coimbra, Coimbra, 1939, pag. 18) entre os mestrea 
do mosteiro de Santa Cruz. 

( e ») Gaspar dos Reis, aegundo afirmou Joaquim de Vasconcelos, ja por 1630 

Be eroeontrava em Braga. 

Ernesto Vieira di-lo mestre da dapela da Sie primaz tpelos meadoa do se- 
culo XVI» quando deveria escrever do seculo XVII. Nao deve tratar-se de erro tipo- 
gr&fico porque em mais dois lugares to repete — nas pdginas IV e XXI do Indice 
com que fecha o 2.° volume do seu Dicionario. 

Todos o dizem discipulo de Duarte Lobo e Ernesto Vieira tambem. Ora, a 
ser aasim, como oonciliar uma coisa com a outra? Duarte Lobo, mesmo pelas velhas 
contas, teria nascido em 1540. £ de ver, poia, que nao poderia ter um discipulo ja 



80 



DICIONARIO BIOGRAFfOO DE MCSICOS PORTUGUESES 



mestre de capela eim meados de Quinhentos « a testa do coro da Catedral de Braga, 
para onde forta depoia de ter feito o compasso aoa musicos da igreja de S. Juliao 
de Lisboa. 

Ernesto Vieira enganou-se, por conaeguinte. (Cf. Subsidies para a Histdria 
dos m&sicos Portugueses, do Dr. Goncalo Samyjaio, pag. 21). 

Mona. Conego Jose Augusto Ferreira inclui-o na lista dos mestres de capela 
da Se de Braga, com as datas 16317-1639?, que sao as dadas pelo Dr. Goncalo Sam- 
paw, quando afirma quie Gaspar dos Reis morreu em Braga entre 1631 e 1639. 
Todavia o egregio historiador da mitra bracarense diz que nao encontrou, dentro 
daqueles anos, o respective lassento de obito em iienhum dos registos panoquiais da 
cidade (Of. Historia abrewada do Seminario ConciMar de Braga, e das Esoolas Ecle- 
sidsikas precedents ~ S4c, Vl-Sic. XX — Braga, 1937, pag. 210, uota 1). 

Houve ainda outro Gaspar dos Reia que foi eclerigo <io habito de S. Pedro. 
Estar.do vago por fallecimento d« Frei Manuel Gallego, o Iogar de tangedor doa 
orgaos da igreja matriz de Beja foi iwmeado para o substituir Gaspar dos Reis, 
que j'a tinha. de serventia o mesmo cargo ha dezoito anos. O Alvara. de nomeasao e 
de 22 de Outubro de 1665.> 

Frei Manuel Gallego foi religioso professo na Ordem de Avis. Por alvara, 
com forca de carta, de 5 de Maio de 1502, foi nomeado tangedor dos orgaos da igreja 
matriz da cidade de Beja, cargo que exerceria, enquanfco nao houvesse outra pessoa 
desocupada que o pudesse bem servir. (Cf. Subsidies... Sousa Viterbo, pag. 239). 

A Gaspar dos Reis, que devia ter morrido bem velhinho, sucedeu Francisco 
Ferreira, que foi julgado suficiente, depois de sujeito ao exame de organista da 
Capella Real. A nomeacao e de 22 de Setembro de 1671. 

A edte organista sucedeu ainda Inacio de Carvalho. (Cf. Sousa Vitertw 
ob. cit, pag. 218). 

(sbj Ver este nome na Introducao. 

( 1D °) Goncalo Xavier de Alcacova foi escritor, membro da Academia Real 
da Historia e da Academia Real das Ciencias, nos meados do seculo XVIII. Compoa 
duas orasoes para serem recitadas diante da Rainha D. Mariana Vitoria e a LHsserta- 
gac sobre *a questao da legitimidade de atribuir a Beja a identidade com a Pax Julia 
dos romanos. Estas publicac5es apareceram a lume entre 1770 e 1780. 

Nasceu Goncalo Xavier de Alcacova em Lisboa aos 19 de Setembro de 1712, 
filho de Joao Antonio de Alcacova e de D. Guiomar de Mendonca. Viajou peLa Es- 
panha e Franca. Casou com a filha de Aires de Saldanha de Albuquerque, D. Ana 
de Moscoso, que faleceu, bem como a sua linica filha, debaixo dos escombros do 
terrivel flagelo que cam sobre Lisboa no dia 1* de Novembro de 1755. Faleceu ao3 
5 de Fevereiro de 1785. 

Da actividade musical desenvolvida por Goncalo Xavier de Alcacova nao en- 
contro outra noticia. (Cf. Elogio que do mesmo tragou o C'ovde de Ega, soda Su- 
permini,'' da Academia das ciencias, em 20 de AbrU de 1785, codice que tern a cota 
CX 

pega n.° 30, da Biblioteca Publica de fivora) . 

1-14 

( l01 > Henrique Carlos Gorreia foi compositor de vilancicos, Mestre de Capela 
nos primeiros anos do seculo XVIII, quando era bispo de Coimbra D. Antonio de 
Vasconcelos e Sousa e Carlos de Seixas, famoso cravista, assombnava aquela cidade 
com a sua pasmosa precocidade. Segundo opiniao do Cardeal Saraiwa, cujo funda- 
mento ignore, ainda Frei Henrique Carlos Correia vivia em 1747. Parece ter sido 
eluno do Padre Domingos Nunes Pereira, mestre da Se de Lisboa. 

(Cf. A Musica em Coimbra, pag. 20, por Mario de Sampayo Eibeiro; Lista 
de alguns artistas Portugueses, pag. 46, do Cardeal Saraiva). 

( 102 ) Etete autor foi com certeza conheeido pessoal de Jose Mazza, pela ma- 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MtjSICOS PORTUGUESES 



81 



neira como o trata e o aprecia. Francisco Inacio Solan/), grande teorico, chama-lhe 
<Sabio Compos itor>. 

Faleceu em 1781, tendo entrado para a Irmandade de S. Cecilia a 19 de Fe- 
vereiro de 1761. 

Sobre Henrique da Silva Negrao e a maior noticia que conheco. 

( l ° 3 ) Deve tratar-ae do cravista, quasi anonimo Frei Jacinto, oujos dados bio- 
graficos sao nulos ainda hoje. (Refere-se-lhe Mario de Sampayo Eibeiro em A Musica 
em Portugal..., pag. 28). 

Jeronimo Francisco de Lima era irmao de Bras Francisco de Lima 
{ver este nome). 

Nasceu em Lisboa a 30 de Setembro de 1743. Estudou no Seminario Patriar- 
cal, donde segum para Italia. «Sahiu aos 2 de Junho de 1760 que foy para a cidade de 
Napole3 aperfeicoarce no contraponto por ordem de Sua Magestiade ficando ven- 
cendo ordenado e propinas de mosso da Sancristia.> Eetes dizeres estao eseritos i 
margem da inscricao do livno dos assentos do Seminario Patriarcal. Diz a inscricao: 
«Jeronymo Francisco de Lima, filho legitimo de Antonio Francisco de Lima, « de 
Elena Maria da Cruz, natural e baptizedo na freguesia de Kossa Senhora da Ajuda, 
de Belem, entrou para o scrninario aos 20 de Novembro de 1731 de edade de 10 aimos 
por j& saber algnma couza de Muzica.> 

Desta inscricao se ve que Jeronimo Francisco de Lima nasceu nko em 1743, 
mas dois anos antes ou seja em 1741. 

Deu entrada no Conservatorio de Santo Onofre de Napoles no dia 15 de 
Janeiro de 1761, aos vinte anos de idade. (Cf. Mario de Sampayo Eibeiro, A Mu- 
sica em Portugal...). 

No regresso foi nomeado professor do Seminario onde tinha sido aluno, e 
acumulou o cargo de cantor da Patriarcal. Em 1798, por morte de Joao de Sousa 
Carvalho, foi nomeado Mestre da Capela, sucedendo-lhe, o que so por si atesta exu- 
berantemente o prestigio de que disfrutava. Faleceu em 19 de Fevereiro de 1822 

(ios) Entre os musicos Portugueses de apelido Pinto nenhum encontrei que 
se identificasse com o Doutor Jeronimo Pinto de que fala o c6dice. 

Vid£ nota n.* 2. 

( 10G ) Este Inacio, Bandurra de alcunha, nao sei quem seja. Mas se nao sa- 
bemos quem e, vejamos descritivamente que especie de instrumento usou. 

O instrumento chamado bandurra pareceu-se primitivamente com o arrabil 
e tinha tres cordas de tripa, que ordinariamente se afinavam pelas notas sol, re e la, 
correspondents aos indices acustiaos 56, 63 e 70. Estas bandurras tinham o braco 
liso sem pontes, que apareceram mais tarde. Com o decorrer do tempo sofreu o 
instrumento varias modificacdes, entre as quais viu o mimero de cordas aumentar 
para seis. 

A bandurra toca-se com palheta. As portuguesas tinham o braco mais curto 
que as espanholas. Popularmente e o mesmo que viola. 

,(io7) o Padre Inocencio de Sousa Mialha foi Mestre de musica do Padre 
Antonio Pereira Figueiredo em Vila Vicosa. Vide notas n.°* 30 e 58. No codice, ao 
alto da folha seguinte (que e a n.° 28, e come^a com a noticia de Frovo) esta inscrita 
a seguinte nota: Antes deste autor 'deve Mr EVrei D. Joao 4, fls. 30. 

(ios) Nrasceu em Lisboa a 16 de Novembro de 1602. 

Foi aluno de Duarte Lobo na aula da Se e veio a suceder-lhe em 1647, poucos 
meses passados sobre a morte do mestre, 24 de Setembro de 1646. O sucessor do 
Padre Joao Alvares Frovo no cargo de Mestre de Capela da Catedral de Lisboa foi 
o P. e Manuel Nunes da Silva, celebrado autor da <Arte Minima*. 

O titulo completo da obra didactica do P.° Joao Alvares Frovo da qual existe 
urn exemplar na Biblioteca Publica Eborense, e o seguinte: 



89 DWIONARtO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 

Discursos sobre a perfeu~ao do Dkiathesaron, e louvores do <nwmero quater- 
nary em que elle se contim, Com um. enoomio sobre o papel que mamdou imprimvr 
o Serenissimo Senhor EIRey D. Joao IV. Em defenaa da moderna musica e resposta 
sobre os tres breves negros de Christovam de Morales. — A Christo Crucifieado 
dedwa o P. Jodo Alvares Frovo CapeUao e Bibliothecarw del-Rey, e M. da Se de 
Lisbon — Em lAsboa. 

Na officina de Antonio Craesbeeck de MeUo. Amut 1662. Em 4.° com 
100 paginas. 

Faleceu a 29 de Janeiro de 1682, rta idatie de oitenta anos, fazendo fe em 
Barbosa Machado. (Cf. Ernesto Vieira, 06. cit, pag. 438 e seguintes, 1.° vol.). 

( 10B ) Esta noticia, se bem que curtissima, encerra una novidade: a natura- 
lidade elvenae de Joao Corddro da Silva. 

Foi o ultimo pensionista que o Seminario da Patriarcal mandou a Napoles. 
Entrou para a Irmandade de Santa Cecilia a 21 de Novembro de 1756. Escreveu 
algumas operas e outra musica assim profana como religiosa. <A sua obra ressente-se 
da preocupacao de fazer brilhar as vozes. » 

Na Catedral de Lamego estao arquivadas as seguintes mtzsicas, manuscritas 
e partituradas do notavel compositor Joao Cordeiro da Silva: 
I. Magnificat, a 4 vozes e orgao 
II. Confiteor (talvez Confitebor, sahno) 

III. Missa, a 4 vozes. 

Na Biblioteca de Elvas guardam-se alguns trios instrumental s de sua autoria. 
(Cf. Ernesto Vieira, Ob. cit., pag. 304; Sampayo Ribeiro, A Musica em Portugal..., 
pag. 38; e Subsidies do Dr. Goncalo Sampaio, pag. 29). 

(no) Frei Joao da Matta faleceu com 24 anos de idade, pois nascera em 1714. 

Scgundo Joaquim de Vasconcelos (0b. cit., pag. 228, 2." vol.), Joao da Matta 
tinha compos to de proposito una Missa para o dia da sua Primeira Missa, que 
nao chegou a dizer por Deus o ter antes chamado. 

(in) Do jj r . Joao Melgas Ferro, irmao de Diogo Dias Melgas, nenhuns 
dados se conhecem. 

Em 1702 ainda vivia, tendo assistido ao desapa recimento de quasi toda a 

familia. 

Viveu pobre como seu irmao o Mestre de Capela da Se de fivora, pois quando 
ele morreu nem havia em casa o dinheiro suficiente para os encargos do funeral. 
Foi Sebastiao Ferreira quern emprestou 4:000 re is, os quais lhe foram pagos pelo 
Dr. Joao Melgas Ferro a 20 de Junho de 1700, pouco mais de dois meses depois 
da morte de Diogo Dias Melgas. <Recebi do Dr. Joao Melgas Ferro quatro mil reis 
q. lhe avia emprestado p. 1 o funeral de seu irmao o Mestre Diogo Dias Melgas. » 
Evora, 20 de Junho de 1700. Sebastiao Ferreira.* 

A pobreza foi tao aceiituada que, por necessidade, se viu obrigado a vender 
as casas em que vivia, o que fez em 1703 ao Dr. Manoel Fernandez Perez, para 
pagamento de dividas de 200.000 reis & Irmandade das Almas. 

No Carter lo da Se nao ha deste autor uraa so composicao que permita avaliai 
at£ onde chegou o seu talento; em todo o caso e licito inferir, por tudo, que nao 
subiria muito alto. 

(Cf. Arquivo Transtaganc, pag. 135 e 136. Ja citado a proposito de Diogo 
Dias Melgas). 

( ,12 ) Joao Mendes Monteiro foi discipulo do Padre Manuel Mendes em fevora. 
No Catalogo da IAvTaria da Musica de Z>. Joao IV e citado como autor de 
varias missas. 

(ii3j ■ fjao conf undir este Joao Pedro, o Gago, com um outro Joao Pedro que 
publicou Arte de Musica Para Viola Franceza. Com regras para uso de todas at 



DICIONARIO BIOGJUFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



S3 



pessoas, que queirao applioar-se a. toca-la por Musica... — Braga, 1839 — Typogra- 
phia Braca reuse. 

Era de tal ordem a futilidade expendida no folheto em que3tao que Ernesto 
Vieira chorou toda a vida os rail reis que um alfarrabista Ihe extorquiu por urn 
exemplar ! 

("*) Joao Pedro Tomas nasceu em 1709. 

No livro Subsidios para a historia da Musica em Portugal, de Sousa Viterbo, 
vera, na pag. 68, o seguinte: Joao Pedro Tomas «de 58 anos, rabeca da Camara de 
Sua Magestade, morador na Rua Nova da Bella Vista, disse que tendo ido a Villa 
de Novi (Italia) ali conhecera e vira o avo paterno do habilitando Joao Baptista 
Avondano (tratavase de provar a idimeidade de Pedro AtU&nio Avondano para en- 
trar na Ordem de Christo), donde ouvira que era natural tendo nesse tempo o exer- 
cicio de medidor de terras e que em seus principios fora alfaiate.e 

Isto passou-se a 15 de Junho de 1767, data que consta do respect ivo do- 
cuments 

^C 15 ) D. Joao IV, um dos mais extraordinarios homens que guiaram a nan 
da governasao publica em Portugal, tambem foi musico e musico de categoria. 

A sua actividade neste campo pode ser considerada debaixo de tres as pec toe: 
o teorico, o compositor e o bibliofilo. 

pai do Duque de Barcelos, titulo nobiliarquico do primogenito dos Bra- 
gan;as, na mira de educar o seu filho nas belas artes, mandou vir para Vila Vicosa 
um musico ingles chamado Roberto Tornar. £ste Roberto Tornar, do qua! existem 
compoei^oes no Palacio Real Calipolense, fora recomendado por Geri da Ghersen, 
Mestre da Capela do Arquiduque Alberto e discipulo do famoso Filipe Rogier. 

D. Teodosio II tinha intencao de fazer do future Duque de Bragan^a um 
verdadeiro Principe cristao a que nao faltasse a educacao musical que se conside- 
rava indispensavel entre os passatempos aconselhados ao tempo. 

O Duquezinho porem, parece que a principio sentiu grande relataneia em 
se embrenhar na rede complicada das cantorias, das prolaeoes, dos diferentes sinais, 
figuras que iam ao compasso, etc. A fraca propensao do aluno e talvez o mau sis- 
teraa pedagogico de Tornar, uniram-se e arrastaram a educacao musical de D. Joao, 
ate que chegou a Vila Vigosa um rapaz vindo de Caminha que em breve se fez uma 
grande esperanca — Joao Soares Rebelo, irmao do Padre Marcos Soares Pereira, 
em cuja companhia viera. 

A companhia do Rebelinho, a sua linda voz, a franqueza e lealdade do trato 
eram para D. Joao, mais velho uns seis anos, estimulo para a estudo da musica. 
certo e que nesta intimidade em breve aprendeu os segredos do contraponto, bem 
como as leis que regram a chamada Mao Aretina, chave da solmizacao. A sua apren- 
dizagem foi porem tao seria e reflectida que em breve se tornou profundo conhece- 
dor da arte da compostura a ponto de lhe serem familiares as obras de Palestrina 
e se dar ao trabalho de mostrar mazelas aos maiores chavoes da epoca — Carlos 
Pati&o, Duarte Lobo, Romero Capitan e outros. 

D. Joao IV escreveu a celebre tDefensa de la musica moderna contra la 
errada opinion del Obispo Cyrilo Franco. O opusculo teve duas edicoes, uma em 
ifialiano, outra em castelhano. trabalho era assinado pelas duas iniciais — D. B., 
isto e Duque de Braganca. 

Foi dedicado a Joao Soares Rebelo e a dedicatoria fecha assim: tDios guarde 
a v. m., como le guardan su musica.> 

Como compositor pode considerar-se mais D. Joao IV um habil e inteligente 
contrapontista do que uma sensibilidade requintada, genero Melgas ou Magalhaes. 
As suas composigoes sen am por isso mais filhas do cerebro que da alma. 

Entre as obras que lhe sao atribuldas, so uma ha que tern s^rias razoes a 



84 DICIONARIO BIOGRAFICO DE M&SICOS PORTUGUESES 



assistir-lhe para ser imputada a D. Joao IV. £ o moteto — Adjuva nos. Simplesmente, 
ao contrario, do que afirmou Sampayo Kibeiro, em trabalho que me serve de guia, 
nao existe na Se de Evora copia alguma deste moteto. 

" D. Antonio Caetano de Sousa, na sua obra vei'dadeirajiiente monumental — 
Historia Gen&Uogioa da Casa Real Portuguesa, insere uma relacao de musicas de 
D. Joao IV, hoje totalmente esquecidas on antes desaparecidas. 

A grande gloria de D. Joao IV, o seu maior merito, porem, e o seu admira- 
vel gosto pela Musica manifestou-a na riquissiraa e vastissima Livraria que juntou. 
Ai nao faltava nada. Desde o Micrologus k ultima novidade de Carlos Patiflo ou 
de Frei Manuel Cardoso la estava tudo, a bem dizer. A existencia, hoje, da Livra- 
ria de Musica de D. Joao IV, produziria uma romagera const-ante doa musicos de 
todas a3 partes do mundo civilizado. No dia tragico de 1 de Novembro de 1755, urn 
abalo sismico desfez em po o finite de tantas canseiras e trabalhos, de tanto dinheiro 
e tanta amizade. amor entranhado de 1). Joao pelos seus papeis de musica era 
tanto que no dia 25 de Junho de 1636 sdisse o P.° Frei Joao de Lisboa 3 missas a 
S. Pedro; 3 a S. Joao Baptista; e 2 as almas po.ro que nao desse a peste nos papeia 
de musica*. Entende-se que o Frei Joao nao disse as oito Missas no dia 25 de Junho, 
mas comecou a celebra-las nesta data. 

Em 1G48 mandava El-Rei ao Marques de Nisa que oferecesse ate 3.000 cru- 
zados pelos manuscritos autografos e outros Kvros do compositor Capitan (Matias 
Romero). 

«Se nao aceitasse a proposta, devia oferecer-lhe ate 2.000 cruzados em con- 
digoes ainda mais favoraveis, deixando-se-lhe copia de tudo. Por um livro teorico, 
o oelebre tratado Del Porque de la Musica, obra sua, manuscrita, prometia-ae ate 
100$000 reis.» 

D. Joao IV nasceu em Vila Vicosa aos 17 de Marco de 1604 e faleceu em 
Lisboa aos 6 de Novembro de 1656. (Cf. Oeidente, n." 32, Dezembro de 1940 e Joaquim 
de Vasconceios, El-Rei D. Joao q i"), 

Em seguida dou o texto ein latim e tradugao portuguesa duma carta dirigida 
por Joao Baptista Doni a D. Joao IV e inserida na pag. 387 do volume 2." da obra 
de Martinho Gerberto, monge beneditino alemao, intitulada: De Canto et Musica 
Sacra a Prima Aetate usque ad Praesens tempus : 

*Quo consilio primum non pauca veterum rei musicae scriptorum loca per 
obscura sane, ac difficilia interpretatus sum; compluraque vocabula e graeco, la- 
tinoque fonte deducta, quihus expressius ac purius huius disciplinae notiones effari 
possumus, excogitavi; deinde, quod praecipuum est, antiquas illas harmonias Dori- 
cam, Phrygiam, aliasque tantopere decantatas atque ab hodiemis quibusque doctori- 
bus musicis Salina, Zarlino, Galillaeo, studiosius aliquanto, quam felicius conquisitas, 
e crassissimis vetustatia tenebris erutas, in usum ac praxim, faventibus superis, 
revocavi. Nam partim novis instruments musicis ad earn rem idoneis a me inven- 
tis, ac fabricatis; partim novis semaeographiae seu Tabulaturae speciebus assumtis, 
id consecutu3 videor, ut magna quadam, atque inaudita tot saeculis in omni cantio- 
num genere e varietas, nullo negotio ab iis, qui secretioribus hisce musarum sacris 
vel modice initiati fuerint, e datur. Siquidem suppetunt iam hie Romae ac Ftorem.- 
tiae, qui per omnes illas harmoniarum species, et cantica eleganter componere eaque 
apte prescribere, et suaviter canere atque expedite pulsare possint. Quam disciplinam 
nobiles aliquot viri (quibus praecipue meos hosce labores dicavi) cupidissime am- 
plexi sunt. Praeter caeteros vero vir nou minus avita nobilitate quam propriis do- 
tibus illustris, ac longinquis in Orientem peregrination! bus clarus et Petrus de Valle, 
Patricius Romanus, Lusitani nominis perquam studiosus, cuius luculentus huiuscemodi 
cantionum liber propediem proditurus est in lucem.> 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MGSICOS PORTUGUESES 85 



TEADUgAO 

sEm primeiro lugar, eu, gramas iquele conselho, expliquei muitas passagens 
doe antigos escritores da arte musical, que sem duvida estavam bastante obscuras; 
e excogitei muitos vocabulos provindos de fonte grega e latina, por meio dos quais 
podemos com mais pureza e acerto falaT das nocoes desta disciplina; depois, o que 
e de mais importancia, chamei de novo ao uso e a pratica, com a ajuda de Deua, 
aquelas celebres harmoniaB antigas, como a Ddrica, a Frigia e outras, muito can- 
tadas, e reiinidas am tanto com mais trabalho do que felicidade, por alguns contem- 
por&neos doutos em musiea, como Salinas, Zarlino e Galileu e arraneadas as trevas 
mui espessas da vetustez. 

Por uma parte, com efeito, construidos novos instruments musicais, julga- 
dos por mim capazes de tocarem estas pecas; por outra, adquiridas novas especies 
de semiografia, parece-me ter conseguido que uma grande variedade em todo o genero 
<te cancoes, variedade nao ouvida ha tantos seculos, seja dada a luz, sem alguma 
obrigacao, por aqueles que talvez tenham sido mddicamente os principiantes nestas 
coisas menos conhecidas e aagradas das musas. Neste tempo estao em Roma e Flo- 
renca, com toda a certeza, alguns que talvez possam por meio de todas estas especies 
de harmonias, nao so compor canticos elegantemente, escreve-los com aptidao e canta- 
-los com suavidade, mas tambem toca-los sem embaraco. E alguns varoes nobres (a 
qaem principalmente dediquei estes meus trabalhos) abracaram avidamente esta 
obra de ensino. Mas, alem de outros, houve urn certo i lustre nao menos por nobreza 
de antepassados, do que pelos proprios dotes, e instruido nas longinquas peregrina- 
coes ao Oriente e Pedro de Vale, patricio Romano, chamado Lusitano, muito esltu- 
dioso, cujo livro elegante de cancoes como estas, ha-de sair h luz da publicidade 
dentro em breve.* 

( llB ) nome exacto dgste autor e Joao Pessina. Teem-lhe chamado — Pisini, 
Pisrini e Pexina. Foi cravista da Camara de Sua Majestade e morava junto a Belem. 
Nasceu por alturas de 1718, pois em 1767 aparece entre as testemunhas que depuse- 
ram no processo de habilitaciio de Pedm Antonio Avondano para Cavaleiro da Ordem 
de Cristo, e tinha entao, como fie mesmo confessa, quarenta e nove anos de idade. 
(Cf. Subsulws, de Sousai Viterbo, pag. 65 a 76 e A Musiea em Portugal..., de Mario 
de Sampayo Ribeiro, pag. 79). 

( 11T ) Frei Joao Pinheiro faleceu na primeira metade do seculo XVII. (Cf. 
Vieira, Ob. cit., pag. 169, 1." vol.). 

( 119 ) So faltou a Jose .Mazza dizer, com Barbosa Machado, que o Cdnego 
Joao da Purificacao foi aluno de Duarte Lobo. 

(Cf. Bibliotheca Lusitana, tomo 3.", pag. 729). 
' ( 11B ) iOnde se fundaria Jose Mazza para afirmar que a Arte de Camtoehdo 
de Frei Joao Rodrigues se imprimiu em 1560? 

Ernesto Vieira diz que foi escrita neste ano de 1560 e Joaquim de Vasconcelos 
atribui-lhe mais valor, pois diz que nal obra custou ao Autor 40 anos de trabalhos. 

A i Arte de Cantochao chegou a ser re vista por Palestrina e Antonio 
Boccapadula, entao Mestre da Capela Pontificia e Secretario de Gregorio XIII. (Cf. 
Vase, Ob, cit., pag. 153, 2." vol.). 

Chegou mesmo a passar-se o alvara de licenca para a sua publieacao (que 
tem a data de 5 de Marco de 1576), donde se sabe que Frei Joao Rodrigues era 
vigario da igreja de Santa Maria na Vila de Marvao no Bispado de Portalegre. 
O titulo completo da obra que, no final de contas, o mais certo € nunca ter ouvido 
os gemidos do prelo, era este: Arte de MuSica da reformagao e perfeicao dp canto- 
ckao e de toda a musiea contada e tangida. (Cf. Er. Vieira, 06. fit., pag. 262, 2. vol.). 

( ,! °) Parece ter sido discipulo do famow Octavio Pittoni. Joao Rodriguea 



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mClONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



Esteves foi nm dos bona Mestres compositores Portugueses mandados a Italia por 
D. Joao V. 

(Cf. Sampayo Eibeiro, A Musiea em Portugal..., pig. 25). 

Joaquim de Vasconcelos fez nascer D. Joao de Santa Maria, em 
Tras-os-Montes, o que e erro, pela certa. 

{122) joao da Silva Korais riasceu a 27 de Dezembro de 1-689. lEetudou no- 
Real Colegio dos meninoa orfaos, onde teve por mestre frei Bras Soares da Silva, 
Em 1763 ainda este autor vivia, pois foi urn dos compositores do tempo que 
deram em carta o seu parecer sobre a «Nova Instrucao Musical* de Francisco Inacio 
Solano. Deve ter passado desta vida pelas anos de 1764 ou 65, aegundo opiniao de- 
Ernesto Vieira. (Cf. Ob. tit., pag. 101, 2.° vol.). 

(123) jjoSo Soares Eebello, ... foi grande musico esteve com seu irmao Marcos 
Soares em a Capella de V. 1 Vieoza foi o melhor Compoaitor do seu tempo esteve 
doudo em Lisboa El-Rei D. Joao 4 o mandou curar veio a seu juizo EIRey Ihe deu 
o filhamento com duzentos mil rs. de juro e Erdade Casou com D. Maria de Macedo 
f.» do Dr. Dom." Rodrigues de Macedo Com.' 1 " de Muncao e familiar do S.'" officio 
e mulher D. Catherine de Macedo.> 

Assim consta da pag. 850, do oitavo volume das Mem&rias Ganealdgicas, da 
Jose do Vale Campos Barreto de Magalhaes Bacelar, segundo o Dr. Goncalo Sam- 
paio (Obra, eitada, pag. 17). 

Jose Mazza reproduz o erro de Barbosa Machado, chamando & mae do «Re- 
belinho* Domrngas Lourenco, quando era Maria seu nome de baptismo. Tambem diz 
que Joao Soares Rebelo foi mestre del-Rei D. Joao IV, o que nao me pareee crivel- 
Foi, aim, seu companheiro de estudo, maa nada mais. 

O cRebelinho* chegou a Vila Vicosa com 15 anos de idade, andava o Duque 
de Barcelos nos vinte, e nao 4 de crer que se arwaase em seu professor, tanto mais 
que ja la havia mestres — entre os quais se contava a ingles Roberto Tornar, de 
quern existem composic.oe3 no Arquivo do Palacw Ducal — e tinha acabado de che- 
gar nm outro, o Padre Marcos Soares Pereira, irmao mais velho de Joao Lourenco. 

No Museu Regional de fivora existe um retrato a oleo — provenience das 
coleccoes de D. frei Manuel do Cenaculo — que, em Marco de 1942, foi exposto em 
Lisboa, no Palacio da Independent a, na Exposicao de Arte e Iconografia «Peraona- 
gens Portuguesas do Seculo XVII» promovida pela Academia Nacional de Belaa- 
-Artes (n.° 43 do respectivo catalogo). Representa ran musico, muito provavebnente 
compositor, que ostenta, pendente do peito, a insignia da Ordem de .Cristo. Antes 
da abertura da Exposicao, Mario de Sampayo Ribeiro, consultado pelos organiza- 
dores, sobre a provavel identidade do ratratado, foi de parecer que deveria tratar-se 
da vera efigie do s Rebelmho>, muito plausivelmente a que estava. na Livraria Real 
de Musica. Aasim deve ser, com efeito, poia tudo concorre para avigorar a opiniao 
daquele ilustre music61ogo e meu amigo (Ver nota n.° 155) . 

(is*) Joao de Souaa, segundo Ernesto Vieira (Die. biogr., 2." vol., pag. 841) r 
nao deve ser confundido com Joao de Sousa Carvalho. 

Mario de Sampayo Ribeiro, porem, contesta o facto e, a meu ver, com in- 
leiro fundamento na sua achega A Miteica em Portugal nos S6eulos XVIII e XIX 
(cf. uaga. 77 e 78). 

(lis) £; estranho que Mazza se tenha limitado a apontar o nom e do maicr 
compositor portugues da segunda metade do seculo XVIII sem lhe juntar qualquer 
noticia. Ao que Ernesto Vieira e Mario de Sampayo Ribeiro escreveram so tenho 
a acrescentar o encontro do seu termo de baptismo, por mim feito, gracas a indi- 
cacao de Sampayo Ribeiro, que apos anos de buscas, alcancara dar com o registo 
do casamento de Sousa Carvalho. insigne musico setecentista nasceu em Estremoz 
a 22 de Fevereiro de 1745, sendo baptizado em Santo Andre. £ de esperar que o 
facto seja comemorado condignamente a quando da proxima passagem do segundo 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



S7 



centenario do nascimento. Veja: Oeidente, n.° 55, Novembro de 1942, paginas 328 
e seguintes. 

( 12 °) O nome complete deste musico era Joaquim Pereira Cardote. Foi tam- 
bem compositor. Nasceu_em 1752 e morreu em 1812. (Ver Ernesto Vieira, Ob. cit., 
1-* vol., pas. 219 e 2.° vol.', pag. 424). 

('") Joaquim Pecoraria era irmao de Antonio Pecorario. Foi com ele enviado 
para o Conservatory de Napoles (Santo Onofre) onde entrou em 23 de Marco de 
1756. No casamento de Jo&o de Sousa Carvalho represenltou a noiva por procuracao. 
(Vide: Oridente no lugar citado em a nota n.° 125 e Mario de Sampayo Ribeiro, A 
Musica. em Portugal..-, pag. 77). 

('") Mazza, a seguir a noticia de Mexelim, repetiu ipsis verbis a de Joaquim 
Cardote, ja dada atras. Nao a inseri por se me afigurar escusado. 

(i2s) Ernesto Vieira da Alvares Mosca a exercer o lugar de organista da 
Patriarcal a partir de 1800. Devia, porem, ja se-lo anteriormente, visto que Jose 
Mazza o menciona aomo tal e o autor do Dicionario, que estou anotando, faleoeu 
em 1798. 

('so) Dos seis nomes que se seguem no manuscrito de Mazza so tenho noti- 
cias de Jose Joaquim dos Santos e de Jose Joaquim Paixao. Com os mais verificar- 
-ee-iam as condicoes a que aludi na nota n.° 2. 

Jose Joaquim dos Santos foi dos mais notaveis eompositores que tivemos na 
legunda metade do aeculo XVIII. Discipulo de David Perez, estudou no Seminario 
da Patriarcal. Passado a mesitre da escola em que aprendera, ai ensinou o resto da 
vida. Faleceu em 1801. 

Jose Joaquim da Paixao, violinista, organista e compositor, entrou para -t 
Innandade de Santa Cecilia em 1798. Em 1812 ausentou-se para a Ilha da Madeira, 
tendo fixado residencia no Funchal. 

(■Cfr. Ernesto Vieira, Ob. cit, 2.° vol., pags. 150 e 274). 

( 131 ) Jose Mauricio foi organista e fecundo compositor de musica religiosa, 
lente de musica na Universidade e mestre de capela na Se de Coimbra, cidade onde 
nasceu a 19 de Marco de 1752. Morreu fulminado por urn ataque apopletico em 12 de 
Setembro de 1815, quando tomava banho na praia da Figueira da Foz. (Cfr. Ernesto 
Vieira, 06. cit., 2." vol., pag. 70). 

(133) a unica noticia que existe a respeito deste musico e a que o proprio 
Mazza da quando trata do frade 16io Dr. Manuel da Purificacao, cujo professor de 
Miisica foi Isidoro Alvares. 

(is3) No codice, a seguir a esteMiome de baptismo, foi escrito e rabiscado um 
apelido que talvez f6sse sArdase*. Seja como for, com oa sem apelido, nao sei quern 
seria este Leocadio. Mais um nas condicoes da nota 2). 

(13 4 ) Viveu este autor na segunda metade do seculo XVII (Cfr. Joaquim de 
Vasconcelos, Ob. cit., 1.° vol., pag. 267). 

( 13i ) fi o autor dos celebres solfejos por onde muitas geracoes de mtisicos 
aprenderam os rudimentos da Arte. 

Luciano Xavier dos Santos foi excelente compositor, no parecer de Ernesto 
Vieira. Foi tambem condiscipulo do celebre teorico Francisco Inacio Solano; ambos 
aprenderam com D. Giovanni Giorgi (Joao Jorge) na escola de musica religiosa fun- 
dada por el-Rei D. Joao V em Santa Catarina de Ribamar. Faleceu a 2 de Feve- 
reiro de 1808. 

fi interessante notar que e3te compositor, con temp oraneo e emulo de Joao de 
Sousa Carvalho, punha devotamente a cabeea das suas partituras, talvez ao comeca-las, 
as iniciais da Sagrada Familia (J. M. J. — Jesus, Maria, Jose) a que juntava o 
nome e a data. 

(i3B) Trata-se do c6nego regrante de Santa Cruz de Coimbra, D. Carlos de 
Jesus Maria. Luis da Msia \Croesser e anagrama a coberto do qual publicou o Resumo 



88 DIC10NAR10 BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



daa regroa geraes mats imporUaites, e necessariaa para a boa inteUigencia do ean- 
tochao, com huma instruccam para os Presbyteros, Diaconos e Subdiaconvs, can forme 
• uso Romano, que tal e o titulo da tArte de Cantochao> a que Jose Mazza se refere. 

(i3ij Yd discipulo do Padre Filipe de Magalhaes. . Exerceu o mestrado da 
Capela da catedral de Saragoca desde 13 de Setembro de 1650 ate o primeiro dt 
Agosto de 1653, dia em que faleceu (Cfr. Higino Angles, La Musica en Espana, in 
Historia de la Musica, de Johatine Wolf, edicao Labor, de Barcelona, pag. 400, e 
Ernesto Vieira, 06. eit., 1.* vol., pag. 296). 

(i38j o nome complete deste compositor e cantor portugue3 e Manuel Correia 
do Campo. Nao -tern nada com o Frei Manuel Correia a que se refere a nota anterior. 

Pela carta que, sen do Racioneiro da Se de Sevilha, dirigiu eal maestro Diego 
de Pontac» com a data de 2 de Agosto de 1633, ae sabe que nasceu em 1593 e que 
lhe chamavam em Lisboa o tmenino Loyo>, talvez por ter sido moco de coro no Con- 
vento dos L6ios, onde recehera a primeira educacao musical. Refere-se tambem a 
sua estada tia corte do Duque de Bragan^a em Vila Vicosa. 

Quanto ao ter sido aluno do «Colegio dos mogos da capela*, ao depois «Colegio 
dos Santos Reis Magos*. pareee-me duvidoso. D. Teodoaio, 2° do nome, Duque de Bra- 
ganca, fundara aquele Colegio por alturas mais ou menos de 1609; or a nesta altura 
ja Manuel 'Correia tinha 16 anos de idade e a voz de tiple ja normal men te tinha 
desaparecido ha via muito. jTeria ido mesmo nesta idade para o Colegio e sera ele o 
Manuel Correia que apareee entre os primeiros cinco alunos? 

A supfi-lo, teria sido condiscipulo talvez do Padre Antonio Fernandes, future 
professor e autor da famosa obra teorica Arte de Canto d'orgam, que foi dedicada 
ao grande Duarte Lflbo. 

Os cinao primeiros alunos do Colegio dos Santos Reia Magos de Vila Vicosa 
foram os seguintea: Simao Pereira, Manuel Correia, Afonso Vaz, Manuel Dias e An- 
tonio Fernandes. (Cfr. P. e Joaquim Jose da Rocha Espanca, Compevdio de notidas 
de Vila Vicosa, Redondo, 1892, pags. 187 e 364 e a cronica de Mario de Sampayo 
Ribeiro, publicada em ■Oeidente, n.° 54, vol. XVIII, de Outubro de 1942). 

(i3») Trata-se da meama pessoa que o anterior. 

("•>) Suponho tratar-se do Manuel Dias, citado em nota antecedente, que 
foi om dos cinco primeiros alunos do Colegio daa Reis. Quanto ao que dGle set diz, 
ao sei dizer que as sua9 obras me sao desconhecidas e que Manuel Joaquim nao o 
mencionou no importante trabalho que publicou em O Jomal de Elvas. Ai referiu un> 
outno nome, Manuel Garcia ou Manuel Garcia Soeiro, que ninguem mais citou at£ hoje. 
Para os devidos efeitoa aqui se arquiva o que o ilustre music6k>go afirmou a respeito 
deste ultimo: 

MANUEL GARCIA 

No lAvro da Fabrica da See, com data de 1598 a 1638, e na parte que diz 
reapeito aos anoa de 1598 a 1602, a fla. 17, encontramos noticia deste mestre de capela 
no seguinte lancamento: 

<Item despendeo mais o dito depoaitario 

oitenta e seis mjl e cento e nouenta e quatro rs... 86?I94 

q. deu ao mestre da capella manoel gracia 

pera suatentacao doa mocos do choro que 

teue em sua caza e de alguns caminhos 

que fez a buscar moaaos do choro e outras 

co us as tocantes a dita fabryca.> 

ft muito importante este passo, por provar que o mestre da capela de Elvas 
tinha de andar i alguns caminhoaj a tbuscar moaaos do chore*. Temos conhecimento 



SKIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



89 



de que Joao Jorge Reutter (1708-1772) mestre de capela da catedral de Santo Estg- 
vao, em Viena, fazia excursoes nos arrabaldes desta cidade em busca de meninos, 
qne tivessem boas vozes, para pod e rem can tar na sumptuosa Catedral. Foi nana 
dessas excursoes, que Eeutter descobriu um pequeno de rove anos, chamado Jose e 
que mais tarde assombrou o mundo com o sen genio e que a Historia da Musica re- 
gista com o nome de Jose Haydn. Note-se que Eeutter desempenhava esta papel no 
seculo XVIII e Manuel Garcia em principios do seculo XVII. 

MANUEL GARCIA SUEIRO 

A sua presenca em Elvas, como mestre de capela, e aatenticada no ano de 1613 
pela ordem que o Bispo de Elvas dava a Gomes Aires e que diz: 

tS.°' Gomes Aires do dinheiro da fabrica da nossa see de que V. M. he de- 
positaries mandara dar, ao mestre da capella della dous mil rs. e a Bertholameu peres 
charamela tres cruzados, e a fr.<° peres sacabuxa outros tres cruzados, a V,"° sutil 
baixao outros tres cruzados, e aos dous charamelas menores seis e. l °" rs. a cada hu 
e aos padres fr. c ° diaz, g." glz e vicentalurz, cantores seis c."" rs, a cada hum, e a 
An. 1 " Nunes, A.° Mendes, a diogo dias cantores quinhentos rs. a cada hum, e aos 
quatro mocos do choro, Afonso, Ant.°, fr.°° e Gabriel dozentos rs. a cada hum, e aos 
outros dous mogos do choro, joao, e Amdre, e a hu filho de Anrrique Alurz, quatro 
centos rs. a cada hfi e aos dous andadores, da sancristia. a cada hum quinhentos rs. 
e [a] joao Mendes quartanario q. canliou as paixonins (sic) quatro c.'" rs. e aos padres 
p.° vaz e fr."° vaz dozentos rs., a cada hu, e ao tangedor do orgao quinhentos rs., e 
ao Mestre das ceremonias mil e quinhentos rs. de q. a todos e a cada hu delles faze- 
mos merce por esta uez som." q co este assinado sendo como cada hfi recebeo sua 
parte... (ilegivel). 

elvas treze dabril de seis centos e treze, 

O Bpo-delvas.* 

No verso encontra-ae a assinatura do antiata: aresetoi dos mil reis. Manoel 
Garcia Sueiro.> 

Esta assinatura, feita em 1613, e o facto do Dr. Francisco de Paula Santa 
Clara mencionar um Manuel Graeia Soeiro na biografia do 2." Bispo de Elvas, D. An- 
tonio de Matos de Noronha (1530-1610), que foi publicada a pags. 144 e seguintes 
do II volume do Diciondrio do grande investigador Victorino de Almada, quasi nos 
faz acreditar que Manuel Garcia Sueiro e Manuel Gracia sao a mesma pessoa. Nao 
encontramos a mais pequeno indicio de que fosse compositor e sobre a data do sen 
falecimento todas as investigacoes resultaram infrutiferas. 

(Manuel Joaquim, Documentos para, a Hist6ria da Miisica da Se~ de Elvas, 
in-Jornal de Elvas, n.° 59, serie VI, de 23 de Dezembro de 1928), 

Em cadendas a seu trabalho — Cfr. Jornal de Elvas, n.° 90, aerie VIII, de 
4 de Agosto de 1929 — Manuel Joaquim publicou mais a seguinte nota concemente 
a este mestre de capela da Se elvense: 

tEra vivo em 13 de Outubro de 1624, e casado com Maria Borralha; Cfr. 
Casamentos •de S. Pedro, de 1618 a 1629, fls. 189 v.y 

Ainda se pode ler no lAvro de Baptizados de S. Pedro, 1618-1628, fl. 93 : cAos 

vinte e outo diaa do mes de .Dezembro de mil e seis centos e vinte e seis 

foi padrinho M.'i Soeiro da Capela. ..» 

fi, por certo, o mesmo artista, que, entao, viveu pelo menos atfi 28 de De- 
rembro de 1626.> 

(**') Segundo Barbosa Machado, foi mestre de composiijao de Francisco de 
Valhadolide. Joaquim de Vasconoelos (Ob. eit., 1." vol., pag. 102) reproduz a nottcia 
e Ernesto Vieira nao o refere especialmente. 



90 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



i 1 ") O verdadeiro apelido deste autor e Avilez. Viveu na primeira metade 
do aeculo XVII e compos uma missa Salva Tkeodosvan, a 12 vozes, que se guardava 
na Biblioteea de D. Joao IV — caixao 36, numero 812. (Cfr. BibL Lusit., torn. Ill, 
pag. 294, e Index <da Livraria de Musica, de D. Joao IV, edicao de Joaquim de Vas- 
concelos, pag. 461). 

C*3) Pode ser que assim haja aido. Manuel Joaquim, porem (06. cit.), nao 
se lhe refere. 

(■") «ManueI Machado, natural de Lisboa, y discipulo del eelebre Duarte 
Lobo, miisico de eapilla de Felipe III de Espana y Portugal, autor de muchas obras 
religiosas y villancicos, vivia aun en 1639». 

No sCaneumero musical y poStico del sigh XVII recogido par Claudia do la 
Sablonara (Madride, 1916) veem quatro composicoea deste ilustre portuguse. 

Num manuscrito da Biblioteea Nacional de Madride, com a cota 1262, ha nada 
menoa de 222 tamos, entre oa quais alguns sao de Manuel Machado, do padre Manuel 
Correia, de Felipe da Cruz e de autores espanhois. 

(Cf. pag. 407 — La Musica en Espana, por Mn. Higino Angles, in Historia 
de la Musica, de J. Wolf., Edit. Labor.). 

("*) Contra a afirmacao de Jose Mazza, Manuel Mendes deve ter nascido em 
Evora e em fivora faleceu a 24 de Setembro de 1605, 

Assistiu, na sua qualidade de Bacharel da Se de fivora, ao fazer dos Eata- 
tutos doa Ba chare is, em 1580. (Na Se de Lamego existe um grosso volume de misaaa 
de Cristovao Morales, impresso em Leao, com o tftulo: cChristofori Moralia Hispa- 
lensis Misarum Liber Secundus>. E, no fin\ eneontra-se uma composicao ms. e ilumi- 
nada, do P.* Manuel Mendes, v. g. Manoel Luzitano ou M. Mendes Luzitano. fi uma 
missa pro defunctis sem sequencia mas com o respectivo tLibera me», que esta incom- 
pleto. Tern o no me de t Emanuel is Lusitanii como autor. 

Este apendice e, sem diivida, precioao, pois nem sequer era mencionado no 
oatalogo da Livraria de D. Joao IV. (Cf. pag. 10 e 11 de Subsidios para a historia 
da Musica em Portugal. 1934, Braga, por Goncalo Sampaio). 

Ha poucos anoa so, encontrou o Biblioi«cario do Palacio Ducal de Vila Vicosa, 
Sr. Dr. Joao de Figueiredo, um Asperges a 8 vozes do P.° Manuel Mendes, que ja 
tive ocaaiao de ver. 

T t 

Em fivora, na Biblioteea Publica, no cod ice que tern a cota: cod. 

i — 3, 

guardam-ae os restos da que foi — Missa Ferialis, do P." Manuel Mendes. 

Disse — guardam-se os restos — porque e ja totalmente impossivel recons- 
titui-la no estado laatimoso em que se enconltra. O tempo, aliado com a tinta que o 
escriba usou, deploravelmente inutilizaram as paginaa, que guardavam este pequeno 
eapolio de Manuel Mendes, bem como um moteto — tPueri Hebraeorum* — do 
P.* Duarte Lobo. 

Felizmente, porem, nao o fizeram tao depressa que nao fosse possivel aal- 
va-la a tempo e ate da-la ao conhecimento do publico. FS-lo com devocao muito de 
louvar Manuel Joaquim e publicou-a a revista dos alunos do Conservatory do Porto 
Musica, valorizando-a noma formosa e rica edicao em separata. Manuel Mendes e 
dado por lErnesto Vieira, (pag. 82, 06. «(., 2.° vol.) como tendo sido profeaaor de 
Joao Lourenco Rebelo, o que representa um lapso imperdoavel. 

Quando nasceu o <Rebelinho> ja o P.* Manuel Mendes havia falecido havia 
quatro anoe. Donde a imposaibilidade de contacto pessoal. 

Foi confuaao com Manuel Rebelo, pela certa. 

O P. e Francisco Fonseca, na pag. 413 da sua Evora Gloriosa, faz a seguinte 
referenda ao Padre Manuel Mendes: «Manoel Mendes, Mestre da Capella da Se de 
Evora no tempo do Cardeal D. Henrique, imprimio a Arte do canto ckao. Hum Livro 
da Muzica, e diversos Motetes e Vilancicos. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 91 



O que Faria e Sousa diz de Manuel Mendes, na sua ofcra poetic a — Fnmte de 
Aganipe, e o aeguinte: 

<Eran elloa el Mendea sonoroso 

que de Musi cos lien a a tod a a Espafia.> 

E mais abaixo: 

«Del Mendes raro a la Nobreza cupo 
el canto que es de ordos el arroho; 
la opulencia cantava quanto supo 
no en fabula enseiiar el docto Lobo.> 

Apesar doa dizeres do Padre Francisco Fonseca, nao ha a minima noticU de 
qualquer livro impreaso da autoria do P.' Manuel Mendea. Chegou a pensar nisso e 
eomegou a entabular negociacoes o sen discipulo Padre Tome Alvares, em cuja opiniao 
Manuel Mendes foi mestre de tSda a boa Miisica dgste Reino, mas infelizmente tudo 
•e gorou porqoe neata altura ja o grande Mestre era falecido. 

(Cf. Mario de Sampayo Eibeiro, A Musiea em Portugal tios seeulos XVlll e 
XIX, pag. 45, Ernesto Vieira, 06. tit., pig. 82 e Goncalo Sampaio, 06. eiL, pags. 
19 e 20). 

('«) Entenda-se que e A Umdroal a terra de Fr. Manuel Pousao. Barbosa Ha- 
cnado diz que a obra que vem eitada no texto foi publicada em 1576. 

Como faz notar Ernesto Vieira, se Pousao faieceu em 1683, com perto de 
90 anos, segue-ae que naseeu por alturas de 1590 e entao teria publicado o sen Liber 
PaeBionum antes de ter nascido. Talvez por iter dado pelo evidente Iapso, Jose" Hazza 
suprimiu a data de 1576 eomo suspeita, o que alias Joaquim de Vasconcelos nao fez, 
aceitando-a sem pestanejar! 

Trata-ae, no fim de contas, duma troca de algarismos e onde esta 1576 deve 
ler-se 1675. 

>Em 1926 havia em Braga, na Livraria de Jose Gomes, nada menos que trSs 
exemplarea do livro de Fr. Manuel Pousao. Foi af que o Dr. Goncalo Sampaio os 
viu e p6de emendar o erro, pondo a na a verdade da data da impressao. (Cfr. -06. eit, 
pag. 24). 

('*') Manuel de Faria e Sousa, na Fuente de Aganipe, lugar citado no texto, 
refere-se a Manuel Rebelo nestes termos: 

«Y Rebello, que puede, desde el Monte 
Pindo, baxar osado al Aqueronto 

E em nota explica: (Manuel Rabelo, insigne Maestro de Musica em Evora.> 
Vivett o padre Manuel Rebelo nos meados do seculo XVII. 
Acerca da sua viiia ma is nialda fie sabe por emquanto. 

Segue um documento que se lhe refere e do qual Be depreende quanta consi- 
deracao havia pelo seu nome no Paco Real : 

«Eu el-Rei faqo saber aos que este aluara virem que aaendo respeito no que 
por sua paticao me enuiou dizer Manoel Rabello, mestre da .Capella da se de Evora 
acerca de lhe ter feito merce de hum aluara de promessa de officio pera hfia sua so- 
brinha, e ora estar vago o officio ide Ubaliam de notas na cidatie de Euora por fale- 
cimento de Antonio Gomes Mariz, ei por bem de fazer merce da propriedade deste 
officio ao supplicant* em satisfa^ao do aluara que tem pera eaaamento da sobrinha 
que nomear, morrendo este proprietario sem filhos e nao hauendo inconueiente: pello 
que mando aoa meus dezembargadores do pa«;o examinem a pesoa que ouuer de casar 



n BICIONARIO BIOGRAFKO DE M0S1CVS PORTUGUESES 



com a dita sua sobrinha, em quern elle nome&r o dito officio, e sendo apto e nao ten do 
impedimento algum pera auer de seruir, lhe darao disso despacho para que depois 
que fiear certo estar c as ado e recebido com ella por palauras de present e, na forma 
do sagrado concilia tredentino, lhe ser pasado carta em forma delle, pagan do primeiro 
03 direitos ordenados com declaracao que hauendo eu por bem de lho tirar em algum 
tempo, minha fazenda lhe nao ficara por isso obrigada a satisfagao algua, e este 
se comprira, constando primeiro por certidao das officiaes dos nouos direitos de eomo 
os pagou, deuendoos, na forma de minhas ordens, e ualera, posto que seu effeito aja 
de durar mais de hun anno sem embargo da ordenacao do liuro 2.° titolfl 40 em 
contrario. Antonio de Moraes o fez em Lixboa a desaseis de abril de mil e seis centos 
quarenta e sete. Pero de Gouea de Mello o fez eserever.* (Torre do Tombo, Chance- 
laria de D. Joao IV, Doagoes, liv. 17, fol. 370 v., in- Sousa Viterbo, Subsidios, 
cit, pag. 465). 

— - (>«) Manuel Joaquim, no valioao .trabalho a que por mais de uma vez tenho 
recorrido, nada adianta de important*. 
Oucamo-Lo : 

(Sob re este musico elvense, que foi notavel ao lado de Frei Hanuel -Cardoso, 
Duarte Lobo, Filipe de Magalhaes e outros notaveis contrapontistas Portugueses, nao 
podemos, nem sabemos, dizer mais do que o grande investigador musical Ernesto 
Vieira, disse... 

Todas as investigates a que procedemos, nada nos disse ram de positivo sdbre 
a presen^a deste ilustre artista em Elvas, pois que a assinatura do « Padre Meatre 
Manuel Rodrigues>, feita em 15SS, no Lwro dos Baptizados da Se de Elvas, de 1567 
a 1590, e as do s Padre Manuel Rodrigues>, feitas no ano de 1598, no IAv.ro dos bapti- 
sados da Egreja Parrochial de N.' S.* de Aleasoua, de 1583 a 1612, nao nos satisfi- 
zeram, apesar de D. Francisco Manuel de Melo, Barbosa Machado e InocSncio da 
Silva, designarem esta gloria elvense, simplesmente por P." Manuel Rodrigues. Por 
curiosidade registamos ainda do L/ivro de Obitos da Aled^ova, de 1613 a 1679, pag. 515, 
o nome dum Diogo Rodrigues Coelho, falecido a 7 de Maio de 1642 e que pode, muito 
naturalmente, ter sido parente do autor das Flares de Musica*. 

(Jornal de Elvas, vJ" 56 e 58, serie VI, da 2 e 16 de Dezembro Vie 1928). 

Pela grande importfincia que tem, embora sem ligacao directs com o Padre 
Manuel Rodrigues Coelho, nao resisto & tentaeao de reproduzir aqui a introducao 
do trabalho de Manuel Joaquim sobre a musica na Se de Elvas (Cfr. Jornal de Elvas, 
n.°' 53, 55 e 56, serie VI, de 11 e 25 de Novembro e 2 de Dezembro de 1928) : 

tOs documentos que o Jornal de Elvas vai arquivar nas suas colunas, sao 
produto de pacientes investigates feitas desde 1921, data em que fomos colocados 
nesta antiga e nobre cidade de Elvas, pela qual, logo a chegada, sentinrws uma grande 
admiracao, e a que hoje estamos ligados por lacos de amizade e de familia, que difi- 
eiimente se podem partir. 

Atraves do nosso modesto trabalho encontramos muita vez quem nos encora- 
jasse, falando-nos da grande satisfasao que nos causa um simples papel amarelento, 
as vezea quasi podre, e que vem — no fim de meses e, ate, de anos — como premio 
ao trabalho que ninguem n03 pede. 

Esse alguem, a que aludimos, 6 o ilustre bibliofilo Sr. Antonio Torres de 
Carvalho, que com a sua amizade nos tem sempre distinguido, e que mais de uma 
vez nos aconselhou — o que, ali&s, tambem teem feito alguns nossos verdadeiros ami- 
goa — a que dessemos publicidade, mesmo sem ordem cronologica (visto ter sido 
imposstvel obt£-la ate hoje) ao fruto da nossa dedicacao & Arte. 

Aos leitores, que se interessem por esta seceao, pedimos a paciencia necessaria 
para a leitura destes documentos, que, quanto a nos, devem ser reproduzidos tal qual 
os encontramos, afim de nao perderein o labor arqueologieo. 



DIC10NARI0 BIOGRAFICO DE MOSJCOS PORTUGUESES 98 

documento mais antigo que encontramos toi dado por D. Antonio Mendes 
de Carvalho, 1." Bispo de Elvas, que nesta cidade entrou a 23 de Outubro de 1571 
e aqui faleeeu a 9 de Janeiro de 1591. Ei-lo: 

REGIMENTO DO M." DA CAPP.- 

g i.* — As obriga^oins do M.' da Capp.* ado as segutntee, sera obrigado, a 
enainar aos mossos do eoro eantoehao canto de or goo; amtraponto, e compor, e hem 
aes'im a todos, os q. quizerem. aprender p.* este efeito hauera 2." liooins coda dia 
huma pella manhaa de cam.toehdo, e cvntrapxmta antra a tarde de eanto de organ e 
composiedo; is to de graca. 

g !.' Sera obrigado a eantar PsaL de canto de orgdo Hinno, e Manifieat 
com os cantores, em todas as festas de capos de Conigos nas 2." vesporas das ditas 
festas sera obrigado somente Him.no, Manifieat, ttrando, em natal, Ressurreigdo, Pen- 
tecoste. Corpus Xpi, Assumpcdo, S. P.', e Sao Paidio que nest-as festas sera obrigd.' 
a eantar Psal. nas 1." e 2." vesporas, e as missas dos proprvos dias de eanto de 
orgdo, e todos os mais, q. a nos ou ao 'nosso Cabb.' pareeer, q. eonuem. 

§ S Sera obrigd." em todos os dias de Aposttdlos, Eiutngelistas Doutores da 
Igr.*; e mais dias de goa/rda amtar Himno, Manifieat. de canto de orgdo nas 1." 
veap.; e ossim mesmo eantar as missas de eanto de orgdo nos d." dias, e em todos os 
D. ', e dias santos de goarda, e nas cathedras de S. P.", em a festa de S. P." aduin- 
euila na commemoragdo de S. Paullo, e de S. Thomas, q. aastm. o ordenou o Jtd.' Cabb.' 
a mandou se puzesse na taboa do ehoro. 

% U Sera obrigd.", em vesp. da commemora^ao dos defuntos eantar Manifieat. 
de eanto de orgao tios vesporas, e no propria dia benedictas, e missa, e o derradr.' 
responso, qd.' andarem sohre os defuntos. 

§ 5 Sera obrigd.' cantor eompletas de eanto de orgdo todos os Domingoa, 
da quaresmu. 

% 6 Sera obrigd.'; na noate de Natal cantor o Himno das Matinas, e os res' 
ponssorios, e tkedeu \baudamos, e de ordetrar xempre alguns vilianctoos p.* a feata, 
e ossim p.* a noute coma pera o dia. 

5 7 Sera obrigd." acharsse prezente, em todos os off.°" q. pelo Chantre thes 
for em assignados, em q. se aehar o 'Cabb.", e assitn nas proeisaoins dos 3." Domingos 
dos mezes do aantissimo saeramento. 

§ 8 Sera obrigd.- kir com a Capp.* em todas as proeieoins gerais, e ordi- 
narias, a q for o Cabb.", e nellas eantar o q pelo Chantre Ihes for ordenado, e kir&o 
os secullares com as cabeqas deseubertas. 

§ 9 Faltando, em coda huma das couzas assima ditas o Chantre o mvltara 
athe 100 reis conforme os defeitos. 

Este documento demonstra, sobretudo no § 1.*, que o Mestre da Capela tinha 
de ser um musico muito habil, pois que, alem do eantoehao, do canto de orgao — mu- 
aica sujeita ao rigor do compasso — e do contraponto (a eiencia harmonica do tempo) 
ile tinha de ensinar a composieao e ordenar (que nos interpretamos por eompor) pelo 
menos alguns vilancicos, conforme detercninava o § G.°. 

Pela doutrina dos §§ 2.', 3.°, 4.\ 5.*, 6.° e 8." temos de coneluir que tinha 
de ser um cantor de roerito, pois tinha enormea responsabilidades impostas pelos 
referidos par&grafos. 

£ ainda o 1.° Bispo de Elvas, D. Antonio Mendes de Carvalho, que imp6e as 
obrigacoes ao Mestre do 6rgau, ou organista, elemento indispensavel ao aervico duma 
Capela no aeculo XVI. 



M DfCIONARIO BIOGRAFICO DE M&S1C0S PORTUGUESES 



Eis a regal a men to que ttie diz respeito: 

REGIMENT DO MESTRE DE ORGAO 

§ 1.' As obrigagoins do M.' do organ »ao as segumtes: Sera obrig. to tanger 
todos os dias de capos de conigos pella mameira seg.", em materias de H initios Anti- 
phana Respvnssorios dos nocturnos Te Deum Aintiphona das Lawdaa Benedietus himno 
Deo Gracias do Benedicamus faitando ao principio perdera SO rtis a todas as Ma- 
tmas 100 rs. 

§ ! Sera obrigado tanger a missa vesporas pr.", segwndas, e eompletas sob 
a dita pena, 

% 3 He obrigado nos duples per annum tanger as laudas missus, e ■vesporas 
primeiras, e segd." e eompletas faitando ao principio perdera SO rs. faitando a tudo 
por qualquer eauza das sobreditas perdera SO rs. 

% i He obrigado a todos os domingos, e sabados a tarde, excepto em advento 
e quaresma, porem no 3.' do adevento, e i° da quaresma kauera orgao sob a d. % penna, 

§ 5 Sera obrigado tanger as primeiras vesporas e S." e as Lawdas da Capi- 
tulla por diante, e assim as compUtas, e a missa, em todos os ssimidupliees, infra 
octavaz as missas de N. Senkora nos sabados, quando se reze della e sob penna de 50 rs. 

S $ Deve tanger as eompletas dos Dom."' da quaresma excepto no de Ramos 
sob penna de 100 rs. 

§ 7 Sera obrigado tanger dia de Corpo de D.' qd." sake a procissao te sakir 
o sacramento da porta principal, e assim, quando tornar a emtrar sob penna de 100 
reis sob a mesma penna sera obrigado tanger nos festas principals, quando emtrar 
o Prellado na Igr.\ e quando celebrar, tambem d sahida, vindo algum PreUado a quern 
o Bispo queira onrrar sera obrigado a tanger, emquanto estiverem orando: e no ponto 
final sera obrigado a tanger a terca, emquanto o Bispo se revestir e assim mats todos 
as vexes q. por nos on pello Cabb." Ike for ordenado, q. tanja sob penna as auais 
pennas sdo pera a jabrica. 

(Duma copia, dos tEstatutos do III? e Rd.' Cabido da Santa Igr.* Cathedral 
da cidade de Elvas, feitos por D. Antonio Mende3 de Carv&lho, e que pertencem a 
Joao de Borja do Amaral, Conego e Penitenciario da mesma Catedral no ano de 1804>>. 

Num doeumento de 1577, assinado pelo Cardeal D. Henrique, faz-se, por in- 
dicacao do 1.° Bispo de Elvas, a reparticao das prebendas da Se, e ai se diz: 

Ordenamos e ereamos das dittos rendas vinte e quattro prebendaa eguoes, e 
que duos deltas haja o Daydo. 

Quattro assignamos a quattro dignidades, e outra prebenda rnais para ■* 
repartir egualmente autre estas quattro dignidades. 

Aplioomos dez prebendos para dez eonegos. 

Uma para dons meios oonegos. 

Outra para o mest/re da eapella e para a tangedor dos orgaos. 
Outra para a Fabriea. 
Outra para os mocos do coro. 
Outra, etc., etc. 

Por 6ate document*) ve-se claramente que a Se de Elvas tinha regulameii- 
tada a paga do mestre de capela, organista e mo;os do coro. 

Sdbre o vencimento dos cant ores, eles warn pagoa, em 1599, pelo cofre ca- 
pitular, poia que o notavel antiquario elvense, Francisco de Paula Santa Clara, no 
sea livro O Deado va Si iTElvas, a pig. 3, diz: 

<E logo em cabido, convocado ao som de eampa tangida em 18 de Julho fre- 
fere-se ao ano de 1599 em que Elvas foi invadida pela peste ) oa capitulates era 



DfCIONARIO BIOGRAFICO DE MCSTCOS PORTUGUESES 



95 



grande sobresalto e torvados accordaram p3r ponto immediatamente nas rezas eoraes; 
e em camprimento do estatuto decimo fizeram eleicao de seia capellaes, que por con- 
trato se obrigaram a ficar cantando na cathedral durante a epidemia; sendo eada 
hum remunerado mensalmente pelo cofre capitular com o ordenado SfOOO reis 
alem de varias propinasi. 

No seeuLo XVII passaram a ser pagos pela Fabrica. 

S5bre oa instrumentistas nao foi posslvel encontrar regiilamentacao neat da- 
dos sobre OS seus vencimeatos, mas a3 everbas de despesas>, que encontramos, 
--- dememstram que eram pagos pelas rendaa da Fabrica. 

Ao ordenado que frei Manuel dos Santos recebia e que Jose Mazza 
menciona no texto deve tirar-se um zero. .Onde esta 600 leia-se 60 mil reis a ficara 
certo. £ quanto Ihe da Barbosa Machado, que, alias, nao indica a quantia em alga- 
rismos mas. sim, por extenso. 

(iso) o Padre Manual Soares faleceu a 4 de Julho de 1756. A propasito de 
una responsfirios da autoria de um Padre Manuel Soares, que nao pode ser £ste, 
Mario de Sampayo Ribeiro admitiu a hipotese do Padre Manuel Rebelo, atras refe- 
rido, ter tido o nome complete de Manuel Soares Rebelo. (Cf. A M-feica em Portugal 
nos aieulos XVIII e XIX, pags. 43 e 44). 

( ln ) Trata-se de equfvoco de Mazza. Vide, mais ariiante, o Padre Marcos 
Soares Pereira, irmao do famigerado Joao Soares Reb&Lo. 

(«*} Padre Manuel Tavares pertence «o seculo XVII. Segundo Joaquim 
de Vaseoncelos, nasceu em 1625. (Ob. tit., pag. 197). Barbosa Machado, porem, nada 
diz a tal respeito e ou aquela data esta deeididamente mal, ou Barbosa Machado 
inventou a noticia sobre este autor. 

Se nasceu em 1625 ;'como poderia fazer parte da 'Capela de D. Joao III, que 
morreu em 1557? 

(las) p e i nome de Marcelino acode-me Frei Mareelino de Santo Antonio 
que compos a musica do Saerifitio puro, elogio aos an OS da Princeaa D. Maria Fran- 
ciaca Benedita, por Vicente Carlos de Oliveira, Lisboa, 1790. ^ 

Dieion&rio de InooSncio menciona outras obraa d"€ste autor, menoo esta. 

(Cfr. pag. 501 de tSubstdios... de Sousa Viterbo). 

( 1S1 ) Esconde-se sob o nome de Marcos Ant6nio da Fonseca Portugal, ou 
aimplesmente Marcos Portugal, o nosso mais celebrado compositor de operas, dis- 
tinto aluno do Seminario Patriarcal, onde ouviu as licoes de Joao de Sousa Carvalho. 

Nasceu no dia 24 de Marco de 1762 na freguesia de Santa Isabel, da Cidade 
de Lisboa e faleceu aos 68 anos, no dia 7 de Fevereiro de 1830, na Capital do Brasil. 

Marcos Portugal esteve em Italia e la fez «antar algumas das snas operas, 
que alcancaram grande exito entre o melhor que havia na epoea. 

Em 1800, data em que regressou de Italia, foi colocado como Mestre do 
Teatro de S. Carlos, substituindo seu cunhado Antonio Leal Moreira, que Ihe conee- 
deu de boa mente o lugar. 

cA obra de Marcos Portugal e natavel a varios respeitos e, especialmente, 
pelos progressos acusados na instrument a cao. Foi o primeiro portugues que empre* 
&ou elarinetes e por ainal que o fez com rara felicidade.> 

A sua obra e enorme e por isso mesmo desigual. Eacreveu tamtam muita 
musica de igreja, no genero da £poca e sem grande elevacao em geral. 

Foi politico e fez parte do partido frances, que festejou a entrada de Junot 
em Li3boa. Mais tarde, expulsos os francases, foi ter com a Famllia Real ao Rio 
de Janeiro e a! faleceu, devido a ataque apopletico. Os seus despojos voltaram & 
Patria em 1931 e foram depositadoa na cripta da Jgreja de Santa Isabel, onde tinha 
si do baptizado. 

(Cf. M. de Sampayo Ribeiro, Ob. tit., pag. 93 e Erneato Vieira, 
pig. 191, 2.° vol.). 



96 



M-CIONARIO B10GHAFW0 DE MGSIC'OS PORTUGUESES 



( 15S ) O Padre iMarcos Soares 'Pereira era irmao de Joao Soares Rebelo, ou 
Joao Lourenco Rebelo, coma tambem e conhecido, do name da mae. 

Ernesto Vieira diz que estudou na Capela Ducal de Vila Vicosa, ficando 
empregado como cantor na mesma capela onde chegou a ser meatre. 

Marcos Soares devia ser uns anos mais velho que o «Rebelinho> e estou em 
crer que ja teria ordens sacras quando saiu de Caminha para Vila Vicosa. Nesta 
conjuntura, nao parece verosimil que se deslocasse para tao longe como estudante 
ainda, mas, sim, como empregado, talvez capelao cantor ou coisa que lhe valha. 
Exerceria qualquer funcao dentro da capela e com tal proficiencia. que, com o andar 
dos tempos, se foi fazendo conhecedor mais ou menos profundo das regras da com- 
postura ao ponto de merecer ser Mestre da Capela Ducal de Vila Vicosa e raais tarde 
da Real. 

Seu irmao, chegou a Vila Vicosa com quinze anos e, se 6 certo que estudou 
ainda na vila ducal, e que foi mesmo, talvez, companheiro de estudc- de D. Joao IV, 
tambem e certo que, ao sair de Caminha (sua terra natal) ja nao vinha totalmente 
em branco na Arte, pois ja lhe chainavam grande muzico, dando a este gran.de o 
relativo desconto proporcionado aos quinze anos do Rebelinho. 

E se este vinha ja com alguns estudos, nao os traria mais completos sen 
irmao o P." Marcos Soares Pereira? Para admitir esta hipotese nao e precise, a 
meu ver, imaginar uma eseola do ■norte, cujo principal eentro de ensino fosse Braga, 
como quia o falecido Dr. Goncalo Sampaio. (Cf. Ob. tit., pags. 18 e 19). 

Qualquer pessoa dedicada & arte, quern sabe se inesmo de familia, os pode- 
ria ter iniciado nos segredos da composijao, desenvolvendo-lhes a cultura musical 
em relaeao a idade e ao engenho de cada um. Se o P.* Marcos Soares Pereira nao 
foi tao talentoso como o irmao, ninguem lhe negara valor, pois basta sabe-lo Mestre 
da ^Capela de D. Joao IV para disso nos convencermos. 

Nao me parece qua do facto do ^Rebelinho* ainda ter estudado no Colegio 
dos Reis, se deva concluir que o Padre :Marcos tambem o houvesse feito; a nao ser 
que Ernesto Vieira tivesse querido dizer que ele se desenvolvera musicalmente, visto 
ser cantor da capela, cujo repertorio — opulentissimo ! — lhe forneceria a pratica 
mais que suficiente para vir a ser mestre. 

P." Marcos Soares Pereira faleceu em Lisboa, aos 7 de Janeiro de 166!j. 
(Ver a nota n.° 123). 

(" B ) Ha no codice uma nota que diz que o nome de Mariana de Abreu devia 
ter-se seguido an de Marcos Soares Pereira. 

( 1SI ) Barbosa Machado nao atentou bem no que escreveu, donde o haver in- 
duzido em erro a muita gente. Ernesto Vieira remediou o caso, porem. Vila Lobos 
nao foi mestre de capela da sua Patria (Elvas), mas, sim, da Se de Coimbra. Ma- 
nuel Joaquim, como e 6bvio, nao se lhe refere. 

('") Segundo Ernesto Vieira (06. nit., 2." vol., pag. 18) a missa era a 
36 vozes reais e parece que nfio chegou a executar-se so pela dificuldade de juntar 
eoro tao numeroso. 

(i5s) Frei Miguel da Natividade professou a 8 de Setembro de 1658. Da festa 
do dia — a Natividade de Nossa Senhora — a razao de ser do sobrenome do cantor- 
■mor alcobacense. 

(lso) Parece que a Missa a que se refere o texto, da autoria de Nieolau da 
Fonseca, nunca existiu. No Catalogo da Livraria de D. Joao IV nao vem mencio- 
nada. Deste autor apenas insere noticia de tr£s Vilancicos. 

( 1S1 ) Padre Nieolau Ribeiro Passo Vedro estudou na escola de musiea reli- 
giosa estabeleeida por D. Joao V em Santa Catarina de Ribamar e da qual foi mes- 
tre D. Joao Jorge, italiano de nacao. 

Passo Vedro foi condisefpulo de Francisco Inacio Solano e de Luciano Xavier 
dos Santos. 

Faleceu em 1803. 



OICIONARIO BWGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 9T 



('•') fi possivel que Be trate de confusao com Manuel Tavares. Nao me paoece 
en'vel que, aos vinte e cinco anos, idade em que morreu, segundo o texto, fundado 
em Barbosa Machado, ja tivesse sido honrado no estranjeiro como mestre de capela 
de duas catedrais. 

Deve haver lapso ou confusao do Abade de Santo Adriao de Sever. 

(iB3j Na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra guarda-se, solta, utna 
oarte de sontraiw da obra de Moura, uniea sobrevivencia dela, an que suponho. 

O titulo exacts e hiker primum maUetorum quatuar, quinque, aex, s&ptem- 
que voeum. 

Nao sei onde havera exemplares das ma is vozes. 

(is*) a biografia que Jose Mazza traca deste musico wm (transcrita na obra 
de Ernesto Vieira (a pag. 65 do 1.* vol.), que, por sua vez, a tirou do jornal <0 
Co nimbri cense*, de 28 de Janeiro de 1871. 

Ha hoje mais alguns dados biograficos conhecidos, que se extralram do pro- 
cesao de habilitacao de Pedro Antonio Avondano para Cavaleiro da Ordem de Criato, 
bem como dum outro de habilitacao para Familiar do Santo Oficio, por parte de 
■eu irmao Antonio Jose Avondano. 

Pedro Antonio Avondano nao foi agraciado com o grau de cavaleiro da Or- 
dem de Cristo, por meritoa proprios, mas por meio de renuncia que nele fez Lufs 
Mendes Pestana, legitimo e primitivo possuldor daquela merc@, que lhe f6ra conc*- 
dida pelos services prestadoa, como militar, durante vinte-e-sete anos, desde sol- 
dado ate ao posfco de alferes. Com o habito tinha a tenc.a de vinte mil reis, que ficon 
repartida, 12J000 reis para Pedro Antonio Avondano e 8$000 reis para D. Maria 
Joan a Avondano, a cada urn dos quaia se passou o respective) padrao. 

documento e datado do Palacio de Nossa Senhora da Ajuda, 12 de Maio 
de 1767. 

fi porem sabido que esta renuncia nao podia ter realidade, sem primeiro 
ae ingtaurar um proceaso pelo qual se provasse que Pedro Antonio Avondano tinha 
os requisitoa exigido3 para entrar na Ordem de Cristo. Foi o que se fez. Pedro An- 
tonio Avondano, sujeitando-se as formal idades, requereu que fie procedesse ao 
exame das suas habilitacoes e que se lhe tomasse o respectivo deposito. A peticao 
teve o competente despacho, a 15 de Junho de 1767, sendo-lhe determinado que de- 
positasse a quantia de 50SOOO re'ia. 

No requerimento deelara Pedro Avondano que nascera em Lisboa, que fora 
baptizado na freguesia das Merces, que morava ao caho da Rua da :Cruz, e que era 
filho segundo de Pedro Jorge Avondano. Sea pai, baptizado na freguesia de S. Ni- 
cofau Magno da Villa de Novi, na Republica de Genova, viera aos dezanove anos 
para Lisboa, onde se casara, na fregueaia da Encarnacao, com D. Maria Luisa Lom- 
pre, baptizada na freguesia de S. Paulo. Pedro Jorge, sen pai, residira sempre na 
CSrte ate morrer. 

Entre as testemunhas que depuseram no processo, aparece um tal Manuel 
da Silva, barbeiro, que disse que Avondano tdava casa de baile publico na sua resi- 
dencia a rua da Cruz*. 

Frei Vicente de Jesus, de 73 anos de idade, terceiro franciscano e Mestre 
da Capela do Convento de Jesus, depos nos seguintes fcermos: que Avondano «ganhaiva 
a vida com a rabeca (que seu pai lhe tinha ensinado) tocando-a em todas as fun- 
joes, para que era chamado, tanto eclesiasticas como seculares; que havia anos a 
esta parte que dava na propria casa onde assistia baile publico aos estranjeiros 
e nacionais, recebendo ao tempo em que era chamado para as ditas festas a quan- 
tia de dinheiro por que se ajuatava, e que tambem era rabeca da Camara de Sua 
Majestade. Ouvira dizer que seu pai viera das partes da Italia para esta corte e 
que, por ser grande tangedor do dito instrumento, lhe fizera roerce el-Kei D. Joao V, 
do lugar de rabeca da sua camara, que sempre exencitara, o mesmo ean todas as 



SB 



DICJ0NAR10 BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



festas das igrejas a nas assembleias, por esportulas que recebia, tendo ao mesmo 
tempo a habilidade ou arte de fazer consertar todos as instrumentos de corda« e 
orgaos, 03 quais vendiai. 

Seguiram-se outras testemunhas, que nada mais adiantam ao que fica dito. 

Pedro Avondano nasceu em 1714, como se prova do asserjto do baptismo: 
«A dezesseis d'AbrU de mil sente (sic) centos e quatorze baptizei Pedro, filho de 
Pedro Jorge Avondano e Donna Maria Luiza. Padrinho Pedro de Castro, traba- 
lhador>. A margem do texto eata a aeguinte nota; tEste Pedro he filho de Pedro 
Jorge Avondano e sua mulher D. Maria Luiza, fez esta declaracao em virtude de 
uma sentence de justificacao, que fica no cartorio d'esta freguezia. Sete de Julho 
de 1752. O cura Joaquim Ribeiro de ,Carvalho». 

08 termos do baptismo e principalmente a nota a margem fazem suspeitar 
de anormalidade no caao, anormaiidade que de facto existiu. Pedro Jorge Avondano 
nao era ainda casado legHimamente, o que so fez no dia 11 de Fevereiro do ano 
seguinte. Pedro Antonio Avondano, segundo consta dos assentos da Irmandade de 
Santa Cecilia, faleceu em 1782. 

Os seus minuetes foram muito apreciados, especialmente pela eolonia inglesa, 
que mandou imprimir uma coleccao deles. 

(Cf. Sousa Viterbo, Ob, tit., pags. 65 a 76, e .Mario de Sampayo Bibeiro, 
A Musica em Portugal nos simios XVIII e XIX, pags. 78 e 79). 

— Em a nota 76, quando remeti o leitor para Ernesto Vieira, por causa 
da naturalidade portuguesa de Francisco Guerreiro, nao me ocorreu que o caso pu- 
desse ter novas raizes no trabalho de Mazza. 

Este Pedro Fernandes faz parte da teia que Barbosa Machado, na melhor 
fe deste mundo, engendrou com base na traducao de El viage de Jerusalem que hizo 
Francisco Guerrero, racwnero y maestro de la Sancta tglezia, de SevUla, aparecida 
em 1734, na qual, nao se sabe por que bulas, o tradutor se lembrou de acrescentar 
ao titulo a fantasiosa naturalidade de bejense do famigerado sevilhano. 

Barhosa Machado, conhecedor de varios pormenores biograficos de Francisco 
Guerreiro, em face da afirmacao rotunda de ele ser natural da cidade de Beja, desa- 
tou a compor as eoisas e viu-se na necessidade de transmudar em bejenses a Pedro 
Guerreiro, irmao mais velho de Francisco, e a Pedro Fernandez de Castilleja, seu 
grande mestre. Jose Mazza, arrimando-se a Barbosa Machado, desdobrou a noticia de 
Francisco Guerreiro e assim surgiu este < Pedro Fernandes que julgamos ser natural 
de Beja>. 

Trata-se, como e obvio, de Pedro Fernandez de Castilleja. 

( 16a ) nome exacto e Pedro da Fonseca Liizio, e nao Liicio. 
*—('•') 6 Pedro Guerrero, irmao de Francisco Guerrero. Veja-se a nota n.° I<i5, 

( la8 ) Sobre Pedro do Porto e seu famoso motete e indispensavel consultar 
o estudo de Mario de Sampayo Ribeiro, Sobre p fecko do tAuto da Cananexa, 
Lisboa, 1938. 

(issj Padro TaiesLO e hoje taiento muito discutivei, porque a sua famoaa 
cArte> e apenas filha da eruditissima e famosissima obra de D. Pedro Cerone, El 
Melopeo y Maestro (Sampayo Ribeiro, A Musica em -Coimbra, pag. 23). 

Quanto a ter sido o introdutor neates reinos da Musica de coros, tambem 
e hoje considerada afirmacao arrojada e menitirosa (Idem, Loc. ext.), 

Sucedeu a Pedro Correia na cadeira de lente de musica da Universidade de 
Coimbra. 

Por ter interesse a muitos respeitos transcrevo o documiento que segue: 
«Fez perticao a Vossa Magestade neste tribunal Marianna Thalezia, filha de 
Pedro Thalezio, deffunto, lente que foi da cadeira da Musica da Universidade de 
Coimbra em que dis que o dito seu pay leo a dita cadeira desoito annos com muita 
satisfacjio por ser eminentte na sciencia, por cujo respeito lhe fizerao a cadeira per- 



DI'CIONARIO BIOGRAFICO DE MOSICOS PORTUGUESES 



99 



petua em sua pessoa e foi acrescentado em des mil reis mais cada anno e por que 
ficou muito pobre » nao tern com que se sustentar e he casada como Pedro de Souea 
Vasconcellos, homem nobre e tao pobre que nao -tern nada de seu. 

Pede a Vossa Magestade, que tendo a tudo respeito « custumar sempre a 
aemelhances pesoas fazer merces de tencas em sua vida na3 rsndas da Universidade, 
lhe faca Vossa Mageatade mevee de lhe mandar dar alguma util para ajuda de 
sua sustentacao. 

O Reitor e deputados da fazenda da Universidade, a quern, como se custuma, 
se pedia informasao e parecer, inforcnao que nao ha razao para se fazer a Mariana 
Thalezia a merce que pede, porqucanto nao ha exemplo algum de Vossa Magestade 
nem os senhores reis seas antecessores a havenem feito a nenhum mestre de canto, 
nem aos filho3 dos leivtes das .oiitras sciencias, e somente se fizerao e fazem as 
Tiuvaa dos mesmos lentes, e ainda a estas se negarao muitas vezes. 

A sate tribunal pareceo que tendo Vossa Magestade respeito ao que Mariana 
Thalesia aiiega e ser juste que por filha do seu pae, ta.o benemerito, receba aigumr. 
merog, lha faca Vossa Magestade dos dez mil reis que seu pae tinha de acrescenia- 
mento pagos nas rendas da Universidade, e isto em sua vida somente, e ao doutor 
Sebastiao de Carvalho parece .0 mesmo que ao Pveiter e Deputados da fazenda, por 
nao ver rezao que obrigue a fazer similhante exemplo em dano das rendas da Uni- 
Tersidade. Lisboa 20 de dezembro de 629. = Tinoquo.> (Torre do Tombo, Mesa, da 
■Consmeneia e Ordens, registo de Consultas 1628 a 1630, n.° 19 de ordem, fol 14" 
in Sousa Viterbo, Ob. cit., pag. 537 e seguinte). 

Nao sei se a filha de Pedro Talesio lograria seu intento; o certo e que o 
fieitor e deputado da faaenda da Universidade nao se comoverara coin a desdita de 
Mariana Thalesia. 

( 1T0 ) Oucamos Manuel Joaquim: 

*A sua passagem pela Se de Elvaa so pode ter sido de 1694 a 1697, porque, 
da primeira data, temos documento do Padre Antonio Goncalves, na posse do lugar 
de mestre de capela, e sobre a ultima, Ernedio Vieira e muito claro quando diz: 
svoltando depois, em 1697, a fivora para substituir Melgaco (alids Melgaz) entao 
enfexmo, tornando-se seu sucessor quando este faleeeu em 1700.> 

Atraves de manuscrites do seculo XVII deparou-se-nos o registo do casa- 
mento ds urn Manuel Vaz com Brites Lopes, que, por certo, sao os pais do musics, 
que e objedio deste estudo, apesar de nao figurar em tal registo o sobrenome Rego. 

CA03 tres dias do mes de marco de mil e seis centos e sinquenta e oito annos 
recebi in fasiffi eclesia: na forma do sagrado Concilio trid.n a manoel uas com Breatis 
lopes foram testemunhas Joao senteno (?) e o sargento maior Rogero e otros, 
Prior ferndo Gil CasteUfi, — a margem le-se; Manoel Vaz com Brites Lopes. 

(Livros dos Cazados da Matriz de Campo Maior, de 1655 the 1672, fol. 17 v.*). 

O registo de baptismo de Pedro Vaz Rggo e feito em 19 de Marco de 1673, 
como se prova pelo seguinte documento: 

cAos dezanoue dias do mes de marco 1673 baptizej e pus 03 sanctos oleos 
* pedro f.° legitimo de M.*' Uas e breatis lopes forao padrinhos M." Duarte e M* 
Hoia f.» de p.° lopes e o asignej ut supra. O Vig." Diogo Lopes*. 

(Livro de Eaptizado3 da matriz de Campo Maior, de 1667 a 1678, fol. 117). 

E sobre Pedro Vaz Rego so podemos dizer que edtamos informados de que 
na Biblioteca Piiblica de fivora se conservam alguns dos seus vilancicos... 

(In Jornal de Elvas, ix." 74 e 78, respe.^ de 14 de Abril e 12 de Maio de 1929). 

Como bem notou Mario de Sampayo Ribeiro (in A .Wiisico em Portugal nos 
ttcutos XVIII e XIX, pag. 62) prova-se que Vaz Rego era mais novo tr& anos do 
que Barbosa Machado o faz, e fica a depreender^e que uko deve ter eido mestre 
de capela em Elvas. 



100 DtGIONARIO BIOGRAFICO DE MCSICOS PORTUGUESES 



Dada a referenda feita por Manuel Joaquim ao Padre Antonio GonealvM, 
julgo de interesse arquivar aqui as notleias que a consciencioso investigador den a 
respeito do sucassor do Padre Mestre Franciaco Martina (Jornal de Elvas, n." 64, 
'"5 e 74, eerie VI. respect ivamente, de 27 de Janeiro, 3 de Fevereiro e 14 de 
Abril de 1929). 

Eis os documentor que o identifieara como mestre de cape! a da Si de Elvas: 

No Liuro onde se esereuem os asemtos dos dobres dos sinos da S.'* Sfo desia 
eidade de Eluas e as couas q se abrem nslla. de 1660 s. 1700. a fol. 68 v.", e no mes 
de Fevereiro de 1694, le-se: 

lEm 8, mil e trez.'™ rs. dos sinos pela mai do m.' da cap.*--. 1300.* 

No Livro de defuntos de S. Pedro, de 1686 a 1724, a fol. 140, encontra-se: 

iBeatris Goncalves v." mai do P.' Mestre da Capelia da Se desta eid.» desta 
freg. 1 faleceo em sinco de Fev. ro de mil e seis centos nouenta e qualtro necebeo todos 
'is sacramentos nao fes testam.' enterrouae na ae e pox ver. d ' me asignei Elvas dia 
us sup. a) Ferndo Mis Soares Priors. 

No Liuro dos inuentairox da Santa See delvaa, de 1672 a 1690, a fol. 57 v.", 
e referente ao &no de 1685, encontra-se a seguinte passagem: 

«Outo quadernos de Responsorios de Duarte lb." estao em poder do Eeuerendo 
mestre da Capelia que de como os tem em seu poder asignou aqui 

a) O Mestre An.'" glz.t 

fistes oito codernos de Responsorios de Duarte L6bo sao os mesmos que o 
P.' Francisco Martins tinha em seu poder e a que fizemos referencia na sua biografia. 

uliimo documento com assinatura do P.* Antonio G.oncalves, como mestre 
de capela, e do ano de 1694 e encontra-se no Lduro dos Inuentarios da Santa See delvas, 
de 1656 a 1694, a fl. 78 v. Diz assim: 

iEs^es liuros de canto de orgao assima ditos q per todos sao doze comser- 
tados de quadernos e folhas de nouo se entregarao ao R. Aa mestre da Cappella e os 
tern em casa j de bajxo de chaue errecato maior o q p.* hisso se fez e assignou. a) O 
Mestre da Cappella — An.'' gls.t 

Temos citado «Inventarios da Se> de diversos anos, e como n esses inventa- 
rios ha notfcias de obras musicai3, que, por certo, eram executadas, nao resistimos 
ao prazer de mencionar os monumentos de arte polifonica, que estao registados no 
inventario de 1678, a fls. 33 e 33 v.*\ 

Ei-los: 

Dons lb." 1 de Manificas hum de Duarte Lobbo, de pasta, $ outro de Magalhai*, 
de purgaminho. 

Dons 16.°" com missus de Duarte Lobbo, em pasta. 
Opus lb."' de mote teg em pasta hit de Esquivel, outro de Vit.". 
Hu lb.' de /nits em pasta de Vitoria estd a cong&rtar em Evora 
Hum lb.° de missas de Magalhais em pasta. 

Doits lb."' de canto de organ hti tie motetes de MoraUez e outro de moo de 
uesporas que deu o M.' Fnw," Miz. 

Tres lb."' de missas emquadernados em pergaminho de Fr. M. fl Cardoso. 
Outro de Manifica de Fr. M.' 1 Cardoso emqitadernado em pergaminho bronco. 
Hu lb." de Rogel 'de canto de orgao. 

O referido inventario, alem dos oito oadernos de Responsorios, de Duarte Lobo, 
ja mencionados no decorrer deste trabalho, regista ainda: 

2 livros de missas, velhos e rotos, i passionarios, 10 Hvros de proeissoes, 
1 de vesperas velhas, 1 de hinos de todo ano, etc., etc. 

Tudo sem identificagao. 

Os identificados, porem, dao-nos bem uma id6ia do esplendor da Capiela da 
36 de lElvas, na segunda metade do seculo XVII. 



DICIONARIO BIOGRAFICO DE Ml'iSICOS PORTUGUESES 



101 



De tao grands riqueza musical, apenas descobrimos o Livro de Missaa a IV, 
V, VI e VIII vozes, de Duarte Lobo — infelizmente muito estragado — que foi im- 
press em 1621, na Oficina Plantiniana, de Antuerpia; o Livro de Magnificat de 
Frei Manuel Cardoso, impresso em 1613, e m Lisboa, na oficina de Pedro Craesbeck 
e urn Livro -manuserito, que talvez seja — esta suposicao e motivada por confronto 
de letra — o de uesporas q. den o M. e Fran."' Miz. 

i'Onde foram parar as joias de fino quilate da Arte Musical, que o referid/) 
inventario menciona? iPassou por Elvas aiguma horda na qual o vandalism*) su- 
bia ao zenite? 

iServiiiam es3as paginas sublimes, cantadas em iouvor de Deus, para car- 
regar as espingardas dos franceses? 
Proh pudor! 

iComo a nossa alma chora em face de tantos e tantos crimes de lesa-Corte! 

Em 1711 temos ainda noticia do P. f Antonio Goncalves na segumte documentoi 

*Aos 14 dias do mes de 9b.'° de 1711 se aceitou por irmao desta Confraria 
das Almas o R *• P.* Mestre Ant." GIz. e deu de esmola 120 Reis e prometeo guar- 
dar os estatutos da ditta Confraria de q. fiz este termo q. como e3CriuSo o asignei. 
Eluas de 9b." 14 de 1711. a) o Bnd.- felipe V ieira Tarrinho.t 

(Do Livro dos Irmd<>s das Almas da St. a S4 de Elvas, fol. 9). 

Dias depois ja nao era — e talvez o nao fosse ja em 14 de Novembro de 171 „ 
m «tre de capeia, porque no verso da folha citada, assina-se mestre de capeia 1\ 
P.* Domingaa Gomes, de quern teremos oeasiao de falar. ' 

Temo3 mesmo de apresentar a hipotese de qu e Antonio Goncalves servisse 
duas vezes o lugar de mestre de capeia, is to para dar lugar a Pedro Vaz Rego, citado 
em obras de musicologia como irfestre de capeia da Se de Elvas. Eiementos, que 
fabm do seu merito artistico, nao encontramos nenhuns e, por isso, vamos fechar 
estas notas com o assento de obito extraido do Livro de Oifitos da Se, de 1716 a 1741, 
a fl. 74, e que diz: 

«Em o dia vinte e tres do mes de outubro do anno mil sette centos « vinte e 
sette faleceu na Rua de S. Pedro o R. Antonio Goncalves quartanario em esta See 
natural da Villa de Olivenea; Recebeu 03 sacramentos e fes testamento seu Testamen- 
teiro Pedro Furtado seu sobrinho, foi sepultado em esta See do que fis este assento 
que assinei. a) O Vig.'» Domingoa Pereir a Canhao.t 

Esta noticia sflbre Peixoto da Pena e transiadada do Padre Joao Baptista 
de Castro — Mappa de Portugal, 2." vol., pag. 352. 

("*) Segundo Joaquim de Vasconeelos (Ob. eit, 2." vol, pag 187), frei Pla- 
cido de Sousa foi professor de musica em Lisboa, nos meados do secuio XVII e mes- 
tre de Vitorino Jose da Costa. 

< 1!3 ) Suponho tratar-se de Poiicarpo Jose Antonio da Silva Foi urn nota- 
vel tenor que viveu nos fins do secuio XVIII. Tunbem compos trechos de musica 
que exig la m das suas alunas cuidada preparacao artistica. 

Deve ter falecido nos priirfeiros anos de oitocentos. (Cf. Ernesto Vieira Ob 
dt., pag. 324, vol. II). 

("*) As palavras grif a da3 estao riscadas no .original. 

(»«) Aa palavras grifadas estao sublinhadas, nor outra mSo que nao a de 
Mazza, no original, 

(»•) Foi Mestre da Capeia do Hospital de Todos-os-Santos, em Lisboa, onde 
aucedeu a Pedro Talesio. 

. Quando, por morte de Pedro Correia, que fora nomeado lente de musica na 
Uruversidade de Coimbra em 13 de Outubro de 1594, vagou aquele lugar, Simao dos 
Anjos concorreu, mas fci preterido. 




102 



DICIONARIO BIOGRAF1CO DE M0S1COS PORTUGUESES 



O caso passou-se como vem contado nos documentos que seguem: 
*Fez peticao a Vossa Magestade nesta mesa Simao dos Anjos de Gouvea, em 
que relata que avera nove meses qu e reside na Universidade de Coimbra, esperando 
a vacatura da cadeira de musica, que ha dias esta vaga^ sem se fixafem editos, por 
aver duvida na qualidade e pesnas dos votos e ae terrier que, vagando a dita cadeira 
e prouendose em concurso seja possivel ser prouida em pessoa que nao tenha as 
partes que conuem a cadeira e Uni iters idade, por serem os vottos que os statutes 
assinaram poucos, dos quaes a maior parte nao tern conheciniento de musica nera 
de suas theoricas para poder eleger o cathedratico que conuem, e porque elie he 
consumado em musica e alem de ter seruido em outros cargos de mestre, o foi ja 
da capella do hospital de Vossa Magestade desta cidade e tern todas as mais partes 
que convem para reger aquella cadeira. Pede a Vossa Magestade, ou She faea merce 
da dita cadeira, achando-se que tem as partes que diz, ou seja seruido que aos vottos 
que pelos statutos sao ordenados para votarem no concurso se acrescentem todos os 
religiosos ouuinr.es da theologia, que sao as pessoas que na Universidade podem fa- 
zer a eleicao que convem para a Universidade ser bem seruida. 

slnfovmou o Rector da Universidade que o dito Simao dos Anjos foi religioso 
de 8. Joao Evangelista e he virtuoso e recolhido e que esta actu-almente prouido em 
hua capellania da Uniuersidade, e ainda que tem todaa as ditas partes, nao he tiio 
eminente que se lhe possa dtur esta cadeira de mere*, e que neste por.to She pareee 
que Vossa Magestade o deue mandar escusar, e que tambem lhe pareee que he muito 
justo que Vossa Magestade dispense no statuto e mande que votfem todos os theo- 
logos, porque nesta forma se prouera melhor a cadeira que lembra ha muitoB tem- 
pos esta vaga e he necessario prouerse com brevidade e so espera resolucao de Vossa 
Magestade. 

<Pareceo que a cadeira de Musica que o dito Simao doe Anjos pede de merce 
deue Vossa Magestade mandar se lhe nao dee e se vague (sic) na forma dos statu- 
tos pelas razoes que o Rector aponta; e quanto a hauerem de ser vottos nesta va- 
catura os religiosos cursantes na faculdade de theologia, sem embargo de nao serem 
licenceados em artes e o statuto da Universidade requerer que nos vottos concorra 
pelo menos este grao, considteradas as utilidades que resuliao sendo maior o numero 
dos vottos e de o serem religiosos que so tem sciencia na musica para poderem jul- 
gar quoal de o subjeito mais capaz e benemeritc- da cadeira, o que roe mais vottos 
de ordinario nao concorre. 

*Parece deue Vossa Magestade mandar que os religiosos sejam admittidos 
a votar, nao so no prouimento desia cadeira, qtfe de presente se espera, mais em 
todas as mais que succeder semelhante vacatura da cadeira de musica e que nesta 
forma se entenda .o statuto, por nao ser de inconueniente algum faltar aos religiosos 
o grao de licenceado em artes, por quanto o mesmo statuto que em todos os estudan- 
tea de Theologia requefe absolutamente o dito grao para poderem &er admitidos :i 
tomar os mais graos da faculdade de Theologia, nos religiosos declara que sem em- 
bargo de lhe faltar o grao de licenceados en artes sejao admittidos e que baste 
trazerem -todo o eurso ouuido de suas religioes e sendo neste ponto tao substancial 
os religiosos exceptuados aos mais estudanfes seculares, so por utilidade sua justo 
e que o sejao tambem em estoutro, em que a utilidade nao he sua mas do ben publico 
da Universidade e para melhor .provimento da cadeira. Em Lisboa a 23 de novembro 
de 1611. D. Francisco de Castro. Padre Domingoa Ribeiro Cre. J. Ferreira, Bel- 
chiov Dias Preto, Gaspar Pereira>. (Torre do Tombo, Mtsa da Consciencia e Ordem, 
registo de Consultas, de 1611 a 1613, n." 44 de ordem, foi. 143 v.) in Sousa Viterbo, 
Subsidies para a Hist&ria da Miiaiea em Portugal, pag. 270 f segs.). 

Na Biblioteca de fivora, na folha 30.» do codice que tem a cota 

axiste uma compoaicao da autoria de Simao dos Anjos e que julgo aer a unica que 



DICIONARIO BIOGRAF1C0 DE MtjSICOS PORTUGUESES 



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hoje ee Ihe atribui. Trata-se dum moteto para Domingo de Ramos — Pueri Huebraeo- 
rum a quatro vozes. Esta escrita em elavea altas e no Hoaanna modifica o anda- 
mento com um ternario. Parece-me Ser composicao de bom efeito. £ bastante aim- 
pies, notando-se no eSuperiuss, saltos bruscos e intempestivo3 de quintas e oitawas. 

('") O livro do Bacharel foi impresso em Burgos de Osma, por Diogo Fer- 
nandes de Cordova, em 1570 e saiu a coberto do seguints titulo: Vergel de musioa 
spiritual, speculativa y activa, del qual muchas diuersas y suuues flores se pii»de 
coger, S'irigido al yllustrissim-o e Reverendissimo Seiior don Francisco Tello de San- 
doval Obispo de Osma y del Consejo de Su Magestad. Autor el Bacluller Tapia Nu- 
mantixio. Tratase lo primero con grande artificio y profwndidade, las alabancas, las 
gracias, la dignidad, Ins virtudes y prerrogativas de h mitsica y deapuee las aries de 
cantollano, Organo y CoJitrapunto, en siima y en TheoHca... Uf ! 

(iTsj Trata-se do celebre missionario jesuita que conquistou fama de grande 
miSsico na China. Construiu um orgao para o Colegio dos jesuitas em Pequim. Fale- 
eeu em 1692 e tinha ido para o Celeste Imperio em 1G80. 

('"») Tiistao da Siiva, ou melhor Tristan de Silva, raau giado o que todo3 
teem dito, na esteira de Barbosa Machado, nao era por-tugues. Mario de Sampayo 
Ribeiro afirma (in A Margem do eCaneioneiro de Manuel Joaquim*, Lisboa, 1941, 
pag. 21) que era aragones e que veio de Tarazona para ea. O mesmo investigador, 
numa de suas admiraveis cronicas *De Musica> publicadas em Ocidemte (n.° 55, 
vol. XVIII, Novembro de 1942, pag. 332), voltou a afirma-lo e a propositi da apre- 
ciajao da investida do insigne Higino Angles contra o pretenso portuguesismo do 
autor dos Amables de Musicn. £ pena, porem, que, depois disso, ainda o ilustre prof. 
Luis de Freitas Branco (in Historia popular da mitsica, Edicoes «Cosmos», Lis- 
boa, 1943, pag, 77) chame a TristSo da Silva «o mais antigo compositor portugues 
do estilo vocal acompanhado». 

(isc) Vicent* Lusitano, celeberrimo teorico. 

tftulo da sua obra, que esereveu mais para abrandar o s=u rival, e o se- 
guinte: Introduttione facilissima e ■novissima di canto fermo, figurado, contraponto 
templiee, et in concerto, con regole geiierali per far fughe differenti sopra il canto 
fermo a S, 3 e i voci, e composition!, proportioni, generi diatonico, cromaticn, enar- 
monico. Roma, 1553, em 4.° de 86 paginas, com o retrato do autor. 

Sobre a motive da publieagao deste opusculo e celebre questao com D. Ntcolau 
Vicentino pode ver.se: Ernesto Vieira, Ob. cit,, pag. 41 e seguintes do 2." volume. 

(»i) Foi discipulo de frei Placido de Sousa, irmao do Marques das Minas. 



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INDICE 



PrefScio 5 

Dicionfirio *3 

Notas 4i 




Rtprodufdo facsitnilada um pouco 

redueida da i, a edifdo de JS72 
Prefdet'o * tiotas de cl*udio basto 
1 volume br. — a$toQ — tncod." — jstoo